Adeus, Roberto.

Caros leitores, como boa parte de vocês já devem saber, faleceu ontem o comediante e escritor mexicano Roberto Bolaños, eternizado como seus dois principais personagens, Chaves e o Chapolin Colorado. Foram com essas palavras que o post de ontem começou, a primeira parte dessa “despedida”, se é que se pode dizer, com um vídeo contando a biografia de Bolaños, com diversas participações especiais. Agora, por qual motivo se falaria de Roberto Bolaños em um blog sobre História e política? Pois o blog também é sobre cultura, e todos os três elementos se relacionam na obra e no legado do mexicano. Tentando fugir um pouco do sentimentalismo que marca mortes de pessoas queridas ao público (e Bolaños era querido como poucos), o propósito aqui é falar de sua obra, seu legado cultural.

chaves

Esse propósito permite um distanciamento, que é sempre saudável. Chaves e Chapolin proporcionaram ótimos momentos a milhões de crianças, jovens e adultos (esse autor incluso). Toda essa alegria, entretanto, não o faz santo. Os fãs conhecem, e lamentam, as histórias de brigas e rusgas com María Antonieta de las Nieves e Carlos Villagrán, Chiquinha e Quico, respectivamente. Entre as falhas que todas as pessoas podem possuir, Bolaños, entretanto, conseguiu algo raríssimo: cativou diversas sociedades, pois as compreendeu. O humor inocente e simples, com bordões e esquetes sempre presentes, ao mesmo tempo em que divertia, retratava sociedades e fazia uma crítica social inteligente.

Não é coincidência que um programa mexicano seja dos mais assistidos da América Latina e do Brasil, ao contrário de um programa dos EUA, maior produtor de conteúdo televisivo do mundo. Meninas líderes de torcida loiras e com cara de modelo internacional, garotos populares do time de futebol americano (que é ironizado em episódios), com suas jaquetas padronizadas, uma trilha sonora de boy bands (em contraste as cantigas tipicamente latinas do Chaves), brincadeiras na neve em meio às enormes casas suburbanas de Nova Iorque. Tramas descoladas da realidade local. Como, no Brasil, um garoto ou uma garota que cresceram nos últimos trinta anos poderiam se relacionar com isso? Não, eles se enxergam na “vizinhança”, a vecindad mexicana, que pode ser sua rua, sua vila, sua quebrada. Brincadeiras na rua, com coisas simples, a paixão pelo futebol que une esses países. Ou ir até a venda da esquina com os amigos, tomar um refrigerante. Ou um suco de tamarindo.

Os personagens do programa existem na realidade brasileira, na realidade latino-americana. Pessoas pobres que dão um jeito de levar sua vida. Seu Madruga e Dona Florinda, ambos viúvos, que criam seus filhos sozinhos, um pensando em um futuro melhor, outra lembrando de tempos mais abastados. Recebem sua pensão, fazem bicos de pintor, sapateiro, vendedor. Sempre esperando o melhor para seus filhos, que exigem que frequentem a escola, onde existe o professor. Singular, uma realidade ainda muito presente nas cidades pequenas do interior brasileiro. Aquela pessoa é o professor da cidade, da vila, da vizinhança. Seus filhos crescem nessa realidade pobre, querendo coisas que nem sempre podem comprar (e, quando compram, as ostentam. Seria Quico um pioneiro do funk ostentação?), mas se divertindo com as brincadeiras simples da rua.

Em uma alegoria nem um pouco sutil, os ricos são os gordos, que podem comer quantos sanduíches de presunto quiserem. Ao mesmo tempo, mostram a “sociedade cordial” brasileira e latino-americana: o rico, mesmo cobrando o aluguel abusivo, cria um laço com o pobre. Seus filhos brincam juntos e ele deixa passar o atraso de catorze meses do aluguel, quando se emociona ao ver as fotos de seu Madruga quando era boxeador. Óbvio que isso é apenas uma alegoria. Temos a idosa que mora sozinha e, em sua reclusão, gera enigmas e especulações da criançada. Por aqui, nossa “Bruxa do 71” era uma senhora de péssimo humor que não devolvia as bolas que caíam dentro de sua casa. Até o dia em que pulamos o muro e ela chamou a polícia. E, finalmente, temos o garoto pobre que mora em um barril cujo sonho é comer um sanduíche de presunto. E aqui está um dos aspectos mais interessantes do programa, que se perdeu na tradução.

O Chaves não tem nome. “El Chavo” é “o rapaz”, “o menino”. Aquele menino lá, que mora no barril. Aquele rapaz, que mora no outro quarteirão. Aquele menino pobre da sua escola. Aquele garoto, que mora na viela. Temos ali um menino pobre de um país latino-americano. Por isso, milhões de outros meninos, às vezes nem tão pobres, se identificaram com ele, ou com sua vida, ou ligaram ele ao conhecido. Um órfão, um menino abandonado, alguém que foi adotado, um menino pobre que vive com a ajuda dos que os cercam. A crítica social fica clara. Um programa cujo protagonista seja uma menina loira cantando em inglês, ou um capitão do time de futebol americano, ou um gêniozinho que constrói um foguete em seu quintal, jamais conseguirão o que Chaves, Chiquinha e Quico conseguiram.

Não somos um país de Hannah Montana, Ben10, dinossauro Barney. Preferimos a Turma da Mônica, o Chico Bento, o Castelo Rá-Tim-Bum. Quantas crianças cantam as músicas de High School Musical e quantas cantam os versos que dizem se você é jovem ainda? O alcance da obra é notório, mas não custa darmos alguns exemplos. Brincadeiras na última eleição, o próprio horário eleitoral, o capacete de Perez na riquíssima Fórmula Um, a torcida na Copa do Mundo no Brasil, dois dos mais famosos, e ricos, jogadores de futebol do mundo. Além, é claro, de dezenas de páginas, fãs-clubes, sites e grupos. O enorme legado de Bolaños se dá não por sua capacidade de vender coisas, ou por retratar um mundo de fantasia. Exatamente ao contrário. Ele percebeu o mundo que o cercava, viu seus problemas, compreendeu sua realidade. E o desenhou como uma criança faria.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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