ONU 70 anos: A pequena grande Guiana, Venezuela e Colômbia

Caros leitores, prosseguimos a cobertura especial da 70ª Assembleia Geral da ONU, com algumas análises dos pronunciamentos de ontem, a abertura. Você pode acessar todos os textos publicados (e os com publicação agendada) no índice da cobertura especial. Seguimos o dia, que iniciou com análise comparada sobre Obama e Putin, seguiu com o discurso de Raúl Castro, de Cuba, e encerra-se com alguns dos discursos mais esperados do dia, Guiana, Colômbia e Venezuela.


O governo da Venezuela, nas últimas semanas, acirrou tensões com dois de seus vizinhos. Nicolás Maduro ordenou o fechamento de partes da fronteira com a Colômbia, expulsou colombianos da Venezuela e, no último dia 21, em Quito, teria chegado num acordo com Juan Manual Santos, líder da Colômbia. Dias depois, acordo violado. No mesmo período, acumulou tropas e violou o espaço soberano da Guiana, com quem o país possui histórica disputa, desde o século XIX, pela rica região mineral da bacia do Orinoco (chamada de Esequiba pela Venezuela). Os assuntos estiveram presentes na mídia nas últimas semanas, e tiveram destaque no podcast do Xadrez Verbal. Com pronunciamentos dos dois presidentes e de David Arthur Granger, presidente da Guiana, no mesmo dia na Assembleia Geral da ONU, a expectativa era grande. Por nada.

Granger foi justamente o primeiro que falou, um dos primeiros discursos do dia. Seu pronunciamento teve o título de “A segurança dos Estados pequenos no sistema internacional”. E colocou o dedo na ferida. Afirmou que, hoje, a ONU possui quase quatro vezes o número de membros que tinha quando foi fundada. A descolonização, as independências, muitas vezes de países pequenos, fazem desses países “filhos da ONU”. E é o caso da Guiana, independente em 1966. E a ONU se comprometeu à garantir um sistema internacional que proteja esses países pequenos e permita “seu pleno desenvolvimento”. Denunciou abusos venezuelanos nos últimos cinquenta anos, interferindo na soberania e na economia do país, por uma demanda territorial que o país já abdicou em 1899. Explica-se: a região de Esequiba era parte da Grã-Colômbia, entidade que antecedeu a Venezuela.

Em 1831, a Grã-Colômbia foi desmembrada e, em decorrência do processo de estabilização fronteiriço após as guerras de independência, a fronteira dos domínios britânicos teria sido colocada além de suas reais posses. No final do século XIX, arbitragem aceita pela Venezuela colocou as fronteiras onde elas estão atualmente; em 1962, após descobertas minerais, a Venezuela rejeitou o acordo e retomou a demanda territorial. Desde então, tivemos um histórico de intervenções venezuelanas em relação ao seu vizinho, que foram recapitulados por Granger, que também demandou uma postura mais firme das Nações Unidas, dos vizinhos (o que inclui o Brasil) e espera que as negociações agendadas com Ban Ki-moon sejam bem-sucedidas, após os países normalizarem suas embaixadas mútuas no Domingo.

Principalmente, colocou a Guiana como vítima de um “valentão”, uma economia quatro vezes maior, com forças militares quarenta vezes maiores, fechando seu discurso com seu ponto inicial: que a ONU deve proteger seus “filhos”, os pequenos Estados. Pouco tempo depois, foi a vez de Santos discursar na tribuna. Um discurso regojizante, anunciando e celebrando o acordo entre governo colombiano e as FARC, assinado em Cuba, com mediação, em partes, de Raúl Castro e do Papa Francisco. Mais de uma vez o “Santo Padre”, assim referenciado, foi citado no discurso. Comentários sobre paz no continente, soluções diplomáticas, renúncio ao conflito e estabilidade que beneficia todos podem ser interpretados como veladamente direcionados ao seu colega venezuelano e a tensão fronteiriça.

Palavras explícitas sobre a Venezuela e as fronteiras fechadas? As populações deslocadas? Nenhuma. De fato, a única pauta além das FARC em seu discurso foi sobre a Agenda 2030; mesmo essa, inserida num raciocínio de que a paz com as FARC possibilita o cumprimento dos novos objetivos. Horas depois, durante a tarde, foi a vez de Maduro. Invocando a Carta da Jamaica, de Simón Bolívar, pediu por uma “nova ONU”, que condene o imperialismo, o colonialismo e o fim das hegemonias. Pronunciamento de mais de meia hora, quase tão longo quanto o de Obama. Pediu por um novo sistema geopolítico, acusou crimes no Iraque, no Afeganistão e na Líbia. Apoiou o pleito argentino sobre as Malvinas e o pleito cubano pela devolução da baía de Guantánamo.

Maduro, hoje, na tribuna da AGNU, segurando uma edição de Carta da Jamaica, de Simón Bolívar.

Maduro, hoje, na tribuna da AGNU, segurando uma edição de Carta da Jamaica, de Simón Bolívar.

Sobre as fronteiras? Parabenizou Santos por seu acordo com as FARC. Afirmou que tudo será resolvido pela via diplomática com a “irmã Guiana”. Agradeceu a UNASUL e a CELAC pro providenciar plataformas ao diálogo. E justificou que seu país teve que “realizar ações nas fronteiras” para combater contrabando, comércio ilegal e tráfico. Foi tudo isso que Maduro disse sobre suas fronteiras nos trinta e cinco minutos de discurso. Defendeu seu regime e as eleições ao final do ano, afirmando que a democracia venezuelana é “das mais transparentes” do mundo, segundo o Instituto Carter. Apenas não mencionou que isso foi anos atrás e que o instituto retirou-se da Venezuela por considerar que o atual governo não está disposto ao diálogo com a organização, deixando as atuais eleições sem qualquer observação internacional.

Coube ao presidente Granger, da pequena Guiana, dizer ao mundo que um “valentão” concentra forças militares numa fronteira historicamente disputada. Denunciar e pedir proteção. Maduro falou por muito tempo e bradou por novas geopolíticas mundiais, mas foi ínfimo ao falar sobre sua própria casa, como se seu governo não tivesse nenhuma participação nos eventos e em sua desejada paz e estabilidade. Para Santos, o espírito de otimismo causado pelo acordo com as FARC eclipsou todo o restante, seus vizinhos pareciam sequer existir. É compreensível a atenção e a euforia com o acordo, afinal, é o mais longo conflito do hemisfério; mas, para quem se propõe como líder continental, foi algo restrito. Ao final do dia, no balanço da tribuna da ONU, quem foi grande foi justamente a Guiana.


Para ficar informado e ler, assistir ou ouvir os discursos na íntegra, você pode checar a programação do debate no site da 70ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.


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Filipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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