O quê representa o assassinato agendado de Mohamed Morsi?

No último 16 de maio, o ex-presidente egípcio Mohamed Morsi foi condenado à morte por “incitar a violência” e liderar a rebelião, em 2011, na prisão de Wadi el-Natrun, que também serve como prisão política. Morsi foi o primeiro líder egípcio eleito pelo voto direto e universal, em pleito aberto, em junho de 2012, sendo deposto em julho de 2013. Da junta militar que o depôs veio o atual presidente do país, Fattah el-Sisi. Recapitulando um tema já visto aqui no Xadrez Verbal, existem duas perspectivas antagônicas no país: o mais antigo e mais articulado partido do país é a Irmandade Muçulmana; o poder, na maior parte do tempo, esteve na mão dos militares, que se enxergam como guardiães do Estado egípcio e a IM como uma ameaça. A execução de Morsi pode ser um tiro no próprio pé dos militares.

O texto usa o termo “assassinato agendado” pois, independente do que se pense sobre a pena capital, está longe de ser o caso de um judiciário independente e democrático. Não é razoável considerar a execução de Morsi nos mesmos parâmetros de uma sentença de morte no estado da Califórnia, por exemplo. Sisi foi “eleito” com 98% dos votos em uma eleição cujo maior partido do país foi banido (a IM está na ilegalidade, no momento) e em que menos da metade dos eleitores votaram. Seu governo é de caráter autoritário; segundo a Human Rights Watch, são cerca de quarenta e um mil prisões arbitrárias e mil execuções de integrantes da IM, incluindo processos em massa. Um mesmo juiz expediu cento e oitenta e três sentenças de morte em um mesmo processo em 2015, e Morsi foi condenado junto com outros cento e três indivíduos, a maioria palestinos acusados de serem integrantes do Hamas, julgados in absentia.

A questão principal está presente em uma frase do parágrafo anterior. A Irmandade Muçulmana passou décadas na ilegalidade, nunca cessou de existir; pelo contrário, muitos momentos de grande repressão apenas fortaleceram o partido. Além das críticas de entidades internacionais, como a Anistia Internacional, que classifica as execuções legalistas como um “expurgo”, resgatando o termo habitualmente usado sobre o governo de Stálin, a postura de Sisi também gera críticas dos vizinhos. O presidente turco, Recep Erdogan (longe de exemplo de democrata), afirmou que o país está retornando ao “Egito antigo”. Tudo isso para, supostamente, proteger o Egito do terrorismo islâmico e mantê-lo como um país secular e republicano.

Esses eram os ideais de Nasser, o pai do Egito moderno e do pan-arabismo republicano e nacionalista, mas que claramente foram distorcidos pelos últimos governos militares egípcios. É no mínimo irônico confrotar a Irmandade Muçulmana, chamando-a de extremista, por defender um pan-arabismo religioso, sendo que as sentenças judiciais egípcias precisam ser aprovadas pelo grande Mufti. Um clérigo. Por isso que a sentença de Morsi ainda não foi confimada, não por caber uma apelação judicial aos moldes dos tribunais ocidentais, mas por caber a revisão religiosa. O atual governo militar do Egito usa o discurso da secularização para justificar seus atos, como a derrubada de Morsi. Se Morsi estava tomando poderes demais, certamente a maneira de corrigir isso não é o executando, muito menos com a chancela de um clérigo em um governo “secular”.

Confirmada a sentença e realizada a execução, a Irmandade Muçulmana terá um símbolo, um mártir, como nunca antes. Um líder político, eleito pelo voto popular, derrubado do poder pelos inimigos do partido, executado em processo midiático e fajuto. Os extremistas usarão isso como combustível para mais violência. Os moderados adotarão o discurso de que isso demonstra o tamanho da IM, e a ameaça que o grupo representa aos “donos” do Egito. A resposta virá com mais violência, mais proibição, mais repressão, mais ditadura. Em 1981, o então presidente egípcio, Anwar Sadat, foi morto por extremistas islâmicos. O resultado foi trinta anos de ditadura Mubarak. Caminhamos para a repetição.


assinaturaFilipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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