A feminilidade em teste no esporte

– Por Giovana Capucim e Silva

O que é um homem? O que é uma mulher? Qual o limite entre eles? São mais iguais do que diferentes? Ou mais diferentes do que iguais? Um poderá se tornar o outro? Essas são perguntas que podem adentrar nossa mente após assistirmos ao excelente A Pele que Habito de Pedro Almodóvar. São também questões centrais nesse texto. A proposta não é filosófica, como pode, a princípio, parecer, mas uma reflexão que passa pela História da medicina e recorre a casos das últimas décadas do esporte mundial para pensar os limites entre o masculino e o feminino.

O historiador francês Alain Corbin bem avisou que “a história do corpo é indissociável do olhar que se lança sobre ele”. A medicina ocidental tem sua origem na Grécia Antiga. Naquele tempo pensava-se que os corpos de homens e mulheres eram estruturas análogas, cuja principal diferença estava na temperatura. Os corpos dos homens eram mais quentes, fazendo com que suas estruturas reprodutoras fossem externas, já os das mulheres, mais frios e, portanto, com estruturas internas. Aristóteles defendia uma metáfora em que a mulher era um vaso onde o homem depositava sua semente. Aliás, a principal estrutura reprodutora feminina, o útero, vem do grego hister, que quer dizer, vaso, ostra. As visões que se tinham sobre o corpo feminino no universo ateniense refletiam o que se julgava o comportamento adequado para as mulheres. Para quem desconhece as funções femininas na sociedade ateniense, recomenda-se ouvir Mulheres de Atenas de Chico Buarque, mas para resumir pode-se dizer que se esperava que elas fossem passivas, obedientes e submissas. Não por acaso, comparadas a um vaso.

Na Idade Média, grosso modo, já que é um período bastante longo e diverso, a ideia de corpos iguais, calores desiguais, manteve-se. Com ela, manteve-se a ideia de que as mulheres não poderiam esquentar demasiado seu corpo, pois isso traria sérios riscos para sua feminilidade. Numa época marcada por massas analfabetas, a principal forma de educação dos corpos, além da Igreja, encontrava-se na transmissão oral de histórias moralizantes. Além daquelas de lobos nos bosques, romanceadas pela indústria do entretenimento infantil, podemos encontrar algumas que ensinavam, também pelo medo, as meninas a se comportarem. Havia a história da menina, de cerca de quinze anos, que correndo atrás de porcos, saltou sobre uma vala, abrindo demais as pernas e, com o corpo aquecido, seu corpo expeliu seu órgão sexual, transformando-a num menino.

Poder-se-ia trazer muitos relatos da História da humanidade que nos apontariam exatamente aquilo que disse Corbin: o corpo é o mesmo, homo sapiens sapiens, a cultura muda, e com ela, os significados sociais do corpo. A antropologia explora casos exemplares nesse sentido. Um estudo clássico da década de 1930, da antropóloga estadunidense Margareth Mead, Sexo e temperamento, mostrou que existiam tribos em que os homens eram sensíveis, afetuosos, passavam parte do dia a enfeitar-se e cuidar das crianças, sendo dependentes emocionalmente, enquanto as mulheres eram agressivas e dominadoras, estabelecendo relações menos emotivas e mais impessoais. A noção de que os corpos masculino e feminino são “naturalmente” designados para certas atividades é apenas uma expressão do nosso desconhecimento sobre a natureza. Alguns dirão que apenas as mulheres podem carregar um filho. Correto. Isso não quer dizer, no entanto, que a natureza determinou que à mulher cabe ser mãe. Se fosse o caso, não haveria mulheres estéreis ou que optassem por não ter filhos. Se fosse da natureza, a pessoa não poderia pensar e escolher, apenas seguiria os instintos, algo mais próximo do que chamamos filosoficamente de natureza que da cultura.

E o que tudo isso tem a ver com esporte? Provavelmente, não há local em que as diferenças entre homens e mulheres sejam tão exaltadas na mídia quanto no esporte, seja ele qual for. E quando um corpo questiona o binarismo instituído homem-mulher, transitando pelos comportamentos e aparências esperados para cada um dos gêneros, há sempre reações no sentido de ridicularizá-los ou de buscar encaixá-los num dos padrões estabelecidos. Dos anos 1970 até os 2010 diversos corpos abalaram as estruturas binárias do esporte em nível mundial. O mais recente é o da velocista sul-africana Caster Semenya (cuja fotografia ilustra a capa do post), que após vencer o ouro mundial foi acusada por um jornal inglês de “ser homem”. Isso não impediu, no entanto, que uma multidão de compatriotas e autoridades a recebessem como heroína em seu retorno ao país. Dirigentes e até pesquisadores envolvidos no caso colocaram as carreiras em risco para proteger a atleta. Os resultados dos testes realizados pela IAAF (entidade que gere o atletismo internacional) nunca foram divulgados, sua medalha foi mantida e ela voltou a correr cerca de um ano depois do início das denúncias. As investigações buscavam apontar se Semenya seria intersexo, comumente (e erroneamente) chamado de “hermafrodita” – esse termo aplica-se aos animais, não às pessoas.

