ONU 70 anos: Putin e Obama, discursos feitos um para o outro

Caros leitores, prosseguimos a cobertura especial da 70ª Assembleia Geral da ONU, com algumas análises dos pronunciamentos de ontem, a abertura. Você pode acessar todos os textos publicados (e os com publicação agendada) no índice da cobertura especial. Hoje, terça-feira, dia 29 de setembro, a expectativa maior é para os discursos de Colômbia e de Venezuela, considerando a tensão fronteiriça entre os dois países. Começamos o dia com uma análise comparada sobre Obama e Putin, dois dos principais discursos de ontem.


Os discursos de Obama e de Putin na Assembleia Geral das Nações Unidas, ontem, foram divididos por apenas noventa minutos. E deram a impressão de que foram feitos um para o outro, especialmente nos temas Ucrânia e Síria. Ambos os discursos abordaram o tema de meio ambiente, antecipando a COP21, em Paris, ao fim do ano, assim como também falaram da Agenda do Desenvolvimento Sustentável, o conjunto de objetivos da ONU que devem ser cumpridos até 2030. Foi nas duas tensões geopolíticas citadas e seus desdobramentos, entretanto, que os discursos se focaram. Em tons diferentes, em perspectivas diferentes, muitas vezes antagônicas, carregadas de alfinetadas, nem sempre muito discretas.

O discurso de Obama foi longo, como costumam ser seus pronunciamentos na ONU, mais de quarenta minutos de fala; habitualmente, os discursos da AGNU são de cerca de vinte minutos. Sobre a Síria, Obama formulou a retórica de que o regime de Assad não pode fazer parte da Síria após o conflito, não é um ator legítimo nas negociações; mais ainda, “o tirano” Assad seria o causador de tudo isso, ao reprimir, com extrema violência, protestos contra seu governo. Condenou ditaduras, por causarem essas situações, “os homens fortes de hoje despertam as revoluções de amanhã”. Disse que está disposto a colaborar com outras potências, incluindo Irã, Rússia e China, para resolver a situação. Colocou o autointitulado Estado Islâmico como um atentado contra toda a humanidade que deve ser combatido e, como sempre, que o grupo não representa a religião islâmica.

Ao falar da Ucrânia, Obama colocou que seu país tem “pouco interesse” na região, a não ser a paz, e que os discursos da Guerra Fria que levantam suspeitas sobre golpes e interferências de agências dos EUA é uma paranoia que fortalece governos que atacam a democracia. Que impedem a imprensa e a liberdade de opiniões e de expressão. Afirmou claramente que a Rússia anexou ilegalmente a Crimeia, à margem do direito internacional, o que representa um risco para a segurança coletiva mundial; um ato desses hoje pode legitimar outro similar amanhã, em outra região. A Rússia ainda mantém uma intervenção na Ucrânia, impedindo a paz e causando uma aproximação entre Ucrânia e Europa, justamente o que a Rússia não desejava.

A solução para o caso ucraniano seria a mesma solução adotada com o Irã. Quando o governo iraniano “infringiu a não proliferação”, um dos “princípios” da ONU, as sanções foram necessárias. Não como punição, mas para forçar o Irã de volta ao estágio de negociação. Com o novo acordo, que teve participação de China e de Rússia, que Obama fez questão de explicitar, o Irã agora tranquiliza o mundo, não conseguirá uma bomba nuclear e poderá desenvolver a energia nuclear pacífica. O tema do Irã e o discurso de Rouhani será abordado em um post dedicado aqui no Xadrez Verbal, posteriormente. Obama então usa o exemplo iraniano para justificar as sanções unilaterais contra a economia russa.

