Decifra-me ou te devoro: a hegemonia tucana em São Paulo

– Por Henrique Sanchez

Caros leitores, hoje, assim como ontem, o texto é de estreia. Neste caso, a estreia de Henrique Sanchez, que inicia com uma baita aula sobre um dos aspectos mais importantes das eleições brasileiras: a hegemonia do PSDB em São Paulo, o maior domicílio eleitoral do Brasil.

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Restam poucos dias para o 1º turno das eleições. As atenções nacionais naturalmente se voltam à eleição presidencial, virada do avesso depois da morte de Eduardo Campos e sua substituição por Marina Silva. Entretanto, quem mora em São Paulo depara-se com algo não menos importante e intrigante: a provável reeleição de Geraldo Alckmin no governo do Estado. No momento que escrevo, as últimas pesquisas eleitorais do Datafolha e do Ibope sinalizam que a disputa se resolverá pela terceira vez consecutiva no 1º turno.

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A reeleição de Alckmin significaria o período mais longo pós-redemocratização de um mesmo partido ou grupo político em um governo estadual: exatos 24 anos (1995-2018). Exceção apenas feita ao Maranhão governado há décadas pela família Sarney e seus aliados, domínio brevemente interrompido pela eleição de Jackson Lago em 2006 posteriormente contestada junto ao STF. Um terceiro mandato somado ao período entre janeiro de 2001 e dezembro de 2002 em que Alckmin passou da condição de vice-governador a governador também superaria o período que Adhemar de Barros governou São Paulo, primeiro indicado como interventor federal (1938-1941) durante o Estado Novo getulista e depois democraticamente eleito por duas vezes em 1947 e 1963 até ter seu segundo mandato cassado pela ditadura militar em 1966.

Recorrente desde debates acadêmicos até conversas de boteco, o “conservadorismo paulista” surge como principal razão motivadora de tal fenômeno. O intuito do texto não é a negação do conservadorismo, tampouco sua essencialização. No contexto paulista, há sem dúvida uma tradição histórica de inserção e expressão conservadora na sociedade civil, porém é imprescindível um olhar matizado. O conservadorismo elitista e da classe média tradicional, frequentemente interpretado como força absoluta, por muitas vezes não dilui ou coincide com as aspirações do conservadorismo popular.

O exercício do poder de Estado no âmbito estadual ao longo de duas décadas implica necessariamente na construção e preservação de formas de consentimento junto a um eleitorado majoritário, sejam elas conservadoras ou mudancistas. Em artigo sobre as eleições paulistas de 2014, Lincoln Secco estabelece uma distinção entre a “direita popular” e a “direita moderna” em São Paulo. A direita popular estaria marcada por movimentos político-personalistas (adhemarismo, janismo e malufismo) e a direita moderna identificada com o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Origem e trajetória

Antes de discorrer sobre a força atual do PSDB em São Paulo, é importante contextualizar a origem e trajetória do partido até a sua consolidação. O PSDB foi fundado em 1988 durante a Assembleia Nacional Constituinte como uma dissidência do PMDB – uma junção entre a ala esquerda, outros setores peemedebistas “históricos” e “autênticos” e parlamentares de outros partidos – com assumidas inspirações europeizantes das experiências institucionais de welfare state e democracias parlamentaristas. A grande excentricidade do PSDB em relação à sua autoproclamação ideológica decorre da ausência de uma característica comum a todos os partidos social-democratas europeus com suas especificidades: ser oriundo de uma base social operária e popular. O PSDB surge como um agrupamento parlamentar dotado de representatividade orgânica entre as camadas médias intelectualizadas de grandes centros urbanos e enraizamento marginal em outros segmentos sociais.

A vitória de Collor na eleição presidencial de 1989 demarca em lados opostos as duas principais figuras públicas tucanas ao lado de André Franco Montoro: Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, ambos então senadores. Covas estava convicto da necessidade de se manter na oposição, enquanto Fernando Henrique Cardoso era receptivo ao convite de Collor para aproximação e adesão do PSDB ao governo. Covas e seu grupo perderam força internamente após a terceira colocação na eleição ao governo do Estado em 1990, mas conseguiram sustentar a diretriz oposicionista até o impeachment de Collor que redundou na formação do governo de unidade nacional de Itamar Franco. O ano de 1992 seria um marco para a consolidação do PSDB por duas razões: o expressivo crescimento e interiorização do partido nas eleições municipais daquele ano com a eleição de 293 prefeitos, 297 vice-prefeitos e 3.274 vereadores e o protagonismo assumido por FHC no governo Itamar, primeiro como Ministro de Relações Exteriores e no ano seguinte como Ministro da Fazenda.