Semenya é, contudo, uma exceção no que diz respeito ao tratamento dispensado às atletas que se encontram fora dos padrões – em termos de aparência e desempenho – esperado para o seu gênero. Em 2006, a indiana Shanti Soudarajan perdeu sua medalha de prata nos 800m dos Jogos Asiáticos por apresentar mais cromossomos “Y” que o esperado. Além de lhe ter sido cassada a medalha e o direto a competir, ela foi impedida de estudar para conseguir ser treinadora por conta de “problemas” na definição de seu gênero. Em 2012, enquanto Semenya era a porta-bandeira sul-africana na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, Soudarajan trabalhava oito horas por dia num forno de tijolos para ganhar um salário mínimo médio recebido pelas mulheres, claro, inferior ao que em geral se paga aos homens. Aliás, na hora de definir seu pagamento não houve questionamento sobre sua feminilidade.

Shanti Soudarajan

Shanti Soudarajan

No Brasil o caso mais famoso é, sem dúvida, o da judoca Edinanci Silva. Ao garantir sua passagem para as Olimpíadas de Atlanta (1996), a judoca de apenas 19 anos passou a ser submetida a uma série de testes que apontaram a necessidade de uma intervenção cirúrgica. Isso porque o COI (Comitê Olímpico Internacional), desde as Olimpíadas da Cidade do México em 1968, obrigava todas as atletas a se submeterem a um “teste de feminilidade”. A ideia era atestar que todas eram “realmente” mulheres e, portanto, não teriam nenhuma “vantagem” na competição, zelando pelo princípio da igualdade de condições competitivas. Quando a atleta é aprovada no teste, ela recebe um cartão rosa que é necessário para poder competir. Ao se perceber que Edinanci não passaria pelo teste, iniciaram um processo de diversas intervenções em seu corpo para que ela pudesse representar o Brasil.

Sem entrar em detalhes sobre a violência que é modificar, de diversas maneiras, o corpo de Edinanci para se adequar aos padrões do COI, sua vida e sua intimidade foram invadidos pela imprensa brasileira de todas as maneiras: desde piadas sobre o quanto ela se parecia com um ou outro jogador de futebol, indagações sobre seu desejo de se casar, se tinha um namorado, manchetes sobre o fato de ter raspado o cabelo e, finalmente, um resultado de teste de feminilidade mais esperado que lista de vestibular. Edinanci competiu até as Olimpíadas de Pequim, em 2008. Mas sua longa e bem-sucedida carreira não foi suficiente para que os questionamentos sobre ser ela “mulher de verdade” cessassem.

A judoca Edinanci Silva nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Foto: Flavio Florido/UOL/Folha Imagem

A judoca Edinanci Silva nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Foto: Flavio Florido/UOL/Folha Imagem

Muito menos famoso que o caso de Edinanci, a jogadora de vôlei Érika também teve de fazer tratamentos com hormônios para poder passar no teste de feminilidade do COI. Nunca ouviu falar disso? Érika, ao contrário de Edinanci, é uma mulher branca, dentro dos padrões de beleza e de gênero, além de praticar o voleibol, esporte no qual a presença de mulheres é socialmente aceita há muito tempo. Para se ter um comparativo, o judô feminino, entre outros esportes, foi proibido no Brasil até 1979.

Érika Coimbra na equipe Rexona, em 1999, antes de seu tratamento hormonal.

Érika Coimbra na equipe Rexona, em 1999, antes de seu tratamento hormonal.

Assim como Semenya e Soudarajan tiveram tratamentos diferentes dispensados pelas federações de seus países e pelas entidades internacionais, Edinanci e Érika tiveram tratamentos totalmente diferentes por parte da imprensa que criou narrativas diferentes para as trajetórias de suas carreiras. A comparação desses casos é relevante para se perceber que não há uma única forma de ser mulher – nem de ser homem. Também o tratamento dado a casos como esses dependem de vários fatores políticos e culturais para serem “solucionados”. E por isso, entenda-se: encontrar uma maneira de encaixar esses corpos num padrão ou ridicularizá-los. Dessa forma, não permitir que a norma estabelecida seja questionada ao se apresentarem formas humanas que negam o senso comum.

A aparência de uma genitália, assim como a quantidade de cromossomos Y ou de testosterona não definem o sexo de um indivíduo, muito menos se ele tem vantagem ou não numa competição. Se assim fosse, a chinesa Ye Shiwen que aos 16 anos nadou a última parcial dos 400m Medley mais rápido que o campeão da prova masculina seria, na verdade, um homem, ou teria tomado testosterona? Ou, ainda, seria ela a prova viva de que a suposta vantagem do corpo masculino sobre o feminino está com os dias contados, já que o treinamento pode reduzi-la e, parece, anulá-la?

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gicapbGiovana Capucim e Silva é mestranda em História Social pela Universidade de São Paulo, membro do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol) e do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebl e modalidades Lúdicas). Uma das autoras do livro “O Brasil e as Copas do Mundo: Futebol, História e Política”, pela Editora Zagodoni. Textos de Giovana Capucim. 

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