Homofobia, masculinidade e futebol

– Por Giovana Capucim e Silva

Caros leitores, variando do tema eleitoral e dos meus textos, teremos hoje a estreia de uma excelente colaboradora. Giovana Capucim, praticante do esporte dentro e fora das quatro linhas, faz uma análise de como o discurso homofóbico está enraizado na cultura brasileira.

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Há algumas semanas o clássico entre São Paulo e Corinthians foi marcado por diversas polêmicas: a virada, o primeiro clássico entre essas equipes no novo estádio corintiano, um possível erro do árbitro e, finalmente, as ações homofóbicas por parte de ambas as torcidas. Foram cantos, fantasias, faixas, camisetas, perucas, dentre outros os meios utilizados para insinuar que a equipe adversária (e sua torcida) seria composta por homossexuais. E que eles deveriam se sentir ofendidos com isso. Essas ações só fazem sentido caso se considere que dizer ao outro que ele é gay seja considerada uma maneira de insultá-lo. E no futebol, assim como na maior parte das situações do nosso cotidiano, isso é lido dessa forma: ser considerado homossexual é uma afronta ao sujeito. Recentemente, um atleta da seleção brasileira respondeu aos boatos de que ele teria uma relação com outro jogador afirmando que aqueles que o conheciam sabiam da integridade do seu caráter. De que maneira a sexualidade está relacionada ao caráter? Absolutamente nenhuma, mas frequentemente veem-se falas relacionando esses aspectos. A homofobia é uma questão que vai para além do futebol: é social.

Charge do cartunista Carlos Latuff para o Jornal Sul 21.

Charge do cartunista Carlos Latuff para o Jornal Sul 21.

Se a homofobia é um problema que abarca a sociedade como um todo, por que, então, falar de sua ocorrência no futebol? Nos anos 1970 diversos estudiosos das ciências humanas apontaram o futebol como um espelho da sociedade capitalista. No Brasil, em particular, esses estudos se iniciaram nos anos 1980. Afirmavam que o futebol em nosso país é, mais que um espelho, um campo privilegiado para a observação de certos fenômenos sociais que por vezes aparecem velados na vida cotidiana. A intolerância provavelmente é o maior exemplo disso. Não é incomum ouvir que não existe racismo no Brasil. No entanto, num jogo de futebol são, infelizmente, corriqueiros os casos de racismo. Desta foram, o racismo que é escondido pelo politicamente correto do dia a dia, acaba se expressando na busca de desestabilizar ou humilhar um adversário ou sua torcida e, principalmente, na certeza da proteção do anonimato impune da massa.

Todas as torcidas de futebol possuem cantos que podem enquadrar-se como intolerantes: racistas, machistas, homofóbicos, de superioridade de qualquer outra ordem. O futebol, pela essência do jogo, da disputa, pressupõe a busca da superioridade. No entanto, pela força de mobilização que esse esporte possui em nossa sociedade, ele extrapola o campo da disputa esportiva e passa a caracterizar a intolerância, chegando ao limite da violência. A ação violenta é a situação-limite. Por trás dela há um discurso de intolerância que a sustenta e a justifica para os indivíduos que a praticam. É desnecessário mencionar a violência homofóbica em nossa sociedade. Aqui mesmo, no Xadrez Verbal, foi publicado um vídeo destacando-a. Discutindo, aliás, como os discursos levam à prática violenta.

Tendo isso em vista, então, volta-se, finalmente, para a questão da homofobia no futebol. Há um primeiro pressuposto construído para o futebol que é crucial para torná-lo mais agressivo à população LGBT: ele é um esporte masculino e de afirmação de masculinidade. A criação dessas ideias rementem ao início do século passado, pouco posterior à regulamentação do próprio esporte pelos ingleses, mas, por vezes ouvem-se expressões relacionadas a elas repetidas até hoje na exclusão de mulheres da prática, torcida e outras áreas relacionadas ao esporte, por exemplo. Da mesma forma que se criou a ideia de que o envolvimento com o futebol é uma forma de afirmação de masculinidade e que esse é um esporte masculino, também através do tempo, a sociedade ocidental moderna construiu a ideia de que a relação sexual entre homens, ao contrário do que acreditavam na cultura greco-romana, era uma evidência de ausência de masculinidade. Assim sendo, futebol e homossexualidade masculina passaram a ser lidas pela sociedade como coisas pertencentes a lugares diferentes, que nunca se tocariam, como se fossem linhas paralelas.