O capital político advindo do Plano Real possibilitou uma redefinição da sucessão presidencial com a candidatura de FHC pela aliança PSDB-PFL e sua eleição no 1º turno, desbancando Lula que até então despontava como favorito. Em São Paulo, Covas é eleito governador no 2º turno após vencer Francisco Rossi, do PDT. Tais situações se repetiriam com a diferença que a reeleição de Covas se dá em disputa com Paulo Maluf, do PPB.

A base de apoio para a eleição e reeleição de Covas foi uma combinação entre o eleitorado tucano que se ampliava consideravelmente e uma perceptível absorção do quercismo, concentrado no interior. O processo quase instantâneo de absorção do quercismo também seria orgânico com a filiação ao partido de vice-governadores e lideranças vinculadas ao governo Quércia e ao governo Fleury, como Aloysio Nunes Ferreira, Almino Affonso e Alberto Goldman. Oligarquias locais, antes ligadas ao quercismo, também se aliariam ao PSDB.

Outro elemento decisivo foi o eleitorado de “terceira força”. Em ambas as eleições estaduais, o PT aparece como terceira força competitiva que mobilizava um eleitorado predominantemente metropolitano vinculado a categorias da classe trabalhadora organizada e rivalizava com o PSDB o voto das camadas médias, segmento ao qual arregimentava parcela importante pela “referência ética”. Na eleição de 1998, contribuiu muito a conjuntura política paulistana na qual os vereadores do PSDB e do PT faziam em conjunto uma forte oposição ao governo Pitta. Portanto, pelo menos aos olhos do eleitorado paulistano, o PSDB se credenciava como uma força “antimalufista”, mesmo que moderada.

De certa forma, Covas foi coerente com o “choque de capitalismo” por ele apregoado na eleição de 1989. Suas duas gestões foram marcadas por privatizações de empresas estaduais de energia e rodovias e constantes conflitos com o funcionalismo público estadual. Sua morte abriria espaço no PSDB paulista para o protagonismo de duas lideranças já experimentadas em diferentes atribuições parlamentares e executivas: Alckmin e José Serra que seriam os candidatos tucanos às sucessões de Covas e FHC, respectivamente.

A eleição de 2002 foi a última minimamente acirrada ao governo paulista que levou a disputa ao 2º turno entre Alckmin e José Genoíno, do PT. Certamente, por conta do acúmulo de Genoíno beneficiado pelo “efeito Lula” e novamente da presença de uma “terceira força”, no caso a candidatura de Maluf, invertendo a ordem do 1º turno de 1998. Mas o elemento de destaque é que se tratou da última possibilidade real de derrota do PSDB, embora Alckmin tivesse índices de aprovação superiores em relação a Covas.

Mais uma vez, o PSDB contaria com um “fator externo” ao seu eleitorado tradicional para assegurar a sua eleição. Ao contrário da eleição anterior que teve o apoio de grande parte dos votos petistas para enfrentar o malufismo, dessa vez o próprio malufismo – para ser mais exato, um deslocamento significativo já perceptível no 1º turno – teve papel decisivo por um viés “antipetista”. Há uma diferença fundamental entre os “fatores externos” radicalmente opostos: enquanto o apoio petista foi movido por razões táticas, o deslocamento malufista se revelaria definitivo nas eleições posteriores.

É difícil determinar até que ponto foi uma movimentação tática que acabou se consolidando pela inviabilização eleitoral do malufismo para cargos executivos ou conscientemente estratégica no sentido da guinada conservadora do PSDB em comparação à primeira metade dos anos 90. O fato é que, desde então, mais nenhuma eleição ao governo paulista foi levada ao 2º turno. Outro componente se agregaria com o fim da rivalidade entre PT e PSDB na disputa pelo eleitorado de classe média a partir do primeiro mandato do governo Lula e a profunda mudança do perfil eleitoral do PT no âmbito nacional mediante a formação de marcadores eleitorais, como políticas de transferência de renda e a crise política de 2005 aberta pela denúncia do “mensalão”. Tanto Serra em 2006 como Alckmin em 2010 venceram Aloísio Mercadante com razoável tranquilidade, sem sequer ameaça concreta de penetração em seu eleitorado. Quais seriam as razões para a hegemonia tucana se estabilizar ao decorrer dos anos quando justamente a expectativa de oposicionistas seria da sua fragilização?