Putin falou por menos tempo, cerca de vinte minutos, como é o costume já citado. O líder russo não falava na AGNU há muito tempo, normalmente o papel era de seu Ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, o que também demonstra a importância da atual AGNU. Putin é mais direto em suas palavras, não possui a oratória requintada característica de Obama; entretanto, isso não deve ser confundido com crueza. Putin usa bem a ironia e o sarcasmo, tão bem que transmite a impressão de que seu discurso é uma caricatura intencional da argumentação de Obama, como quando condena “jogos de palavras”. Para o presidente russo, a situação na Síria só pode ser solucionada com participação do governo legítimo de Assad. Não incluir o atual governo de Damasco é não aprender a lição dos erros cometidos no Iraque em 2003. Mais, apenas o exército sírio e os militantes curdos são os grupos que legitimamente combatem o EI.

O início da crise na Síria e a consequente onda de refugiados? Reflexo do financiamento e armamento estrangeiro de uma resistência “moderada” contra Assad; as aspas aqui não denunciam citação, mas a ironia usada por Putin. Ao ponto de um quase jogo psicológico, colocando as “últimas informações” sobre transferência de armamento deixam claro quem financia a oposição síria; que, após ser treinada e armada, “deserta para o EI” (sendo que Obama falou justamente de treinar grupos na região). Assim como Obama, Putin coloca que o grupo não representa a religião islâmica e pede que os líderes religiosos usem sua autoridade para minar o extremismo e sua capacidade de recrutamento. Finalmente, coloca que o grupo se financia com o comércio paralelo de petróleo, em que “países inocentes” auxiliam. Uma clara referência ao papel saudita e seu elo com o EI, já denunciado aqui no Xadrez Verbal.

Ao falar da Ucrânia, Putin coloca que o país, historicamente ligado à Rússia, foi alvo de um golpe fascista apoiado por interesses obscuros. Que a situação é decorrente de uma política agressiva que expandiu a influência europeia e da OTAN para o leste, apesar de protestos e de suspeitas. Até o momento em que a Ucrânia foi pressionada com uma “falsa questão”, de ou você está com o Leste ou com o Oeste, um pensamento “da Guerra Fria”. Acusação frequentemente feita justamente à política de Putin; ou seja, o líder russo coloca que ele apenas defende os interesses de seu país, não é ele o proponente dessa política agressiva. Sobre as decorrentes sanções econômicas, Putin alerta que elas são feitas fora da OMC e da ONU, atitudes unilaterais e que comprometem a estabilidade.

As principais alfinetadas de Putin foram feitas em sua introdução. As Nações Unidas seriam fruto da luta contra o fascismo e da luta contra Hitler, e sua concepção nasceu em “nosso país”, na cidade de Ialta, na Crimeia; Putin deixa então claro que a Crimeia é parte da Rússia em sua perspectiva. Segue para dizer que o fim da Guerra Fria viu emergir um “único centro de dominação”, que, ao se ver “no topo da pirâmide”, ficou tentado em pensar que é forte e excepcional e pode agir de acordo com sua conveniência. Recado direto ao papel dos EUA no mundo nas últimas décadas e a política externa excepcionalista do país.

De fato, o próprio Obama transmitiu essa ideia em partes de seu discurso. Os EUA e seu modelo comercial e de democracia, embora “imperfeito”, seriam um exemplo para o mundo. E o fato de o país ser a maior potência do mundo seria a maior prova do sucesso do modelo e da política dos EUA, que “aprende com seus erros”. O discurso de Obama alternava entre falas mais firmes e momentos mais idealistas, buscando a negociação, o comércio e que o desenvolvimento é o melhor caminho para a paz, contra ditaduras e o autoritarismo que “demonstra medo”. Já Putin buscava apontar as falhas e contradições desse raciocínio, colocando que autoritarismo e agressões podem ser disfarçados em aproximações políticas, um “mundo de protetorados subordinados às potências”. A conclusão é de que, além dos idiomas, literalmente, Obama e Putin parecem não falar a mesma língua.

