Somos servos do Tempo

O texto de hoje é, caso tudo corra normalmente, o último texto do Xadrez Verbal em 2014. Como avisei esses dias, entraremos em uma pequena pausa até segunda-feira, dia Cinco de janeiro de 2015. Ninguém é de ferro, vocês viajarão, descansarão, tudo ficará mais devagar. Claro que, em caso excepcionais, voltamos. As redes sociais do blogue, Twitter e Facebook, continuarão, e vocês fiquem totalmente confortáveis em entrar em contato com o blog. Minha ideia inicial era escrever um texto fazendo um breve balanço do ano do Xadrez Verbal. Tivemos então a notícia da morte do cantor Joe Cocker, aos setenta anos de idade, e tudo mudou, o texto de hoje será diferente. Devem ter reparado que está na primeira pessoa, enfim, essas coisas de estilo que dá pra perceber. Agora, o que tem a ver o título que cita Shakespeare, a morte de Joe Cocker, esse texto, esse blog?

JoeCocker

O subtítulo do blog é História, política e autoterapia. Meu bom amigo Tiago, ao escrever por aqui, até destrinchou o “slogan”, transformando cada elemento em uma parte do seu texto. Este texto que vocês estão lendo (se ainda estiverem por aqui) encaixa mais na categoria autoterapia. Minha vida gira em torno do Tempo. A de todos nós, na verdade, de forma consciente ou inconsciente. A minha, entretanto, é consciente até demais em alguns momentos, e grafo Tempo com maiúscula por falar não apenas do ponteiro no relógio, mas do conceito de totalidade, da concepção de Tempo, de Chronos, a personificação grega do tempo. Devaneios de quem sempre foi apaixonado por História e decidiu tomar isso por ofício, fazer faculdade de História e ser um pseudo-historiador. E qual a base da História e da política? Exatamente o Tempo, então, por mais que o texto seja autoterapêutico, ainda se relaciona aos outros temas do blog.

Tempo é a base de tudo, na verdade, normalmente nem percebemos. Planejar a festa de ano novo é tomar o Tempo como garantido. Cultivar bons causos com os amigos é lembrar do Tempo. Se arrepender, seja da flecha atirada ou da palavra dita como o ditado piegas, é lamentar o Tempo que já foi e não volta. Para isso, os gregos tinham outro nome: Kairós, aquele momento específico, o tempo da oportunidade. Caso o leitor seja fã de Sepultura, certamente já sabia disso. “Em busca do Tempo perdido”, já escreveu Proust. Duvido que algum texto na História das internets fale de Proust e de Sepultura no mesmo parágrafo. Voltando, tudo gira em torno do Tempo.

Pode existir “amor à primeira vista”, mas o que consolida um relacionamento, seja ele qual for, romântico, familiar, fraterno, sorório, é o Tempo. Ele também destrói, cura feridas, enfim, vocês já entenderam meu ponto. Só que, repito, a maioria das pessoas não pensa muito nisso, apenas em momentos extremos. “Ah, daqui a pouco passa”, diz um amigo ao que termina um relacionamento. Comigo, não. Minhas paixões, meus temores, em sua grande maioria, estão ligados ao Tempo. Quando criança, não queria ir para a Disney, queria ir para Atenas, visitar suas ruínas. Sim, você pode achar que fui uma criança esquisita, mas não é isso: na minha cabeça, a Disney não teria História, enquanto a Grécia exala História pelos poros, é um museu em céu aberto. Já falei aqui que trabalhei em museu. E o que é um museu? Um preservador do Tempo.

Ok, Tempo é a base da minha cabeça meio esquisita e a base dos elementos que originaram e sustentam esse blog, mas o que Joe Cocker tem a ver? Como já mencionei algumas vezes aqui (tô meio repetitivo, desculpem), um dos motivos do nome do blog é eu gostar de xadrez e o jogo me lembrar muito meu pai, que me ensinou. Meu pai, para quem não tenha lido e não precise ficar voltando nas páginas do blog (por motivo de: não ser obrigado), morreu em 2002. E ele gostava muito de Joe Cocker. Tanto que acabei começando a gostar, quando moleque. Depois, gostei de verdade, lá pelos catorze anos. O disco (é, eu falo disco) preferido do meu pai era o Organic. Você não sabe quem foi Joe Cocker? Ele ficou muito popular no Brasil pela sua gravação de With a Little Help from my Friends dos Beatles, que servia de abertura para a série Anos Incríveis. Cujo último episódio foi produzido em 1993, então, enquanto eu me sinto um idoso, você encha essa cara de vergonha e vá descobrir quão genial foi Joe Cocker.

Toda vez que ouvia Joe Cocker, lembrava do meu pai. Tinha vezes que a ordem dos fatores era inversa. Trabalhando na última madrugada, nem vinte e quatro horas atrás, estava ouvindo justamente o Organic. Aí vem o Tempo e prega essa peça, com essa coincidência, esse turbilhão de lembranças (que são uma demonstração do T…tá, vocês entenderam). Convenhamos, setenta anos, câncer, é foda, mas Joe Cocker certamente cumpriu seu papel. Fez muita gente feliz, fez muito sucesso, ficou bem louco, cantou coisas incríveis; mesmo já velho e com problema de saúde, o vozeirão rouco e os tiques das mãos, fruto de anos e anos de todos os entorpecentes de Woodstock (ele tocou no festival original), ainda davam um pau na maioria dos “artistas” que poderiam ser netos dele. Imagine um clássico do rock, do jazz ou do blues. Coloque em sua voz. Pronto, temos outro clássico. Beatles, Creedence Clearwater, U2, Eric Clapton. Sintetize tudo isso e teremos Joe Cocker.

E, no final de 2014, o ano e o homem se vão. Não adianta. Somos servos do Tempo. Restam as memórias, restam seus discos, restam as fotografias. Meu pai sempre falava que iríamos em um show do Joe Cocker juntos, ele quase veio em um Free Jazz da vida. Dos tempos que a indústria tabagista tentava disfarçar sua mortandade patrocinando coisas legais. Não deu tempo de irmos, meu pai morreu antes. Vida que segue, Tempo que carregamos. Não é uma noção espiritual, mas o Tempo segue, e não apenas nos objetos dentro dos museus. Você é Tempo, suas relações, sua ascendência, sua descendência, suas obras. Eu sou Tempo, meu pai junto e também. Joe Cocker também é Tempo, uma intersecção em que se cruzam filhos e pais, netos e avós, casais, irmãos. Uma música, uma lembrança. Alguns anos atrás, 2012, Joe Cocker esteve no Brasil. Nunca fui em um show seu. Somos servos do Tempo que passou.

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Como dito, voltamos ao normal dia Cinco de janeiro. Bom Ano Novo para todos.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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