69ª Assembleia Geral da ONU – O pronunciamento de Israel e a conclusão

Acompanhe o restante da cobertura da 69ª Assembleia Geral da ONU.

Caros leitores, este texto encerrará a atual cobertura da 69ª Assembleia Geral da ONU, mas não será o último da série. Como assim? Como já foi postado um vídeo hoje, e dadas as eleições brasileiras, já no próximo final de semana, seria impossível postar todos os outros textos planejados sem negligenciar o tema eleitoral. Após as eleições, os textos mais analíticos e abrangentes serão postados progressivamente.

Um será sobre os discursos dos países da ex-Iugoslávia e o relacionamento desses estados entre si e com a União Europeia; um texto sobre os discursos dos países BRICS, incluindo a segunda metade do discurso russo, focando no relacionamento interno ao grupo; um texto com os discursos de países ex-soviéticos, analisando a relação desses países com a Federação Russa; finalmente, um texto que cubra os discursos de nossos vizinhos sul-americanos e a integração regional.

Para encerrar, nada mais apropriado que analisar o discurso de Benjamin Netanyahu, Primeiro-ministro de Israel. Apropriado, pois, além de ter sido comentado aqui que essa análise seria feita, seria injusto cobrir apenas o pronunciamento de Mahmou Abbas. Além disso, os leitores mais habituais desse espaço sabem o quanto esse tema é caro ao blog. Como é hábito, aqui estão os links para o leitor que queira na íntegra: discurso, em inglês e em PDF, e o vídeo, em inglês.

UN-GENERAL ASSEMBLY-ISRAEL

O discurso de Netanyahu foi, assim como o de Obama, longo. Trinta e seis minutos no total. O habitual, embora não seja uma regra escrita, é que o discurso tenha por volta de vinte minutos. Outras similaridades dos discursos também serão apontadas. O líder israelense abriu seu discurso afirmando que estava ali para defender seu país de “mentiras” e que o povo israelense “ora pela paz”.

O primeiro ponto de Netanyahu é que o islã militante quer “dominar o mundo”, e o mundo precisa se unir para combater esse “câncer”. Embora o líder israelense tenha, no início, afirmado que não se trata do Islã como um todo, suas palavras, em certos momentos, poderiam escorregar em generalizações. E chegou ao seu primeiro argumento: o EI e o Hamas seriam “galhos diferentes da mesma árvore”, por isso era contraditório ver países que apoiavam a luta contra o EI terem criticado a luta contra o Hamas.

Nesse trecho de seu discurso, Netanyahu usou diversas referências e ditados populares dos EUA. Chegou ao ponto de dizer que negar a relação entre o EI (ou ISIS, em inglês, se preferirem) e o Hamas era como negar que “Derek Jeter jogou como interbases (shortstop) pelo NY Yankees”, um dos times mais populares da liga de beisebol profissional dos EUA e do Canadá. Quem exatamente é o público do discurso do Netanyahu? Soa como uma tentativa de simpatizar com o público dos EUA, o principal aliado internacional de Israel.

O próximo argumento foi o de traçar um paralelo entre “dois inimigos da humanidade”. O nazismo e o extremismo islâmico seriam doutrinas similares, a discordância sendo que o primeiro acredita em uma raça superior e, o segundo, em uma fé superior. Por isso, pior seria a faceta organizada e estatal do extremismo islâmico que, segundo Netanyahu, é a República Islâmica do Irã.

O líder israelense seguiu, para comentar o pronunciamento iraniano, alguns dias antes. Afirmou que o “lamentar” do Irã pelas vítimas do EI são “lágrimas de crocodilo” e que a meta do Irã é, com novos políticos “simpáticos”, amenizar as sanções internacionais com o único propósito de desenvolver armamento nuclear. Para sustentar sua argumentação, Netanyahu elencou diversas citações de indivíduos do alto escalão do estado iraniano, que falavam, dentre outras coisas, em desafio da ordem internacional e que o grito que Alá é o único deus ecoará pelo mundo.