Putin e Obama posam para as câmeras antes de encontro bilateral após os discursos na Assembleia Geral da ONU

Putin e Obama posam para as câmeras antes de encontro bilateral após os discursos na Assembleia Geral da ONU

Eleições e política interna de Obama

O discurso de Obama, por ser mais longo, foi mais detalhado em alguns aspectos e abordou outros temas não presentes no pronunciamento de Putin. Por exemplo, as relações do país com Irã e com a China foram citadas diversas vezes. Obama claramente usou seu discurso para uma finalidade que já gerou críticas à Dilma Rousseff: abordar temas de política doméstica e dar recados aos atores políticos internos ao seu país. É importante lembrar que é a penúltima vez que Obama falará na AGNU como presidente de seu país e, mais que isso, a última vez antes das próximas eleições dos EUA.

Aqui é curiosa fazer outra comparação. Se o tom de Putin era mais cínico e Obama abusou de sua oratória e aspectos idealistas ao falar para a comunidade internacional, o presidente dos EUA usou do cinismo quando falou sobre política, mas para seu público doméstico. Afirmou diversas vezes o compromisso de seu governo com a crise de refugiados, com o recebimento de imigrantes e a tolerância de prática religiosa, enquanto “pessoas querem construir muros”. Que ninguém deve ser reprimido pelo seu “direito de culto” ou, especificamente, por ser islâmico. Só faltou citar Donald Trump ou Ben Carson nominalmente.

Ao defender uma coalização internacional contra o terrorismo e o extremismo, afirmando que seu país está comprometido com ataques aéreos e outras operações necessárias. Em meio ao discurso idealista de cooperação e tolerância, declarações fortes como “Lidero o maior poder militar que o mundo já viu e não hesitarei em defender meu país e seus aliados, unilateralmente e pela força, quando necessário.”. Disse saber dos problemas do mundo, pois eles estão em sua mesa todos os dias; mas que “a América” não pode resolver todos os problemas do mundo e que seu país aprendeu com os erros do Iraque, que custaram dinheiro de seu tesouro e a vida de seus cidadãos.

Todas essas declarações eram intercaladas com indiretas sobre pessoas que acham que um governo forte é um governante agressivo, pessoas “em meu país” que acham que temos uma nova Guerra Fria e que buscar o diálogo é justamente o que um governante forte faz. Todos recados claramente direcionados aos republicanos que o acusam de fraco, de ser omisso com um declínio dos EUA ou que buscar o diálogo com Cuba é fraqueza; de fato, Obama pediu, na ONU, ao seu próprio congresso que suspenda o embargo “que não deveria mais existir”. Obama usa seu prestígio internacional para contribuir em deixar um legado também em sua política doméstica: o primeiro democrata que elege seu sucessor.

Encontro bilateral

Após a troca de farpas e a exposição de suas perspectivas e agendas políticas na tribuna da ONU, Obama e Putin tiveram um encontro em portas fechadas. Foi a primeira reunião bilateral dos dois líderes desde 2013. Por uma hora e meia, cada um acompanhado de reduzida comitiva. Pouco antes, os dois se encontraram no almoço oferecido por Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU; o sul-coreano teria intencionalmente providenciado que cada um se sentasse ao seu lado, deixando-os na mesma mesa como “aquecimento” para a reunião. É desse almoço que saiu a foto do brinde que ilustra esse texto, com o olhar fixo de Putin em Obama e vice-versa.

Putin classificou o encontro bilateral como “construtivo, prático e surpreendentemente franco”. Pode-se apenas especular o que Putin definiria como “surpreendentemente franco”. Obama não respondeu perguntas após o encontro, temos apenas as respostas de Putin e “fontes anônimas” na comitiva de Obama. Putin afirmou descobrirem que possuem muitos pontos em comum, além das “discordâncias já conhecidas”. O principal foco da conversa foi a situação na Síria. Os ataques aéreos da coalizão, que seriam ilegais, pois não autorizados pela ONU ou solicitados pelo governo sírio, o que legitima as operações russas. A principal divergência continua sendo o papel de Assad; os EUA lutam “contra o terror”, a Rússia luta contra o terror e pelo regime sírio.

