Instituto Confúcio, a China e as universidades

– por Camila Galan de Paula

Caros leitores, hoje teremos o prazer de ver inaugurada mais uma colaboração ao Xadrez Verbal. Camila Galan de Paula estreia falando de um assunto de grandes proporções mas de pouca repercussão; eu mesmo admito minha ignorância do tema. A China, hoje, possui a maior população do mundo, o terceiro maior território do mundo e foco de 17% do comércio global. Essa pujança econômica e geopolítica certamente traria desdobramentos culturais: qual o parâmetro dessa expansão cultural?

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confucio

Em 25 setembro a Universidade de Chicago tornou pública a decisão de não renovar sua parceria com o Instituto Confúcio, estabelecido desde 2010 naquela universidade. Surgidos há dez anos, os Institutos Confúcio fazem parte de esforços do governo chinês de difundir, pelo ensino de língua e cultura, influência de uma China que cresce rapidamente.

Inicialmente identificado a conhecidas instituições financiadas por outros países, como a francesa Alliance Française, o alemão Goethe-Institut e o britânico British Council, o Instituto Confúcio vêm se tornado controverso durante esta década de existência, principalmente no mundo anglófono. Tocados por um órgão ligado ao governo da República Popular da China conhecido como Hanban, os Institutos Confúcio estabelecem contratos de cooperação bilateral entre universidades estrangeiras e chinesas, oferecendo cursos de língua e cultura chinesa. Todos os professores são cidadãos chineses contratados pelo Hanban, que paga seus salários e passagens aéreas ao país de destino. O material didático adotado é fornecido pelo Instituto e aprovado pelo governo chinês. Atualmente existem mais de 400 Institutos Confúcio ao redor do mundo, mais de cem deles localizados nos Estados Unidos, além de outras centenas de Confucius Classrooms, como é conhecida em inglês a versão para o ensino de língua chinesa em escolas de nível primário e secundário.

O site do Instituto Confúcio da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) explica justamente o que oferece para alcançar os objetivos de “divulgação da cultura e da história da China” e de “fortalecimento do intercâmbio cultural e acadêmico entre o Brasil e a China”:

“Oferecemos curso de língua chinesa, utilizando material aprovado pelo ministério da Educação da China. A supervisão pedagógica é realizada pela Universidade de Hubei, China, parceira da Unesp neste projeto. Todos os profissionais são chineses, com grande experiência de ensino. Os professores são selecionados e aprovados pela matriz do Instituto Confúcio na China, para garantir o mais elevado padrão de ensino, de acordo com as normas do Escritório Internacional para Ensino da Língua Chinesa como Língua Estrangeira do ministério da Educação da China (Hanban).”

A recente decisão da Universidade de Chicago de encerrar as atividades do Instituto Confúcio local não é caso isolado: no final de 2013, as Associação Canadense de Professores Universitários (Canadian Association of University Teachers) fez um apelo para que as universidades daquele país encerrassem os acordos em vigência e para que não se criassem mais Institutos Confúcio (IC). De dentro da própria Universidade de Chicago as críticas vinham se somando, e uma centena de professores assinara uma petição urgindo pelo fim do instituto chinês. Em outubro do ano passado, o antropólogo Marshall Sahlins, professor emérito da Universidade de Chicago, escreveu um longo artigo na revista The Nation, em que pontuava suas principais críticas ao IC em Chicago, fazendo referência a problemas semelhantes em outras universidades na América do Norte.

Dentre as principais críticas de Sahlins e outros, está o fato dos ICs em geral situarem-se fisicamente dentro das universidades, diferentemente das Alliance Françaises e Goethe-Institut. Não apenas fisicamente, mas muitas vezes institucionalmente: não são raros os casos em que o ensino de mandarim conduzido pelo IC é reconhecido como cursos com direito a crédito, sendo a única opção de ensino de chinês em algumas universidades.