E outra similaridade com o discurso de Obama, o conteúdo que evoca slogans com uma mistura de conteúdo moral. Ao evocar a possibilidade do Irã desenvolver armamento nuclear, afirma que seria “o Estado mais perigoso do mundo, na região mais perigosa do mundo, conseguiria o armamento mais perigoso do mundo”. Ao comentar que o Irã e o EI são “a mesma coisa” e que Israel já luta contra o extremismo, “a luta de Israel hoje é a luta do mundo amanhã”.

Nessa toada, ele retoma o paralelo com o Hamas e afirma que Israel não é apenas vítima de uma guerra de terror, mas também vítima de uma guerra de propaganda. Israel foi visto como vilão pelo mundo, sendo que o Hamas que usava escudos humanos. Israel teria agido “além do necessário” para evitar baixas civis, que são “profundamente lamentadas” por Israel. Os garotos e garotas (termo utilizado) do exército de Israel merecem admiração, por fazerem parte do “exército com os maiores valores morais do mundo”.

Então, parte para a ofensiva contra as “mentiras” de Abbas, contadas ali naquele mesmo lugar, que se silenciou sobre os crimes do Hamas. Os crimes do Hamas seriam “crimes de Abbas” e de seu governo de coalizão nacional; aqui, Netanyahu foi intelectualmente desonesto, no mínimo, já que a coalizão entre Hamas e Fatah foi recentemente anunciada. Quando da ofensiva israelense, as organizações estavam rompidas entre si. Finalizou com mais um slogan, afirmando que Israel usa seus mísseis para proteger suas crianças e que o Hamas usa suas crianças para proteger seus mísseis.

Netanyahu seguiu, subindo o tom mais ainda, agora contra a ONU. Especificamente, contra o Conselho de Direitos Humanos. O fato de Israel, “o país que mais promove os direitos humanos na região”, ser alvo constante de resoluções e investigações fez do Conselho o Conselho dos Direitos dos Terroristas. Um discurso de “ou você está comigo ou está contra mim” muito visto na política de Bush e em certos segmentos conservadores brasileiros. Elenca diversos exemplos de tirania que não são investigados e coloca que o Conselho de Direitos Humanos, agora um oximoro, apenas demonstra o preconceito mais antigo: o antissemitismo.

Encerra defendendo Israel de cometer uma política de genocídio, afirmando que isso é argumentação de negadores do Holocausto e que é impossível um país empreender um genocídio avisando a população civil “do inimigo”. Afirma que Israel se aproximou de países árabes e que talvez seja esse o caminho para a paz com a Palestina; cita Cairo, Riad, Amã e Abu Dhabi. Curioso citar Riad, capital saudita, nesse contexto, já que repousam justamente sobre a monarquia Saud as maiores suspeitas de financiar o EI.

Finalmente, afirma que está pronto “para um compromisso histórico, não porque Israel esteja ocupando terra estrangeira. O povo de Israel não são ocupantes na Terra de Israel. História, arqueologia e bom senso deixam claros que nós temos um vínculo único com essa terra por mais de três mil anos”. Ou seja, embora passe todo o tempo falando do extremismo e afirme que está “pronto para um compromisso histórico”, refere-se ao povo palestino como “o inimigo” e evoca a excepcionalidade para defender as colônias israelenses em território além de suas fronteiras.

Vai além. Afirma que as fronteiras de 1967 comprometem a segurança de Israel, dada a proximidade, e afirma que o “antigo parâmetro” de paz precisa ser atualizado. Embora Netanyahu fale de paz, apenas critica o que já foi feito e debatido. Quando Netanyahu afirma que está pronto para um acordo histórico, qual acordo é esse? Qual é sua proposta? Ele abre a fala com essas palavras, mas não propõe nada de concreto.

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Para ficar informado, você pode checar a programação do debate no site da 69ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.

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