Aqui entra uma mistura de análise com estimativa. Merkel já aceitou que Assad faça parte das negociações sobre o futuro da Síria. O ditador sírio tem apoio incondicional da Rússia. França e EUA são seus maiores críticos. O caminho provável é de uma solução negociada, que reúna o que ainda resta do governo de Damasco e parte da oposição, especialmente a secular. Um “novo velho” governo, no qual Assad é substituído ou renuncia, é preservado e um novo aparato de Estado é formado incluindo o partido Ba’ath; o mesmo partido do antigo Iraque e o mesmo tipo de solução defendida por setores dos EUA após a queda de Saddam Hussein. No futuro próximo saberemos como será a luta contra o EI na Síria. A comunicação militar entre os diversos atores já foi estabelecida, com um centro justamente em Bagdá.


Para ficar informado e ler, assistir ou ouvir os discursos na íntegra, você pode checar a programação do debate no site da 70ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.


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Filipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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12 comentários

  • Felipe, estou acompanhando os teus textos aqui e no OperaMundi, assim como os discursos na ONU quando possível. Uma sugestão, seria interessante se tivessem mais imagens nos posts, sobre os eventos citados. No mais, ótimo texto.

  • “Sobre a Síria, Putin formulou a retórica de que o regime de Assad não pode fazer parte da Síria após o conflito,”

    Não seria Obama?

  • Felipe, ótimo texto!
    Estou acompanhando o blog, o canal do You Tube e o podcast. Sim, estou fissurada!
    Faço estou acabando agora o curso de Relações Internacionais e tinha muita dificuldade de encontrar de forma compacta notícias da área que pudessem ser lidas/assistidas nos meus intervalos.
    Ótima ideia fazer a cobertura da AGNU. Apenas uma sugestão, seria muito bom se você pudesse explicar melhor como funciona a AGNU e a sua importância.

  • Felipe, acredito que na 14ª linha, seja “Obama” onde se lê “Putin”: “Sobre a Síria, Putin formulou a retórica de que…”

    Abraço.

  • “O início da crise na Síria e a consequente onda de refugiados? Reflexo do financiamento e armamento estrangeiro de uma resistência “moderada” contra Assad; as aspas aqui não denunciam citação, mas a ironia usada por Putin. Ao ponto de um quase jogo psicológico, colocando as “últimas informações” sobre transferência de armamento deixam claro quem financia a oposição síria; que, após ser treinada e armada, “deserta para o EI” (sendo que Obama falou justamente de treinar grupos na região) (…) Finalmente, coloca que o grupo se financia com o comércio paralelo de petróleo, em que “países inocentes” auxiliam. Uma clara referência ao papel saudita e seu elo com o EI, já denunciado aqui no Xadrez Verbal.”

    Que bela sequência de frases constrangedoras para o cinismo ocidental.
    Queria ver as expressões faciais do Obama e dos grandes líderes da UE nessas partes específicas do discurso do Putin.
    Demais.

  • Acredito que uma desestabilização do governo sírio pode objetivar uma nova região a ser conquistada pelo EI, tomando a posição de Putin como melhor solução além de outros argumentos utilizados por ele. Além desta política de protetorados americanos, herança da política do Big Stick e a doutrina Truman, onde a Síria tornaria-se uma região estratégica se fosse guarnecida pelo governo americano em relação a Rússia. Putin tem razão em salientar os erros cometidos no Iraque em 2003 pelos EUA e agindo em defesa da geopolítica russa. Espero não estar sendo muito conspiratório nas minhas ideias, tendo prestígio pela política russa. Resta saber qual vai ser o nome que darão a esta “nova” “Batalha de Poitiers” às portas ou quintal (não querendo ser preconceituoso ou anti-semita) da Europa.

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