Cinco anos de governo Mujica: lições para a direita e para a esquerda

Nós políticos temos que viver como vive a maioria e não como vive a minoria

José “Pepe” Mujica

Tomou posse, ontem, Tabaré Vázquez, Presidente do Uruguai pela segunda vez. Vázquez já ocupou o cargo entre 2005 e 2010, sucedido por José Mujica, que passou a faixa presidencial ontem. Ambos são da Frente Amplio, coligação de partidos uruguaios de centro-esquerda e esquerda, parte do Foro de São Paulo. Após os cinco anos de seu governo, qual o balanço que se pode fazer do governo do ex-guerrilheiro do grupo Tupamaro, José Mujica, que prefere ser chamado pelo apelido Pepe e ficou marcado como carismático e humilde? Em sua política interna e em suas relações exteriores? Mais ainda, em tempos de ânimos acirrados e suspeitas de todos os esprectros políticos, o governo Mujica mostrou alguns dos caminhos que a esquerda latino-americana pode, ou poderia, tomar, com sucesso.

Na política interna do Uruguai, o mais evidente e mais falado foram as novas medidas sociais do país. Desde dezembro de 2012, as mulheres uruguaias podem interromper, legalmente e com respaldo, a gravidez, até a décima segunda semana da gestação. Um balanço oficial do governo uruguaio informou que, no período de um ano de vigência da lei, foram realizados 6.676 abortos seguros. Em abril de 2013, o Uruguai aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em maio de 2014, o Uruguai legalizou a venda de maconha no país e, em fevereiro de 2015, regulamentou-se o uso da droga para fins medicinais e pesquisas terapêuticas. Como a droga será comercializada ainda está sendo debatido e não foi regulado, mas Mujica deixou claro que seu objetivo é tirar o financiamento do narcotráfico.

Mujica e sua esposa, a Senadora Lucia Topolansky, no Fusca azul dirigido por "Pepe" (Foto: AP/Matilde Campodonico)

Mujica e sua esposa, a Senadora Lucia Topolansky, no Fusca azul dirigido por “Pepe” (Foto: AP/Matilde Campodonico)

A última medida social será parcialmente do governo de Mujica. Em dezembro de 2014, o Legislativo uruguaio passou a Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual; a lei discute a reforma no setor de telecomunicações no país. Após o apoio de Pepe, a iniciativa será regulamentada pelo governo de Vázquez. O objetivo da lei é evitar a concentração econômica no setor de telecomunicações e alavancar a concorrência e a pluralidade na oferta de serviços e de conteúdos. Nas palavras de Pepe: “Eu não quero que o Clarín ou a Globo sejam donos das comunicações no Uruguai”. Todas essas medidas demonstram um elemento essencial para um governo democrático, o prestígio e a aprovação popular de Mujica. Sem isso, não teria a maioria no Parlamento e não conseguiria aprovar tais pautas. Pepe encerrou 2014 com 64% de aprovação.

Sua política externa foi uma soma desses dois elementos, avanços sociais e sua luta pessoal, com a tradição de neutralidade e de afirmação do Uruguai. Seu foco foi a resolução e mediação de conflitos, parte de uma meta maior, a integração latino-americana. Em março de 2013, Pepe aceitou o pedido dos EUA para receber presos vindos de Guantánamo, conhecida base dos EUA em Cuba que foi o cerne de muitas críticas por violações de direitos humanos. Mujica declarou que os abrigaria na condição de “refugiados” e, em dezembro de 2013, os EUA confirmaram que seis indivíduos foram transferidos para o Uruguai. Em outubro de 2014, o Uruguai recebeu refugiados sírios, após oferta de Mujica; quarenta e dois sírios, formando famílias inteiras, receberam asilo, acompanhamento profissional, emprego e moradia.

Ainda em relação à Cuba, em dezembro de 2014, Barack Obama, Presidente dos EUA, agradeceu Mujica pelo seu papel como um dos mediadores do acordo de reaproximação entre EUA e Cuba; mesmo assim, Mujica manteve parte de suas críticas ao governo dos EUA, pedindo o fim do embargo e a libertação de presos cubanos e do líder porto-riquenho Oscar López Rivera. Nas últimas semanas de seu governo, Pepe, reunido com Evo Morales, Presidente da Bolívia, anunciou os planos da construção de um porto de água profundas que será utilizado também pelo país andino, que reivindica uma saída oceânica desde a derrota na Guerra do Pacífico, em 1883. A saída para o mar é a principal pauta da política externa boliviana e o cerne de suas relações com o Chile, que é acusado, pela Bolívia, de descumprir tratado internacional sobre o tema. Com a provisão negociada por Mujica, espera-se que os ânimos se acalmem e uma solução definitiva seja alcançada pelos vizinhos.