Além disso, a escolha dos materiais didáticos e o treinamento dos professores chineses está inteiramente a cargo do Hanban, o que pode levar a censura ao livre pensamento dentro das universidades. São apontadas diversas evidências de que o treinamento dos professores ensina-os a evitar tópicos não desejados pelo governo da República Popular da China, como Tibete, Taiwan, direitos humanos. Ou bem esses temas são evitados, ou os professores chegam a incitar os alunos a adotar a posição do Partido Comunista Chinês sobre conflitos. Foi o que aconteceu em 2008 na universidade canadense de Waterloo, em que uma professora do IC convocou seus alunos a lutar contra a cobertura pró-Tibete da mídia canadense. Ainda no que diz respeito à censura, a seleção dos professores chineses se dá inteiramente por critérios condizentes com as leis da República Popular da China, impedindo que professores com determinadas posições políticas e religiosas sejam selecionados. Também no Canadá, na Universidade de McMaster, a professora Sonia Zhao entrou na justiça canadense alegando que a universidade que a acolhia no seu IC local tinha permitido legitimação de discriminação, pois ela teve que esconder do Hanban sua crença no Falun Gong. Assim, as universidades canadenses e norte-americanas estariam permitindo discriminação com base em posições políticas e religiosas, subsumindo-se às leis chinesas no que toca a seleção de professores.

Outra crítica incide sobre o fato dos ICs ensinam exclusivamente a língua Mandarim e os caracteres simplificados adotados apenas na República Popular da China. Os estudantes não têm a oportunidade de aprender os caracteres usado em outras comunidades chinesas, como Taiwan e Hong Kong, pro exemplo.

Além de se dedicar ao ensino, os IC também financiam pesquisas, mas todos os projetos devem ser submetidos ao governo chinês para ser aprovados. Se em universidades renomadas o IC convive com centros bem estabelecidos de estudos asiáticos – como é o caso de Chicago -, o mesmo não ocorre nas pequenas e médias universidades, em que o ensino e financiamento de pesquisa de tudo o que se relaciona à China pode virtualmente acabar por ter de passar pelo IC. Sem outras fontes para o fomento de pesquisas relacionadas à China, essas universidades são limitadas a tópicos aprovados pelo governo chinês. Novamente no que toca ao aspecto econômico: a preocupação não é somente com a possibilidade de limitação dos tópicos de pesquisa permitidos. As universidades públicas norte-americanas, devido às intensas relações comerciais mantidas pelo governo chinês e estadunidense, ficam limitadas a se manifestar em tópicos que desagradem o governo chinês. Com efeito, um evento que contaria com a presença do Dalai Lama em 2009, na North Carolina State University teve que ser transferido para fora do campus. Além disso, o percentual de estudantes chineses cursando programas de ensino superior nos EUA é significativo, em termos de entrada de recursos na forma de mensalidades.

E no Brasil?

Focadas em casos estadunidenses e canadenses, as críticas erigidas aos ICs fazem-nos indagar sobre esses institutos no Brasil. Atualmente existem sete unidades, ligadas às seguintes universidades: UNESP, Universidade de Brasília (UnB), PUC-Rio, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Universidade Federal do Pernambuco (UFPE). Outras unidades estão sendo ou já foram implementadas mais recentemente: Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Universidade de Pernambuco (UPE), Universidade do Estado do Pará (UEPA), Universidade Federal do Ceará (UFCE). Nos comunicados oficiais, o tom é de euforia. Não é de surpreender: esse tipo de parceria é, na maior parte dos casos, a primeira oportunidade dessas universidades oferecerem cursos de língua chinesa – nenhuma delas conta com bacharelados em Letras-Chinês, esta habilitação sendo oferecida somente na USP, que não conta com um IC.

Importante notar, também, que em todos os casos no Brasil os ICs oferecem cursos na modalidade “Extensão”, não integrando as grades dos cursos regulares de graduação ou pós-graduação. Não se pode com isso, contudo, esquecermos da possibilidade dos ICs se tornarem os únicos lugares nessas universidades brasileiras em que se aprende e discute sobre China – seja a China contemporânea, seja história chinesa – o que é problemático. Por outro lado, o ensino de língua chinesa passa a ser possibilitado, num cenário de orçamento restrito das universidades para o ensino de língua estrangeira. Ao que tudo indica, é exatamente o impasse que as pequenas e médias universidades norte-americanas vêm passando, segundo a leitura dos críticos dos ICs nos EUA: a única possibilidade viável de ofertar cursos de chinês – cada vez mais procurados dado o crescimento da China do cenário econômico mundial – é se conformando ao modelo do Hanban. Aprende-se a língua, esquece-se do Tibete.

(Essa discussão sobre os ICs obviamente toca num tema maior, que não será tratado aqui: o que o financiamento das universidades pela iniciativa privada ou fomentado por governos estrangeiro traz consigo, no que toca aos limites [ditos e não ditos] de pesquisa?)

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Camila Galan de Paula é cientista social e estuda antropologia (Mestrado) na USP. Textos de Camila Galan de Paula.

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