A geografia do voto

Assim como a maior população, São Paulo é a unidade da federação que possui o maior colégio eleitoral do país com cerca de 32 milhões de eleitores. Além da capital que concentra entre 25% e 30% do eleitorado, a demografia eleitoral paulista distribui-se em diversas regiões e sub-regiões pelo vasto interior paulista, litoral paulista e Grande São Paulo, como ABCD, Alto Tietê, regiões metropolitanas de Campinas, Sorocaba, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, Baixada Santista, Oeste Paulista, Vale do Paraíba, Noroeste Paulista e Litoral Norte.

Quando se propõe debater a “geografia do voto”, costuma-se incorrer em dicotomias simplificadas entre capital/interior, pequenas/grandes cidades e centro/periferia. As clivagens geográficas contribuem bastante, mas dissociadas de outras variáveis não podem ser devidamente compreendidas. Em trecho de artigo sobre os rolezinhos em shoppings paulistanos, Leandro Beguoci relata sua experiência pessoal sobre a polarização eleitoral entre centro e periferia:

“Outra hipótese é a dependência das pessoas do Estado. Toda generalização é perigosa e enganosa, mas existem algumas tendências que podem merecer mais atenção. Talvez quanto mais dependente do Estado, mais as pessoas tendam a votar no PT. Quanto menos dependentes do Estado, mais tendam a votar no PSDB – e isso não necessariamente está ligado à renda, mas a uma percepção sobre a vida, sobre valores.

Observo muito isso quando vou ao Jardim Nardini, na periferia de Pirituba, onde passei muitas férias na vida, na casa dos meus avós. Quem podia trabalhar de carro tendia a votar nos candidatos tucanos. Quem tinha de trabalhar de ônibus, nos petistas. Muitas das pessoas com carro que conheci não valorizavam os estudos, mas ganhos imediatos com a renda do trabalho. Muitas das pessoas sem carro tinham obsessão com a escola e preferiam economizar dinheiro para investir na faculdade ou na escola particular dos filhos. Isso fez com que, em muitos casos, os destinos fossem diferentes: as pessoas sem carro se mudam para áreas centrais e levam com elas o voto petista. E as pessoas com carro continuam na periferia, com seus votos tucanos”.

Delimitado um recorte focado nas eleições de 2006 e 2010 que marcam o auge da hegemonia tucana, perceber-se-á que o PSDB teve votações proporcionais maiores em cidades interioranas que municípios da Grande São Paulo. Todavia, a Grande São Paulo concentra grande parte do eleitorado paulista e considerado apenas o eleitorado metropolitano o triunfo do PSDB também seria suficiente para garantir a vitória no 1º turno. Ao observar os resultados eleitorais de cidade em cidade, surgem interessantes surpresas.

A começar pelo ponto de vista intramunicipal na cidade de São Paulo. De certa forma, a eleição paulista de 2010 emulou a geografia da eleição presidencial: PSDB ganhando no Centro Expandido e em bairros vizinhos da Zona Leste, Zona Norte e Zona Oeste e vitória do PT nos extremos leste, sul e norte. Ainda assim, é importante notar que em alguns bairros com maioria pró-Dilma a disputa foi polarizada, como Itaquera e Campo Limpo, e até vencida pelo PSDB, como em Sapopemba, Capela do Socorro e Parque do Carmo e Sapopemba.

Costuma-se discorrer sobre o “tradicionalismo interiorano” como anticosmopolita por excelência, logo avesso a projetos mudancistas representados por partidos de esquerda. É um argumento que soa convincente, mas profundamente estereotipado e enganoso. De um modo geral, pequenas cidades acompanham, em maior ou menor grau, tendências de voto nas macrorregiões ditadas por médias e grandes cidades. No interior, encontram-se importantes redutos tucanos, como em Sorocaba, Jundiaí e Piracicaba. Mas algumas das principais votações proporcionais foram em cidades não-hegemonizadas pelo PSDB, como Bragança Paulista, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. Evidências que contrariam a suposta aversão generalizada do interior a partidos de esquerda são a prefeitura de Bragança Paulista, atualmente governada pelo PT, e o fato de Mercadante ter obtido votações majoritárias em Hortolândia, Sumaré, Nova Odessa e Santa Bárbara d’Oeste entre 2006 e 2010.

