A política externa de Obama no State of the Union

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Na noite do dia 20 de janeiro de 2015, o Presidente dos EUA, Barack Obama, proferiu o tradicional discurso do início do ano, o Estado da União. O discurso serve para informar ao Congresso, em sessão conjunta, sobre o momento do Executivo, a agenda legislativa da presidência e as prioridades nacionais do governo. O Estado da União desse ano teve dois ingredientes diferentes. Pela primeira vez na História, o discurso foi divulgado antecipadamente ao público, com uma cobertura em tempo real e interativa disponível. E, pela primeira vez desde seu primeiro mandato, Obama se dirigiu a um Congresso em que seu partido, os Democratas, está em minoria em ambas as casas. Seu discurso foi dividido em três blocos: a economia dos EUA, a política externa do país e reflexões sobre a sociedade e sobre a política, pedindo uma conciliação no legislativo. O objeto desta análise será sobre seu conteúdo de política externa e geopolítica.

Em sua introdução, Obama coloca que o século XXI foi “aberto” pela chegada do terror nas “costas” dos EUA, o que levou o país a lutar duas custosas guerras. Uma “mudança de página” ocorre, com a economia dos EUA em recuperação, o país “livre da dependência do petróleo estrangeiro” e o final, com a gratidão de Obama, da “9/11 Generation”. Então, Obama coloca o país como “a liderança mundial”, no singular. Fala da necessidade de “liderar sabiamente, usando todos os elementos de nosso poder para derrotar novas ameaças e proteger nosso planeta”. O trecho inicial contém dois apelos muito claros, especiais ao público dos EUA. O primeiro é o do atentado de Onze de setembro de 2001, colocado como divisor de águas, tanto na cronologia quanto em gerações. O segundo é o de evocar os EUA como hegemônico, mas, agora, em uma “liderança sábia”.

Esse papel de liderança internacional é citado mesmo no primeiro trecho do discurso, dedicado a discutir a economia do país. Obama coloca que os trabalhadores e empresas dos EUA estão em desvantagem, pois a “China quer escrever as regras da região que mais cresce no mundo”; óbvia referência à derrota dos EUA na busca por um acordo comercial que envolva a costa asiática do Pacífico, tema tratado em texto desse autor no Opera Mundi. Obama pergunta ao público o motivo de deixarem isso acontecer e afirma: “Nós deveríamos escrever essas regras”. Prossegue para pedir maior autoridade ao Congresso e ter mais autonomia para assinar acordos de livre-comércio, para “proteger os trabalhadores” dos EUA. Em outras palavras, Obama joga a culpa da derrota dos EUA para a China tanto no Congresso quanto nos sindicatos, que movimentaram inclusive políticos democratas para bloquear propostas de livre-comércio, suspeitando que postos de trabalho “migrariam” dos EUA.

Obama abre o trecho sobre política externa afirmando que o “novo século” ensinou que não se pode separar o trabalho interno dos “desafios além de nossas linhas costeiras”. Lembra que seu primeiro dever como Comandante-em-Chefe é defender os EUA e, por isso, não é “se” os EUA lideram o mundo, mas “como”, defendendo a citada liderança sábia. Evoca combinação de poder militar com uma diplomacia forte e coloca, logo em suas primeiras palavras, o foco do discurso: o terrorismo. Oferece solidariedade “da escola no Paquistão até as ruas de Paris”. Evoca as parcerias político-militares do país, como a entre EUA e Afeganistão, com o país americano fornecendo treinamento para as forças locais garantirem a primeira transição democrática do país. Lembra o mundo, entretanto, que os EUA continuam a se reservar o direito de “agir unilateralmente” contra o terror que ameaçam o país e seus aliados.

Obama dedicou bastante tempo de sua fala em temas do Oriente Médio. Pediu que o Congresso demonstrasse “união” na missão de combate ao terror, autorizando o uso da força contra o autointitulado Estado Islâmico. Afirmou que estão apoiando a “oposição moderada” na Síria; o pedido e a afirmação são quase contraditórios, já que apoiar a oposição síria beneficia, direta ou indiretamente, o EI e sua política sectária. Obama dedicou bastante tempo ao Irã, comentando que, pela primeira vez em uma década, o estoque de material nuclear iraniano diminuiu. Pela segurança dos EUA e de seus aliados, como Israel, defendeu a negociação de um acordo. Nesse tema, Obama foi agressivo em dois momentos. Dispôs-se a usar “todos os meios” para impedir um Irã nuclear e afirmou que é contra produtiva a política de sanções do legislativo; ele vetará todas as leis que sancionem o Irã.

Outro tema que recebeu muita atenção de Obama foi a relação do país com Cuba. Afirmou que se encerra uma política obsoleta que falhou por cinquenta anos. Repete-se o diálogo com a política interna, pedindo que o Congresso comece o trabalho para encerrar o embargo; tema em que enfrentará grande resistência dos Republicanos, como explicado neste texto no Xadrez Verbal. Em meio às citações do Papa Francisco e ofertas de amizades, o motivo geopolítico é percebido em suas palavras: retomar a ideia de um hemisfério homogêneo, sem “desconfiança”. Obama também coloca os EUA como “comprometidos com a Justiça”. Por isso, “é hora” de encerrar as operações “que o mundo condena” em Guantánamo. Obama também coloca um motivo pragmático para isso, o custo da operação da prisão.

Além desses aspectos principais, Obama também citou, com menos dedicação, outros temas de política internacional. As relações com a Ucrânia e a Rússia, repetindo as palavras proferidas na ONU, afirmando que não se pode admitir que “nações maiores pratiquem bullying com as menores”, e que as sanções estão deixando a economia russa “em frangalhos”. Agradeceu os esforços de americanos na luta contra o ebola. Lembrou novamente do eixo Ásia-Pacífico, afirmando que estão trabalhando para que os países “sigam as regras”. Afirmou que o “maior desafio” hoje é o desafio da mudança climática, lembrando-se do acordo entre EUA e China para diminuírem suas emissões de gases, as “duas maiores economias do mundo”; Obama poderia dizer “os dois maiores poluidores do mundo”, mas isso não combina com seu discurso otimista. Obama também citou o cyber terrorismo, evocando, de forma implícita, o caso da Sony, afirmando que isso prejudica os cidadãos e a economia do país. Também afirmou que trabalham para regularem “novas tecnologias”, como drones.

Tanto nos temas em que dedicou mais atenção quanto nos outros temas, as falas de Obama tiveram alguns elementos constantes. O primeiro é o de adotar um discurso otimista e conciliador, temperado com falas mais agressivas e ameaças veladas. O segundo é o de evocar responsabilidades da “nação líder”, colocando objetivos ambiciosos, como nas questões climáticas e sobre privacidade na internet; ao mesmo tempo, ignora a falta de responsabilidade passada, como a displicência do país em Kyoto, as mortes ilegais de inocentes via drones e o caso Snowden, quando a violação da internet veio de dentro. Um tom popular e sentimental, evocando diversas vezes a falácia de “proteger as crianças”; do clima, de hackers, do terror. E, finalmente, o tom ambicioso esbarra na realidade e no pedido de conciliação. Sem a colaboração do Congresso, que o ouvia e onde é minoritário, Obama pouco poderá fazer. Para colocar os EUA em sua idealizada liderança sábia, Obama precisará de sabedoria em suas articulações internas.


Caso o leitor queira ler o discurso na íntegra, em inglês, pode acessar este link.

 


assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

 


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