As afirmações homofóbicas no futebol tem sido, então, cotidianas e, até bem pouco tempo, completamente ignoradas pela mídia, clubes e poder judiciário. Tomadas como se fossem parte integrante do jogo. Exemplar disso foi a disputa judicial entre o atleta Richarlyson, na época, do São Paulo Futebol Clube, e o dirigente da Sociedade Esportiva Palmeiras, José Cyrillo. O jogador entrou com processo contra o dirigente por este ter afirmado num programa de televisão que o são-paulino seria homossexual. O juiz responsável arquivou o caso e em sua sentença afirmou que futebol é “coisa pra macho, (…) esporte viril, varonil, não homossexual”, sugerindo que o atleta abandonasse a carreira se fosse essa a sua situação. Esse evento é modelar do que vem-se dizendo até aqui em todas as suas etapas: o palmeirense afirma que o jogador da equipe rival é homossexual com a intenção de desmoralizá-lo. O jogador se sente ofendido e processa o dirigente. O juiz afirma, em outras palavras, que no futebol não há espaço para “viadagem” e arquiva o caso. O magistrado poderia ter arquivado o caso, afirmando que não há ofensa ao afirmar que um indivíduo é gay, mas os dizeres de sua sentença vão num sentido completamente diverso, ao colocar masculinidade, heterossexualidade e futebol como coisas uníssonas e indissociáveis.

Esse silêncio da mídia, dos clubes e, em particular, dos tribunais desportivos, começou a mudar em 2014. O grande marco não teve origem numa questão homofóbica, mas racista. O caso do goleiro Aranha, também repercutido aqui no Xadrez Verbal, levou à exclusão do Grêmio da Copa do Brasil, às vésperas do clássico entre Corinthians e São Paulo. Temendo ter um destino semelhante ao do tricolor gaúcho, o Corinthians emitiu um manifesto pedindo à sua torcida que não praticasse atos homofóbicos no clássico contra o São Paulo, algo corriqueiro em jogos que opunham esses clubes. No dia do jogo não só a torcida corintiana reiterou suas ações homofóbicas, praticadas em todo prélio contra o tricolor paulista, como também, em resposta, a torcida são-paulina organizou-se de maneira intensa para afirmar que os “bambis” eram, na verdade, os alvinegros.

Tais manifestações homofóbicas foram veiculadas, principalmente, na mídia digital e geraram uma reação do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) que instaurou inquérito para apurar a homofobia de ambas as torcidas no clássico, rompendo com a indiferença dos tribunais esportivos no que diz respeito a essa questão. A denúncia ainda não foi apresentada e deve ser feita nas próximas semanas. Esperemos que fim levará, mas o fato de ter se instaurado um inquérito e este ter levado à elaboração de uma denúncia no STJD já pode ser considerado de grande relevância no sentido de combater esse tipo de discriminação no ambiente futebolístico.

Seja em canções corriqueiras ou ao xingar o juiz: as palavras dirigidas ao árbitro são no sentido de mandá-lo assumir a posição de passivo durante o sexo anal, corriqueiramente praticado por homens gays como uma forma de prazer. A homofobia está incrustrada no futebol já há algum tempo e combater algo tão enraizado certamente levará tempo e muito trabalho. Os primeiros passos estão sendo dados, mas para que esse mal seja expurgado dos campos e, por que não, da nossa sociedade, é preciso ação dos tribunais, imprensa, clubes e torcidas. Fora do ambiente futebolístico, em 2010, o ator Johnny Galecky (conhecido como Leonard da série “The Big Bang Theory”) ao se explicar sobre o porquê de não se defender dos rumores sobre sua possível homossexualidade afirmou: “Por que se defender de algo que não é ofensivo?”. Que essa maneira de pensar adentre outros espaços da sociedade, além do mundo das celebridades, principalmente, o do futebol, onde ela se faz tão necessária.

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gicapbGiovana Capucim e Silva é mestranda em História Social pela Universidade de São Paulo, membro do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol) e do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebl e modalidades Lúdicas). Uma das autoras do livro “O Brasil e as Copas do Mundo: Futebol, História e Política”, pela Editora Zagodoni. Textos de Giovana Capucim. 

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