Por outro lado, a hegemonia tucana também é capaz de desfazer a seu favor o alinhamento automático a situações políticas municipais e garantir votações majoritárias em reconhecidos redutos petistas, como em Guarulhos e São Carlos. A grande dificuldade do PSDB se dá em cidades da Grande São Paulo que, em sua maioria, não são redutos petistas, como Francisco Morato, Itaquaquecetuba, Poá, Osasco, Itapevi, Itapecerica, Franco da Rocha, Embu das Artes, Carapicuíba e Campo Limpo Paulista. A geografia do voto traz elementos importantes, mas ainda persistem dúvidas sobre o que explica a força tucana.

Popularidade e consentimento

Ressaltada a formação de um amplo eleitorado em razão da rápida absorção do quercismo, do deslocamento do malufismo a partir de 2002 e da relativa monopolização do “voto ético” que deixou de ser rivalizado pelo petismo, perguntam-se as razões para a conformação desses processos. Em resumo: o que sustenta a hegemonia tucana?

Ecoam inúmeras críticas aos governos tucanos que majoritariamente recaem sobre os serviços públicos estaduais (educação, saúde, transporte, saneamento básico). Tratam-se de problemas reais e cotidianos que envolvem desde questões mais recentes, como a crise hídrica e o racionamento de água na capital e em diversas cidades paulistas, a crise política e orçamentária das universidades estaduais paulistas e o escândalo do cartel do Metrô, até situações de longa data, como as redes públicas estaduais de educação e saúde. Se os serviços públicos são questionados e desacreditados, como se consegue manter tamanha popularidade em circunstâncias tão adversas?

Há um evidente impacto dos serviços públicos estaduais na relação com o governo paulista, mas tal impacto se dá de forma bastante matizada. A percepção popular sobre serviços públicos em geral é negativa tanto entre usuários como funcionários, entretanto a associação entre o ente provedor e debilidades na provisão desses serviços é difusa. Existe uma grande confusão sobre competências e alçadas de cada instância de governo (federal, estadual e municipal) que se aprofunda com as diversas parcerias e responsabilidades compartilhadas entre os entes federativos, o que em tese pode beneficiar e prejudicar todos os governos quando os serviços públicos são avaliados.

Outro ponto envolve o êxito das narrativas institucionais, como, por exemplo, na crise hídrica. A drástica perda de capacidade do Sistema Cantareira tem sido mais associada aos índices climáticos históricos de estiagem e baixa umidade do estado em detrimento de equívocos do planejamento da SABESP. No caso do transporte, os serviços atendem basicamente à região metropolitana de São Paulo. Não que sejam questões contraditórias, mas as tarifas e a extensão metroviária e rodoviária talvez sejam mais impactantes que o escândalo do cartel do Metrô, somado a outros escândalos de nebulosa e inconclusa investigação. O que explica, por exemplo, as dificuldades eleitorais tucanas em algumas cidades da Grande São Paulo? É possível deduzir que derivem parcialmente pelo transporte, já que o eleitorado metropolitano é formado em grande parte por trabalhadores que dependem de serviços intermunicipais de transporte oferecidos pela CPTM e EMTU.

A empreitada mais importante e complicada é dimensionar a relevância desse impacto não somente do ponto de vista eleitoral, mas principalmente no campo ideológico e cultural. Quais são os elementos que sustentam sucessivos governos tucanos por 20 anos? Minha hipótese é que três elementos constituem-se como essenciais: 1. a defesa de um “capitalismo popular”; 2. a militarização da segurança pública; 3. as mudanças socioeconômicas promovidas no Brasil dos anos 2000.

O “capitalismo popular” foi um recurso discursivo usado por Margaret Thatcher com o intuito de trazer o apoio de camadas médias e populares da sociedade britânica para seu projeto político e econômico de austeridade, privatizações e financeirização. Consiste em centrar o mercado como instituição social reguladora e atribuir ao Estado um papel complementar. Trata-se mais propriamente de um elemento ideológico do que uma orientação da ação estatal. No contexto paulista, o discurso do capitalismo popular conjuga-se com o mito do “espírito bandeirante”. Em declarações e propagandas, Alckmin constantemente usa e instrumentaliza o ethos empreendedor paulista. Está distante de ser o primeiro a fazê-lo, pois trata-se de um discurso antigo e arraigado no senso comum paulista, e provavelmente não será o último. O intuito é exercer apelo sobre pessoas e famílias em processo de mobilidade social não se enquadram na “classe média tradicional”, compõem estratos das camadas populares que, como aponta o trecho citado do artigo de Leandro Begouci, assumem uma autoimagem de menos dependentes de “políticas públicas” e “ação do Estado”, ou seja, pequenos comerciantes, trabalhadores autônomos, na informalidade em muitos casos. Análises dedicadas a entender o neoliberalismo consideram a centralidade de seu significado discursivo enquanto fenômeno social ao invés de um mero conjunto de ações econômicas desestatizantes.