Para mim é um emprego qualquer. Tomo banho e vou trabalhar

José “Pepe” Mujica

Mesmo suas críticas eram guiadas pelos princípios citados; por exemplo, Mujica é ferrenho crítico da atual política argentina, por considerar que o país está retrocedendo a integração regional, com uma perspectiva baseada em soberania dos anos 1960. No fórum internacional máximo, a Assembleia Geral da ONU, avanços sociais e luta também foram o tom. Seu pronunciamento de 2013 entrou para a História; quarenta e cinco minutos de uma mensagem de solidariedade e construção, criticando individualismos e a destruição ambiental. O discurso pode ser lido, na íntegra e em português, aqui. Após todo esse processo político, crítico e progressista, seu governo é coroado, também, com avanços econômicos.

A economia do Uruguai, durante o governo Mujica, cresceu mais que o dobro da média mundial. Segundo o Banco Mundial, de 2010 a 2013, o crescimento da economia uruguaia foi de, respectivamente, 8.4%, 7.3%, 3.6% e 4.3%. Os anos do primeiro mandato de Vázquez também foram de crescimento econômico. Um governo de esquerda, uma sucessão de governos de esquerda, que realmente se engaje em novas medidas sociais, que tenha respaldo popular, demonstrado por maioria legislativa, não implica necessariamente em “populismos bolivarianos” ou em caos econômico; o setor terciário da economia uruguaia é uma ótima demonstração disso. Mais ainda, o governo Mujica recolocou o Uruguai no mapa internacional, um dos líderes mundiais mais prestigiados do último quinquênio.

Colagem de fotos atribuídas como de "Pepe" Mujica. Da esquerda para a direita: no início dos Tupamaro, segunda metade da década de 1960; foto para um registro policial no início da ditadura, início dos anos 1970; foto em cartaz da ditadura com lista de "codinomes", final dos anos 1970; em evento político após a reabertura política, segunda metade dos anos 1980.

Colagem de fotos atribuídas como de “Pepe” Mujica. Da esquerda para a direita: no início dos Tupamaro, segunda metade da década de 1960; foto para um registro policial no início da ditadura, início dos anos 1970; foto em cartaz da ditadura com lista de “codinomes”, final dos anos 1970; em evento político após a reabertura política, segunda metade dos anos 1980.

Ao seu modo de ser, imprimiu os mesmos valores que defende domesticamente na política internacional, priorizando a integração, o diálogo e a oferta de apoio aos elos mais fracos das correntes. Mujica, um ex-líder guerrilheiro e membro de partido do Foro de São Paulo, famosíssimo nas bocas e nos teclados conservadores brasileiros, ao aceitar presos de Guantánamo, fez mais pelos EUA do que qualquer militar da Operação Condor. É claro que seu governo, pelas características de Pepe e de seu país, não é um modelo exato, que pode ser simplesmente copiado. O Uruguai é geograficamente pequeno e sua sociedade é bem particular, mas, se não é um modelo, é um exemplo.

Mujica certamente será mais lembrado pelas características quase folclóricas de sua pessoa, como seu Fusca azul, que continuou a usar como Presidente e recusou vender por ofertas absurdas. Ou o fato de dar entrevistas e aparecer em eventos oficiais de sandálias, com grandes unhas aparentes em seus pés. De ter doado 90% de seus salários, totalizando quase meio milhão de dólares, e ter recusado o palacete oficial como residência. Mujica foi maior que isso. Um exemplo de democracia, de sociedade, de política e de como pode se fazer muito, mesmo dispondo de pouco. Um exemplo para reflexão tanto na direita conservadora brasileira, que veria nele um símbolo de tudo que ojeriza, tanto para a esquerda fragmentada no Brasil, que tem nele alguns caminhos que perdeu de tomar.

Não há nenhum vício bom, nenhum salvo o do amor

José “Pepe” Mujica


 

assinaturaFilipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

 

 


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4 Comentários

  • Nao concordo com todas as praticas e leis adotadas, mas o que me chamou atençao foi bom dialogador que é, Coisa que falta e muito em nosso governo.

    Gostaria realmente de entender o que fez o Uruguai crescer tanto nos ultimos anos. Se for algo semelhante ao governo do PT, podemos esperar que o Uruguai tome o mesmo caminho e comece a desmoronar.
    Embora nao me pareça que ele segue um plano bolivariano e de poder no Uruguai, como foi na Venezuela e é aqui no Brasil, onde o povo paga a conta em troca de populismo, acreditando que existe um bem maior que é a salvaçao dos pobres.

  • Tomar medidas que não concordava, foi o ápice de seu governo, pois mostrou que política é para todos e não para o ego ou para a própria consagração do político! Incrível grande pepe.

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