ONU 70 anos: O otimismo dúbio do Irã de Rouhani

Caros leitores, prosseguimos a cobertura especial da 70ª Assembleia Geral da ONU. Você pode acessar todos os textos publicados (e os com publicação agendada) no índice da cobertura especial. Segundo texto do dia, analisando a fala de Rouhani, presidente iraniano, pensando no vindouro texto sobre Israel e Netanyahu.


Na segunda-feira, dia 28 de setembro, o presidente iraniano Hassan Rouhani falou no debate da 70ª Assembleia Geral da ONU. Com o pronunciamento do Primeiro-ministro de Israel, hoje, dia Primeiro de outubro, torna-se imperativo comentar a fala iraniana para contextualizar e comparar com o discurso de Netanyahu. Rouhani abriu lamentando a morte de mais de setecentos peregrinos durante o Hajj, na Arábia Saudita; a anual peregrinação muçulmana aos seus locais sagrados, que todo muçulmano deve fazer uma vez na vida ao menos. Aproveitou a situação para exigir do reino saudita velocidade nos trâmites burocráticos de identidade dos mortos e também uma investigação que cumpra as “obrigações internacionais” sauditas. O preâmbulo já demonstrava o que se comprovou: que o discurso de Rouhani seguiria as linhas da política externa iraniana recente.

Um desses elementos é o conflito geopolítico e religioso com a Arábia Saudita, muitas vezes discutido em diversas mídias do Xadrez Verbal. Diversos comentários “alfinetando” a outra potência regional, especialmente quando se referiu ao conflito no Iêmen, justamente entre uma facção xiita, apoiada pelo Irã, e outra sunita, apoiada pelos sauditas. Os conflitos regionais e o terrorismo baseado no extremismo foram outro importante componente do discurso iraniano. Iraque, Síria e o citado Iêmen; entre acusações veladas de uso de grupos terroristas por países, Rouhani alertou que, pior que grupos terroristas, são “Estados terroristas”. Clara referência aos elos sauditas do autointitulado Estado Islâmico.

Infelizmente e obviamente, o líder iraniano não mencionou, por exemplo, o Hezbollah, grupo xiita libanês que é financiado e armado pelo Irã. Rouhani fez alguns apelos para o combate ao terrorismo, a iniciativa WAVE. Criação de mecanismos de diálogo, cooperação entre Estados e governos e a paz pela via do desenvolvimento. Com a criação de uma governança do Oriente Médio que possa impedir as condições que levam ao terrorismo de sequer existirem, como questões sociais e econômicas. Outra pauta da agenda iraniana que dominou boa parte do discurso foi o acordo nuclear que possibilita que o país fique, progressivamente, livre de sanções e possa buscar a pesquisa no ramo de energia nuclear.

Agradeceu todos os negociadores, citando nominalmente os EUA, o Reino Unido, França, Rússia, Alemanha e a China. Colocou que o Irã se tornará uma referência econômica regional superando as “injustas” sanções, cujo fim são “um acerto” da ONU. E também vários auto-elogios, ao papel diplomático iraniano, que negociou, não se deixou levar por rancores e mostrou ao mundo que as negociações podem proporcionar situações em que ambos os lados vencem, “win win”. Ao encerrar o tema, um pedido para que todos os países signatários do Tratado de Não-proliferação sigam o exemplo. Um comentário velado sobre Israel, que não assina o TNP.

No mesmo contexto, um comentário nem um pouco velado. Um pedido para que o Oriente Médio seja estabelecido como uma região livre de armas nucleares e que não permitam que “o regime sionista” permaneça como o único impedimento para isso. Um lembrete importante, de fato: Israel não é signatário de nenhum tratado internacional sobre armamentos nucleares, químicos ou biológicos, além de possuir arsenais de todos os referidos tipos. Chegamos então ao quarto elemento da política externa iraniana. Sauditas, terrorismo, acordo nuclear e Israel. Na verdade, o termo “Israel” não aparece no discurso, já que, na perspectiva iraniana, esse é um termo religioso e étnico. O que existe é um Estado, chamado de “regime sionista”.

O “regime sionista” apareceu no penúltimo parágrafo de Rouhani. Ao falar das guerras, da instabilidade, destruição, inclusive de patrimônio histórico, e dos problemas “aos portões” dos EUA e da Europa, Rouhani disse: “Não podemos nos esquecer de que as raízes das guerras, destruição e terror de hoje, podem ser encontradas na ocupação, invasão e intervenção militar de ontem. Se não tivéssemos a invasão militar dos EUA no Afeganistão e no Iraque, e o injustificável apoio dos EUA para as ações desumanas do regime Sionista contra a oprimida nação da Palestina, hoje os terroristas não teriam uma desculpa para a justificativa de seus crimes”.

Primeiro, uma observação; a intervenção no Afeganistão não foi apenas pelos EUA, foi pela OTAN e com autorização do Conselho de Segurança da ONU. Continuemos. É inegável a relação entre os episódios citados e o extremismo, e diversas críticas são pertinentes, seja contra as ações no Iraque, seja a postura israelense, especialmente de seus últimos governos. A maneira com que Rouhani, coloca, entretanto, é dúbia. Os terroristas se apropriam desses eventos como justificativa ou esses acontecimentos realmente justificam o terror? Se ele fala em “desculpa” ao final, ele abre com a afirmação de que aí estão as raízes das guerras. O encerramento, após essa fala, retomou o clima de otimismo e de um futuro promissor para a região. Rouhani possui razões para otimismo, mas poderia fornecer, de forma mais explícita, essas mesmas razões ao mundo também.


Para ficar informado e ler, assistir ou ouvir os discursos na íntegra, você pode checar a programação do debate no site da 70ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.


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Filipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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