Outro elemento é a militarização da segurança. A gestão da segurança também pressupõe um serviço público. Contudo, não se trata de um serviço público convencional, a segurança pública é encarada como sinônimo de proteção à vida. Diferentemente do transporte, a segurança pública é um tema que transversaliza capital e região metropolitana, interior e litoral na sua relação com o governo estadual.

Algumas informações dão um panorama da segurança pública paulista. Segundo dados disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo em conjunto com a Fundação SEADE, houve redução significativa dos casos de homicídio doloso (de 12.475 em 2001 para 4.444 em 2013) ao passo que aumentaram as ocorrências de estupro em proporção similar durante o período (de 3.949 para 12.057). Roubos e furtos também cresceram entre 10% e 20%. Há que se levar em conta a subnotificação, mas, ainda que haja oscilação em uma tipificação de crime grave contra a vida como o homicídio doloso, segue estagnada a sensação de insegurança porque os índices de criminalidade permanecem altos. Outros dados informam que a população carcerária paulista saltou de 55 mil presos em 1994 para 341 mil presos em 2012 com alargamento da superlotação de unidades prisionais e a violência policial possui índices de letalidade mais elevados que todas as polícias americanas juntas. Se todas essas situações evidenciam um fracasso da segurança pública paulista, indaga-se quais os motivos que blindam o governo paulista de um desgaste razoável. A impressão é que não apenas há sujeição a narrativas midiáticas ultraconservadoras, mas existe de fato uma maioria social consensuada em relação à militarização, como afirma o antropólogo e especialista em segurança pública Luiz Eduardo Soares.

Portanto, a militarização não se coloca somente de forma impositiva, como se fosse uma relação de mão única. A solução militarizadora alimenta-se e, persistindo o fracasso, retroativa o medo e a sensação de insegurança. As responsabilidades são então desviadas para supostos entraves à escalada da militarização, como ativistas e defensores de direitos humanos. Ou seja, o fracasso não estaria na adoção de políticas de militarização e encarceramento pelos governos tucanos. Pelo contrário: questiona-se justamente a razão pela qual o governo estadual não recrudesce tais políticas. À medida em que cresceu e se complexificou a criminalidade, o PSDB situou-se na posição de catalisador/catalisado pelos discursos tradicionais antigamente entoados pelo malufismo, o que talvez explique a inflexão do eleitorado malufista.

Por último, as mudanças socioeconômicas promovidas desde o início dos anos 2000. O PSDB enfatiza perseguir a estabilidade econômica e o equilíbrio das contas públicas como pressupostos para a introdução de políticas redistributivas, foram estes os referenciais dos governos tucanos nos anos 90, tanto no âmbito federal como estadual. Embora esteja na oposição ao governo federal desde 2003, o PSDB acompanhou e beneficiou-se em São Paulo das mudanças socioeconômicas e reversão da desigualdade no plano nacional.

A desigualdade de renda teve uma redução no que concerne ao Índice de Gini, tanto com base no Censo como na PNAD, durante a década anterior em comparação aos anos 90. A inserção dos processos nacionais de formalização do emprego e distribuição de renda no contexto paulista compõe e orienta a percepção popular. De acordo com a RAIS/MTE, foram gerados mais de 5 milhões de empregos formais entre 2003 e 2012, sendo o setor de serviços responsável pela maioria. Para efeito comparativo, cerca de 1 milhão de empregos foram gerados entre 1995 e 2002. Desde que foi instituído pelo governo Serra em 2007, o piso salarial paulista teve aumentos reais em todos os anos, acompanhando em certo grau a política de valorização do salário mínimo nacional. Ainda que abrigue um eleitorado radicalmente antilulista, pode-se dizer que a hegemonia tucana compartilha dividendos políticos com o lulismo.

