A política feita com os mortos

Ontem, Domingo, dia 17 de Agosto, ocorreu o sepultamento de Eduardo Campos, falecido na Quarta-feira em um acidente aéreo. O velório do político, seu cortejo fúnebre e seu sepultamento foram palco de diversas demonstrações políticas, em maior ou menor grau. Nos noticiários e nas redes sociais não faltaram informações e comentários sobre, por exemplo, a presença do ex-Presidente Lula e da Presidenta Dilma Roussef no velório. Também foram muito comentados, durante o cortejo fúnebre, a distribuição de bandeiras do PSB, partido de Campos, camisetas feitas “especialmente” para a ocasião e as constantes aparições e disposição de Marina Silva, que muito provavelmente será alçada ao posto principal da chapa. O que costuma ser uma cerimônia de luto e dor íntima foi, na prática, transformado em um evento político.

Foto: Beto Macário/UOL

Foto: Beto Macário/UOL

Obviamente, as circunstâncias colaboram muito para esse cenário. O Brasil está apenas alguns meses da eleição presidencial. Marina Silva contou com cerca de vinte milhões de votos na última eleição e sua chapa com Eduardo Campos tinha tudo para ser uma eventual opção ao segundo turno nas urnas. Principalmente, tratava-se de um político jovem, novo no cenário nacional, muito forte em seu estado natal, vítima de uma morte súbita em um episódio que é sempre chocante, um acidente aéreo. A profusão de boatos e de detalhes privados, como até mesmo o estado dos restos mortais das vítimas do acidente, contribuiu ainda mais para a comoção pública, que se misturou e confundiu ao debate político.

Pode-se condenar o que aconteceu, um suposto aproveitamento político, quase um comício, de uma tragédia pessoal; também é possível considerar normal, dada a relevância da figura política e a proximidade eleitoral, que urge a necessidade de rearticulação partidária. Ao analisar o episódio, entretanto, pode ser esclarecedor buscar algumas lições na História. Talvez o mais conhecido episódio na cultura luso-brasileira que envolva o simbolismo político dos restos mortais de uma pessoa seja o de Inês de Castro. A história foi imortalizada por Luís de Camões em Os Lusíadas. Inês de Castro seria a amante, secretamente esposa, de D. Pedro, filho de Afonso IV, rei de Portugal, que ordenou o assassinato de Inês. Após ser coroado rei, Pedro I teria se vingado dos assassinos e declarado que era o marido de Inês de Castro, logo, ela seria a rainha. Ele teria então coroado o cadáver da Rainha e submetido a corte à cerimônia do beija-mão, em que todos beijaram a mão do corpo de Inês de Castro.

O episódio, que teria se passado no século XIV, possui aspectos lendários e dificilmente será confirmado ou desmentido de forma definitiva. Outros eventos, porém, são confirmados. Por exemplo, o Sínodo do Cadáver, Synodus Horrenda em latim. Em 897, o Papa Estevão VI mandou exumar o corpo de seu antecessor, e rival político, o Papa Formoso. O cadáver foi trajado com as vestes papais e um diácono agiu como seu “representante”, enquanto Estevão VI “acusava” Formoso de crimes contra o direito canônico. Após a “condenação”, as vestes papais foram retiradas do cadáver, cortaram-se os três dedos para bênçãos da mão direita e enterraram o corpo em um cemitério comum, para depois jogá-lo no rio Tibre. Todos os atos de Formoso como Papa foram anulados. Posteriormente, o sínodo foi anulado e Formoso foi enterrado na Basílica de São Pedro.

Politicamente, temos a legitimação de uma rainha e dos filhos, até aquele momento ilegítimos, de Pedro I e a desautorização de um papado por um clérigo rival; a relação entre os acontecimentos e o episódio de Eduardo Campos pode ser mais contundente como uma demonstração do forte valor simbólico do cadáver na cultura cristã e católica que envolve os três eventos. Mesmo antes do cristianismo, entretanto, existem casos da relação entre a morte e a política. Talvez o mais relevante. Alexandre o Grande, Rei da Macedônia e conquistador de um dos maiores impérios da História, morre em 323 antes de Cristo. Apesar de ter deixado um testamento de suas ideias, Alexandre não nomeou um sucessor para governar o império macedônico. Assim, logo após sua morte, facções formadas em torno de seus principais generais iniciam a disputa pelo trono, vago ao menos até a maioridade do filho de Alexandre, enquanto o império foi partilhado.

Alexandre morreu na Babilônia, no centro do atual Iraque, e seria sepultado na Macedônia, norte da atual Grécia. Na cultura macedônica, a cerimônia de sepultamento de um rei era conduzida pelo seu sucessor; ou seja, quem conduzisse o funeral de Alexandre conquistaria a legitimidade dinástica no império. Um dos generais de Alexandre, Pérdicas, regente da Macedônia, tomou para si a responsabilidade do sepultamento. O corpo foi embalsamado e seria transportado da Babilônia até a Macedônia; entretanto, quando o cortejo chegou à Síria, Ptolomeu, que sucedeu Alexandre como Faraó do Egito e era o principal rival de Pérdicas pelo trono, interceptou o cortejo e sequestrou o cadáver de Alexandre. Ptolomeu sepultou o corpo em Mênfis, declarando-se então o legítimo herdeiro político de Alexandre.

Posteriormente, o túmulo de Alexandre foi colocado em Alexandria e, hoje, é considerado perdido. Um dos principais objetivos da arqueologia no Egito. O império alexandrino não seria reconstruído por nenhum de seus sucessores em disputa. Voltando a última semana, em Agosto de 2014, pode-se debater a validade ou a necessidade da política no funeral de Eduardo Campos. Condenar como cinismo ou desrespeito ou classificar como um processo válido; além disso, o uso da imagem de Campos na campanha eleitoral vindoura será quase inevitável. Ao discutir se política deve ser feita com os restos mortais de alguém, e todos seus desdobramentos, não se pode esquecer uma coisa: a relação entre os mortos e a política não é nova.

Imagem da capa do post: detalhe do quadro Le Pape Formose et Étienne VII de Jean-Paul Laurens

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4 comentários

  • Acho que vale mencionar também a morte de D. Sebastião em 1578 e o subsequente sebastianismo. Um amigo comentou isso comigo hoje e quinta passada já havia comentado o mesmo com uma amiga: a figura de Eduardo Campos como mártir. “Morreu como o político que poderia ter sido” – li em algum lugar.
    O sebastianismo foi, traduzindo em poucas palavras, uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre. Não é isso o que ouvimos por vezes da atual situação política e o que vimos no funeral de Eduardo Campos e o modo como sua imagem está sendo usada?

  • Acho que ficou com uma cara de página virada; já foi, agora é a vez da segunda campanha. “The show must go on”. Essa família é muito estranha…

    “The king is dead. Long live the king!” (uns moleques príncipes de Pernambuco)

    O Lula se desmanchando em choro também foi bizarro. Falando mal do cara há um mês atrás e agora o morto é lindo.

  • Pingback: Resumo da Semana – 17/08 a 23/08 | Xadrez Verbal

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