A maior ameaça ao processo de paz em Israel vem do cinismo das urnas

Na última semana, Benjamin Netanyahu, atual Primeiro-ministro de Israel, assegurou a maioria das cadeiras no Parlmento israelense, o Knesset, ao seu partido, o Likud. Para poder formar um governo praticável, Netanyahu precisará se articular com outros partidos israelenses, especialmente os de direita Casa Judaica e Yisrael Beitenu e os partidos ortodoxos Shas e Judaísmo da Torá Unida. De qualquer forma, Netanyahu certamente garantirá seu quarto mandato como Primeiro-ministro, igualando o recorde de Ben-Gurion. Sua eleição, entretanto, renova ameaças e mostra que as urnas israelenses não estão preocupadas com o processo de paz na região.

O tema Israel e Palestina é muito presente nesse espaço; recomenda-se que, antes de acusar-se o autor do texto de qualquer adjetivo, leia-se o que já foi publicado por aqui sobre isso. Voltando, Netanyahu sequer se dá mais ao trabalho de disfarçar suas intenções e seu desprezo ao estabelecimento do Estado palestino, reconhecido por mais de 70% da comunidade internacional. Nos dias anteriores ao pleito eleitoral, Netanyahu afirmou que não existirá um Estado palestino enquanto ele for o líder de Israel. Também garantiu que os assentamentos israelenses em terras palestinas ocupadas, um dos principais ataques do país ao Estado palestino, continuarão.

Netanyahu chegou ao ponto de ser censurado pelo principal aliado de Israel em sua História, os EUA. A Casa Branca, via porta-voz, expressou preocupação com o uso da “retórica de divisão” do político israelense. Na terça-feira, dia 17 de março, Netanyahu, em vídeo, pediu a presença dos israelenses pois já que seu governo estaria “sob ameaça” da grande presença de eleitores árabes nas urnas. Tais eleitores são cidadãos israelenses e representam grande ameaça, aos olhos da direita, ao caráter sionista e judeu de Israel: o país poderia se tornar um Estado para dois povos. O vídeo eleitoral de Netanyahu, além de censurado pela Casa Branca, foi alvo de críticas e de sátiras dentro de Israel, sendo classificado até como “discurso de ódio”.

Ironicamente, a Lista Árabe Unida, coalizão partidária que representa a minoria árabe-israelense, tornou-se a terceira força política do país, com treze cadeiras no Knesset, de um total de 120. A segunda força é a União Sionista, coligação partidária de centro-esquerda, formada pelos Trabalhistas e pelo Hatnuah. Os trabalhistas, partido de alguns dos principais líderes israelenses, como Golda Meir e Yitzhak Rabin, assassinado por um judeu radical pelo seu compromisso com a estabilidade na região. A eleição, apertada, adicionada aos discursos radicais de Netanyahu fez com que a União Sionista e seu líder, Isaac Herzog, deixassem claro que serão opositores ao novo governo, independente da coalização partidária formada. As palavras e ações de Netanyahu alimentam o radicalismo.

Tanto o radicalismo islâmico, do “outro lado”, o mais falado, como o radicalismo israelense, movido pelo tipo de discurso exclusivista do Likud. Mesmo após um conflito que deixa milhares de mortos ser condenado pela comunidade internacional, mesmo após boa parte dos países do mundo reconhecerem um Estado palestino, Netanyahu foi eleito. Seu discurso radical foi chancelado pela população. Após sua eleição, sequer recebeu um telefonema de Barack Obama; foi congratulado por John Kerry, Secretário de Estado. O cinismo de Netanyahu fica evidente após garantir sua vitória, quando renega suas palavras. Tanto sobre os árabes-israelenses quanto sobre a Palestina. “Quero uma solução dois Estados, pacífica e sustentável. Mas, no momento, as circunstâncias têm que mudar”. A principal circunstância que deve mudar é quem é o líder de Israel e o que querem suas urnas.


assinaturaFilipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

 

 


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