Uma possível objeção às hipóteses apresentadas: não estaria subestimando o papel ocupado pelo marketing político nos dias atuais? O marketing político, sem dúvida, é um dispositivo que coloniza o imaginário popular. Acontece que, para o bem ou mal, ele é usado tanto por governos como oposições, o que implica em uma espécie de “jogo de soma zero”. Muitas vezes o marketing político serve para reafirmar convicções já internalizadas pelo eleitor em vez de despertá-las, como o voto retrospectivo. Portanto, embora seja necessário reconhecer o seu potencial na constituição de representações coletivas, é imperativo ainda encontrar sentidos e pistas sobre como se sustenta um apoio popular estável a determinado partido, projeto ou movimento político. A intenção é justamente uma tentativa de compreender como se articulam esses consentimentos, bastante guardadas as proporções, no sentido que Stuart Hall define sua análise do “thatcherismo”:

“Seu sucesso e efetividade não está na sua capacidade de ludibriar uma gente insuspeita, mas na maneira como aborda problemas reais, experiências reais e vividas, contradições reais – e ainda é capaz de representá-las dentro de uma lógica de discurso que alinha sistematicamente a políticas e estratégias de classe da direita”.

Retornando à mencionada cisão entre “direita popular” e “direita moderna”, tendo a considerar o fenômeno tucano como um híbrido entre os dois campos. Inclusive no sentido personalista conferido por Lincoln Secco, ainda que o fenômeno tucano se trate de algo mais complexo. Alckmin, Serra e outras lideranças políticas de sua geração não prezam por serem considerados “carismáticos”. São figuras de uma era de tecnocratização da política que apresenta políticos e governantes como administradores, gerentes e gestores assépticos. No entanto, a tecnocratização não nega ou esvazia o personalismo, apenas o desloca de sentido. Ainda que amparados pela máquina partidária e estadual, tanto Alckmin como Serra são reconhecidos por personificarem o tucanismo paulista.

A mescla forjada pela hegemonia tucana permitiu um eleitorado consideravelmente heterogêneo que reúne trabalhadores industriais e de serviços, profissionais liberais, comerciários, trabalhadores autônomos, pequenos e médios comerciantes, microempresários; moradores de bairros centrais e periféricos, da capital, interior e litoral, de grandes, médias e pequenas cidades; de adolescentes em sua primeira eleição a jovens, adultos e idosos; uma maioria antipetista, mas também eleitores lulistas. E apesar de uma profunda diversidade ocupacional, geográfica e geracional, revela-se um eleitorado leal.

Confirmada a vitória de Alckmin em 5 de outubro, é incerto o futuro pós-2018 do PSDB no governo paulista. Depende do êxito na renovação geracional de suas figuras públicas e quadros, manutenção de uma mínima capacidade coesiva em meio à intestina disputa interna e, em certa medida, do próprio futuro do lulismo que logrou uma hegemonia e um realinhamento eleitoral nacional. A hegemonia tucana é um enigma da esfinge. Dedicar a entendê-la implica apenas em hipóteses provisórias. Todo carnaval tem seu fim, mas, aparentemente, sem hora prevista para acabar.

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HenriquePBHenrique Sanchez é cientista social. Gosta de debates políticos, sociológicos, musicais, futebolísticos e etílicos. Simpatizante do Clube Atlético Juventus e adepto semipraticante do dudeísmo lebowskiano como filosofia de vida. Textos de Henrique Sanchez.

 

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2 Comentários

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  • Comparados a outros estados os indicadores de São Paulo em média são superiores (avaliações dos resultados do ENEM, renda média, etc).
    De fato a segurança pública de São Paulo está muito aquém de algo humano, mas a polícia ainda é melhor que a do RJ.
    No texto é comentado “crise das universidades”, ela existe, e as universidades, especialmente a USP se meteram sozinhas nela.
    Por que ninguém conclui que em SP se reelege o mesmo partido por que mesmo aos trancos e barrancos funciona melhor que em outros estados?
    No RS Tarso Genro destruiu o estado, só como comparação, a crise da fundação Zoobotânica é dezenas de vezes pior que a “crise” de USP, em vários estados do Nordeste nem recurso de fato existe para ser administrado.
    Não é uma explicação mais simples que o PSDB em SP “não faz muita cagada” ? Não estou falando que virou primeiro mundo, mas perto do resto do Brasil, incluindo RJ que está aqui do lado, só funcionário público acha que é “o pior do Brasil”.

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