Lágrimas não são argumentos

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Como alguns de vocês já devem saber, em breve será publicada uma versão de O Alienista, de Machado de Assis. Qual o motivo de ter usado o termo “versão” e não uma “nova edição”, por exemplo? Pois realmente será uma versão da obra de Machado, adaptada para “facilitar a leitura” dos jovens. “‘Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis’, diz a escritora, e dona da ideia, Patrícia Secco. “Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso.”. A questão é: isso é necessário?

machadoPrimeiro, a situação tem um ligeiro agravante, já que o projeto é financiado com dinheiro captado via lei de incentivo do Ministério da Cultura; embora o capital venha de investidores, os investidores poderão usufruir de benesses fiscais em contrapartida. Apenas esse fator já torna o assunto de interesse coletivo, além, é claro, da importância da obra e do autor para a cultura nacional. Machado de Assis é um dos maiores autores da língua portuguesa, fundador da Academia Brasileira de Letras. O impacto de sua figura é tão atual que esteve recentemente presente em comercial da Caixa Econômica Federal (que também foi polêmico, por razões raciais).

 

Em relação ao caso prático, deve-se lembrar de que a obra de Machado de Assis não é infantil. Nem “infanto-juvenil”. Ela é, no mínimo, juvenil. A maioria foi publicada em forma de folhetim nos jornais, que não eram exatamente uma leitura infantil, ainda mais considerando os índices de alfabetização da população brasileira na virada dos séculos XIX e XX. Insinuações sexuais, o cinismo social de Machado, a discussão de temas políticos complexos não são temas superficiais. O próprio Machado dava recados aos seus leitores que não percebiam suas analogias e sugestões. Em Esaú e Jacó, Machado escreve ao leitor que, caso ache que o livro realmente se trata de um triângulo amoroso, e não da disputa entre República e Império, que pare a leitura.

Além disso, não se trata de uma tradução, que requer, ou possibilita, uma adaptação. Caso célebre é Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. A obra, atualmente, é mais conhecida por suas adaptações juvenis, iniciadas com as traduções para o inglês; tais versões refletiram inclusive em suas adaptações para o cinema, sempre aventuras de capa e espada, com tramas simples e românticas. A obra original (espetacular, diga-se)? Contém insinuações sexuais, intriga e drama em doses adultas. O Alienista se trata de obra em português, cujo conteúdo original pode ser acessado facilmente por um leitor brasileiro.

Pode-se argumentar que o idioma mudou, ou que ele usa termos “rebuscados”. De fato, na faculdade de História temos contato com alguns textos ainda mais antigos, por exemplo, do século XVII, que são em português, mas mais parecem espanhol, ou latim, ou esperanto. Qualquer coisa, menos português. Mas o português não mudou tanto assim do século XIX até hoje. Com um bom dicionário, ou com o Google, o vasto vocabulário de Machado é facilmente compreendido. Nesse caso, muito mais proveitoso seriam notas de rodapé ou notas do editor que fizessem uma breve explanação ou contextualização da palavra ou expressão (como “patacão”).

Ainda resta o argumento de que se deve incentivar os jovens a lerem os clássicos, ou terem contato com literatura. Sim, de fato, deve-se sempre considerar que as gerações passam e cada uma tem suas características e necessidades. O hábito da leitura, entretanto, normalmente não nasce na literatura clássica. É muito mais provável que alguém da geração do início dos anos 1990 tenha começado a tomar gosto pela leitura com Harry Potter, não com José de Alencar ou Guimarães Rosa. E essa é a função essencial desse tipo de livro, diga-se; muita gente critica o valor de leituras juvenis, mas é para isso que servem.

Se, mesmo após essa reflexão, o argumento ainda sobreviver, a resposta ideal não é uma versão “simplificada” do texto. Por que não uma versão em quadrinhos? Muita gente ainda tem um preconceito besta, de achar quadrinhos como “infantis”. Pelo contrário, os quadrinhos já são reconhecidos como forma de literatura. Ainda que nada substitua a leitura do texto original, o dinamismo e a fluência que o formato proporciona servem muito bem para essa finalidade, de “facilitar” o acesso dos jovens. A arte gráfica permite contextualizar a obra, a descrição dos lugares e dos personagens, etc.

Reduzir e vulgarizar a literatura clássica não é a solução para um eventual problema de leitura entre os jovens. Não se trata de “guerra de gerações” ou de achar que todo jovem é necessariamente estúpido ou desinteressado. É questão de reconhecer a finalidade de cada obra e o estágio de aprendizado de cada faixa etária. É possível que um bom professor faça um jovem de dezesseis anos render em sua leitura de O Alienista? Sim, mas não é a regra. A falta de vocabulário ou o suposto sofrimento de ler um clássico não justifica sua modificação. Como o próprio Machado dizia, lágrimas não são argumentos.

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Existem diversas adaptações de obras clássicas da literatura para os quadrinhos, inclusive as de Machado de Assis. No caso específico de O Alienista, existem duas. Uma da Editora Ática e outra da Editora Escala Educacional.

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Agradeço a queridíssima amiga e professora Cora Ramos pelas observações e sugestões.

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4 Comentários

  • Seguindo por esta trilha de simplificação endêmica de tudo o que requer um pouco mais do que a sinapse de dois neurônios que não sofram de preguiça atrófica, em pouco tempo se terá um país de patetas e zumbis. É incrível como neste país se aposta na burrice, na preguiça e nos valores mais abaixo da tabela social para simplificar a educação. Alguém avise o ME e os pedademagogos de Brasília que não é emburrecendo cada vez mais a garotada que os professores se sentirão mais inteligentes. Educação é coisa séria, tem que suar a camisa e apostar sempre na superação do aluno. As surpresas positivas que esta iniciativa proporciona são uma das melhores sensações que um professor pode ter ao longo de sua vida acadêmica. Fazer um jovem galgar patamares cada vez mais elevados no conhecimento é tão prazeroso quanto ver um filho crescer e se desenvolver.
    Palavra de um professor que ainda não desistiu de seus alunos.

  • Pingback: Resumo da Semana – 05/05 a 11/05 | Xadrez Verbal

  • Gustavo Oliveira

    Acho super válido serem criadas adaptações pros mais jovens e para aqueles que tem pouca prática com a leitura e querem pelo menos ter uma noção do que se trata os clássicos.
    Claro que nada substitui nem substituirá o original, mas as neurociências já comprovam que ler, ainda que seja porcaria, é melhor para o desenvolvimento da inteligência do que livro nenhum.

    O Prof. Pier Luigi, experiente professor, estudioso de inteligência artificial e configuração de redes neurais, tinha lido Shakespeare com 8 anos, divulgou vários desses estudos.

  • Thiago Melo de Sousa Almeida

    Felipe, eu sou um leito de Machado que nasceu em 1990 e criou o hábito de ler com ele. Não estou dizendo que todos deveriam ser como eu, lógico. A leitura dele 3 difícil e sofri muito. Mas obrigado por defender o que meu escritor favorito escreveu e expor o grande significado político de sua obra. Abraços!

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