Política do idioma: O português é uma língua global?

– por Rodrigo Madrid

“A última flor do Lácio” completou 800 anos no dia 27 de junho 2014 e a data foi pouco noticiada no Brasil. Talvez porque a língua só seja notícia por aqui quando há interesse em polemizar, como nos casos da nova proposta de acordo ortográfico e do livro que “ensina errado”.

Em Portugal, por outro lado, o portal Público organizou um “debate” que contou com textos de jornais dos outros 7 países de língua oficial portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-leste) sobre o futuro da língua.

Como não pretendo abordar as questões particulares de cada país, procurarei tratar neste espaço o que de fato se comemora e apresentar uma crítica inicial à ideia de língua global que o Português tem recebido ultimamente.

800 anos de quê?

O que significa celebrar o aniversário de uma língua? Não é possível que uma língua tenha data de nascimento, uma vez que, sendo uma manifestação corporal e cultural do ser humano, está sujeita a mudanças e a variações a todo instante. Os 800 anos em questão remontam à data de 27 de junho de 1214, quando foi redigido o testamento de D. Afonso II, considerado o primeiro documento em português – pelo menos, oficial. O texto do soberano atribui à língua que já era falada na região um novo patamar de prestígio, antes ocupado pelo latim clássico – acessível apenas a uma pequena parcela da população. Apesar disso, foi apenas 76 anos depois que D. Dinis tornou o português a língua oficial de Portugal.

Em 2014, portanto, comemora-se uma espécie de “independência” da língua portuguesa, que ganha um manifesto a seu favor, assinado por artistas, políticos e intelectuais do mundo lusófono.

O manifesto, lançado durante a Feira do Livro de Lisboa, é uma ode (como não poderia deixar de ser) à língua portuguesa, retratada poeticamente como parte presente em todos os aspectos da vida, mas também como língua global, “uma língua em crescimento em todos os continentes, uma das mais faladas no mundo, a língua mais usada no Hemisfério Sul.” Aí é que essa exaltação extrapola o amor poético à língua e vira uma questão política.

Quão global é o Português?

É verdade que há, aproximadamente, 240 milhões de falantes de português como primeira língua no mundo, um número considerável. No entanto, quase 200 milhões (±83%) desses falantes estão no Brasil, o que contribui para que a língua seja “a mais falada do Hemisfério Sul”:

hemisferio

Além do Brasil, Angola e Moçambique também estão no hemisfério, juntamente com o Timor-Leste.

Pode-se com isso, dizer que o português é uma língua global? O manifesto diz que a língua “partilha e põe em comum culturas da Europa, das Américas, de África, e da Ásia e Oceânia”, mas a língua portuguesa só é majoritária na América do Sul e, mesmo assim, sem muita vantagem frente ao espanhol.

É a quinta língua mais falada do mundo, atrás de mandarim, inglês, espanhol e hindi. Note-se que tampouco dizemos que o mandarim ou o hindi são línguas globais, uma vez que a vasta maioria de seus falantes está concentrada em um único país – China e Índia, respectivamente.

Por que, então, reiterar a internacionalização do português, seu alcance mundial em diferentes continentes? Obviamente por razões político-econômicas, que buscam intensificar (i) a participação dos países lusófonos em órgãos internacionais (sobretudo do Brasil) e (ii) a “integração” entre esses países. Falemos um pouco sobre esse último.

Brasil, Angola e Moçambique

Nos últimos anos, a participação dos dois maiores países africanos de língua oficial portuguesa no mercado de óleo e gás aumentou consideravelmente. Evidentemente, em um mundo econômico pautado pelas commodities, o fato tem atraído olhares e investidores de todo o mundo. Não por acaso, portanto, a expansão da língua portuguesa na África e o acordo ortográfico estão diretamente ligados à uma estratégia brasileira (sendo a maior nação lusófona do mundo) visando uma presença cada vez maior nesses dois poços (literais) de dinheiro.

Dados apresentados pelo jornal O Estado de São Paulo mostram esse aumento substancial da presença brasileira na África de modo geral, bem como a subida nos números da participação do continente na balança comercial brasileira durante o período de 2003 a 2013. Ainda assim, essa participação não ultrapassa os 10%.

Da mesma maneira, o uso do português tem aumentado nesses dois países, uma vez que o idioma é, além de oficial, considerado uma língua de prestígio, de certa forma. No entanto, em Moçambique, por exemplo, apenas 10,7% dos habitantes consideram o português sua língua materna, de um total de 50,4% de falantes.

Também de olho nos recursos que os países lusófonos na África têm a oferecer estão os chineses, como não poderia deixar de ser. Valendo-se dos exíguos resquícios de bilinguismo existentes em Macau, a China busca aumentar seu contingente de profissionais falantes de português. A lusofonia como unidade e “integração” não serve apenas àqueles países que têm a língua de Camões como oficial, portanto.

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rmRodrigo Madrid é formado em História e Letras. Tenta unir as duas áreas do conhecimento, raramente com sucesso. Textos de Rodrigo Madrid.

 

 

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