A Copa do Mundo é morta

Caros leitores,

Ontem, dia 15 de Abril de 2014, São Paulo teve mais protestos contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Embora não tenha sido de proporções muito grandes, o protesto teve os episódios habituais. Independente do direito de se manifestar e de ter quaisquer opiniões possíveis, esse tipo de protesto, faltando menos de dois meses para a Copa-2014, faz sentido? Em minha opinião, não.

nao-vai-ter-copa-atoNão se trata de ufanismo por achar que será a melhor Copa de todos os tempos, ou da cegueira mercantil que levou alguns a dizerem que “Copa do Mundo não se faz com hospitais”. Um dos primeiros aspectos que deve ser considerado é o fato de termos eleições pouco depois da Copa. Fato é que qualquer Copa do Mundo seria realizada perto das eleições brasileiras, mas enquanto o evento esportivo pode (e terá) uso partidário em todas as regiões, e isso é criticado, certamente esse tipo de manifestação pode cair em tal uso partidário. De certo modo, porém, um equivale o outro.

O argumento principal aqui é a contenção de danos. Desde o início, esse autor criticou a realização, no Brasil, tanto da Copa do Mundo quanto das Olimpíadas. Obviamente, tais críticas não estão aqui neste blog, pois ele nem existia. Inclusive, era mais crítico à escolha das Olimpíadas, já que os bônus do evento ficam circunscritos a uma região, enquanto os ônus são coletivos. Voltando ao tema principal, o que quer dizer essa contenção de danos?

Os gastos apenas com estádios para a Copa chegam à quase dez bilhões de reais, boa parte vinda de financiamento público (financiamento, importante deixar claro). Se contabilizarmos todas as obras ligadas com a Copa, os custos bateriam na casa de vinte e oito bilhões; não farei isso, pois acredito que muitas podem ser obras de efeito perene, como ampliação de aeroportos (embora nem todos, como as sedes de treinamento). Vamos nos ater aos custos ligados de forma indissociável ao evento esportivo, ou seja, seus palcos.

Alguns estádios sequer possuem uma explicação lógica em sua localização. Exemplos. A “sede da Amazônia” é em Manaus. Um estádio para mais de 42 mil pessoas, que custou mais de 600 milhões de reais. Em um estado que não tem nenhum time de futebol nas três primeiras divisões nacionais, e desde os anos 1980 não tem um time na Série A. Enquanto isso, Belém, no Pará, possui dois times de tradição e história, Paysandu e Remo; Paysandu, inclusive, já foi campeão nacional da Série B duas vezes e já representou o Brasil na Taça Libertadores, competição sul-americana de clubes.

Outro exemplo? Arena Pernambuco, em Recife. Com custos de mais de 500 milhões de reais, o estádio foi construído como o quarto grande estádio em uma cidade cheia de tradição no futebol brasileiro. Sport, Náutico e Santa Cruz são os principais times da cidade, e todos já contavam com seus estádios. Somente após a construção do novo estádio é que foi decidido, em circunstâncias atribuladas, que o Náutico será o mandante na nova arena. O Estádio dos Aflitos, antigo palco do clube, será “arrendado”, uma imensa área se tornará quase ociosa em localização nobre da cidade.

São apenas alguns exemplos dos altos custos e péssimo planejamento, misturado com clientelismo, dos estádios da Copa-2014. Em São Paulo, o futuro estádio da Copa certamente se pagará, já que terá como mandante o clube de maior torcida do estado, o Corinthians. Mas seu custo de quase um bilhão de reais choca ao ser comparado com o custo do estádio do rival Palmeiras, também de alta tecnologia, construído sem relação com o evento e movido essencialmente pelo capital privado: cerca de 600 milhões de reais. Uma diferença tão grande que é impossível não gerar suspeitas.

Para o evento, o Brasil se associou a uma das instituições de pior reputação do mundo, a FIFA. Não é um “complexo de vira-latas”, achar que a Copa traz um péssimo uso do dinheiro por ser no Brasil; é saber que, quando o sócio principal da empreitada é uma instituição como a FIFA, o resultado não pode ser bom. Não é coincidência que as próximas Copas serão em lugares não muito conhecidos pela transparência financeira (Rússia e Catar, respectivamente).

E qual a única maneira de fazer esses financiamentos terem o mínimo de retorno? Com a realização do evento, oras. O dinheiro movimentado pelos turistas, pelos torcedores, o gasto pelas empresas internacionais mesmo que seja apenas para a cobertura do evento. É impossível prever com garantia o gasto dos turistas, mas a Embratur calcula cerca de 25 bilhões de reais, baseados na última Copa, de 2010.

O ponto é: esse dinheiro já foi gasto, bem ou mal. As obras, lógicas ou não, já foram executadas. Associações suspeitas se concretizaram. O momento dos protestos já passou, infelizmente. A hora de gritar era durante a “candidatura” (única), ou logo após o resultado. Agora, não adianta mais, a triste verdade é essa. Tal como Inês de Castro, agora a Copa é morta.

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Cabe a confissão de que o blogueiro é contraditório e coleciona as figurinhas do álbum da Copa.

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3 Comentários

  • Sidney O. Pagotto Jr

    Concordo que, de fato, Inês é morta. Melhor fazer a Copa de uma vez e tentar minimizar o prejuízo. Divirjo quanto ao “péssimo planejamento”. A meu ver, o que foi planejado está sendo feito com louvor: meter a mão na grana oriunda do erário público. Outros produtos, tais como aeroportos e cia., pouco importam para quem sempre teve como objetivo passar a mão na grana. Aliás, veja que a previsão de término de alguns aeroportos é para 2015, 2016, alguns para 2017. Acredito que alguns deles sequer serão, de fato, finalizados.
    Fico imaginando se algum dia teremos uma sociedade mais consciente e menos adepta à Lei de Gérson.

  • Sim, isso que eu penso também. Oras bolas, agora que aconteça essa Copa para pelo menos ganhar uma grana com isso, pois se não, é mais bobeira.
    Eu gosto de futebol =)
    Só que por todo descaso com essa Copa – trabalhadores mortos durante as construções dos estádios,corrupção..- eu não estou empolgada com esse evento.

  • Pingback: Resumo da Semana – 14/04 a 20/04 | Xadrez Verbal

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