Escravos africanos e o tráfico atlântico: História “politicamente incorreta”

Aviso que o texto que segue é um pouco maior que o normal; peço a paciência e a leitura.

Caros leitores,

Ontem estava em um debate sobre as cotas nas universidades brasileiras. Citei meu texto sobre o assunto. Um colega de debate, chamado Leonardo, muito cordialmente pediu minha opinião sobre o fato de muitos africanos terem sido apresados por outros africanos, e como isso poderia implicar uma responsabilidade do Estado brasileiro. Tal argumento é comumente utilizado, muitas vezes para diluir a responsabilidade luso-brasileira na escravidão africana. Afinal, os africanos também eram escravistas, então, a culpa não seria de Portugal ou do Brasil. Ao menos, não exclusivamente.

Conhecida obra de Rugendas, retratando o porão de navio negreiro

Conhecida obra de Rugendas, retratando o porão de navio negreiro

Utilizarei nesse texto, como “diálogo”, o livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, do jornalista Leandro Narloch, já que tal livro faz essa comparação e muito colaborou para sua divulgação. A comparação não procede, é descontextualizada e confunde os motivos por trás de cada processo. Comparar eventos históricos apenas pelo seu resultado (a escravização de um indivíduo), desconsiderando as diferenças de motivos, é um erro, quando intencional, ou um engano, quando por desinformação.

Vamos voltar no calendário e contextualizar a escravidão. A principal fonte para o estudo da escravidão antiga provavelmente é Aristóteles. As diferenças entre os tipos de escravidão e as diferenças entre as múltiplas regiões da Grécia (além, é claro, do período de tempo extenso), tornam o tema complexo, mas podemos vulgarizar da seguinte forma: a escravidão na Grécia antiga compreendia três possibilidades; por dívida, como punição e como apresamento de guerra. Tal miríade de possibilidades geravam sociedades com múltiplos estratos sociais. Para Aristóteles, todo não falante de grego deveria ser escravo (daí o termo bárbaro, “que balbucia”, que significava alguém que não falava grego).

Qual a lógica de tais tipos de escravidão? A escravidão como punição, como mecanismo penal, talvez seja a mais óbvia. Um indivíduo comete um crime de tal proporção que, como punição, é privado de sua cidadania e de liberdade. Tal escravidão pune o indivíduo apenas, ou seja, não se aplica para uma sociedade ou sua família. A escravidão por dívida é autoexplicativa, quando uma dívida pecuniária é paga pelo trabalho servil; ela, dependendo do exemplo, podia passar para o restante da família do devedor. Finalmente, o apresamento de escravos em guerra consistia no entendimento aristotélico de que um determinado povo, ao perder uma guerra, demonstrava fraqueza e inferioridade, por isso seria justo o vencedor escravizá-lo.

Essas três possibilidades de escravidão (dívida, punição e guerra) estavam presentes basicamente em todo o Mediterrâneo, e antecediam, e bastante, a Grécia clássica; usei-a como ponto de partida por estar mais familiarizado com ela. Também era possível o escravo reconquistar sua liberdade (após, por exemplo, o cumprimento de sua pena). Como tais tipos de escravidão estavam presentes em todo o Mediterrâneo, estão, obviamente, presentes na Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Esse é o primeiro fator importante, peço que o leitor o mantenha na memória.

Na tradição Ocidental, temos, como próxima etapa, Roma antiga. Nela estavam presentes as mesmas três modalidades de escravidão, com a exceção de que um escravo poderia reconquistar não apenas sua liberdade, mas também sua cidadania, normalmente pelo serviço militar. Note que tais mecanismos de escravização eram universais, não eram restritos em critérios étnicos ou geográficos. Escravos romanos eram germânicos, celtas, cartagineses, trácios, gregos, etíopes, italianos, basicamente toda etnia dentro das fronteiras da República ou do Império.  A economia romana era baseada na mão de obra escrava, o escravismo era visto como econômico; o segundo fator importante.

Um dos motivos do declínio romano foi a crise econômica derivada da falta de mão de obra escrava, já que o tempo das grandes expedições militares (maiores responsáveis pelo fornecimento de escravos; Júlio César vendeu toda a população gaulesa sobrevivente) havia passado. Com a passagem da Antiguidade tardia para a Alta Idade Média, a escravidão torna-se ou por dívida ou por punição, ou seja, cada vez mais excepcional na Europa Ocidental. Considerando que o Direito Romano foi a base para o Direito moderno, e também para o Direito contemporâneo, tais mecanismos de escravização de um indivíduo permaneceram; o terceiro fator de importância.

Na Baixa Idade Média os choques entre diferentes centros e diferentes culturas cresce em intensidade, em comparação ao período anterior (desnecessário dizer que estou resumindo bem todo esse processo, para fins didáticos). O apresamento por guerra volta a ser em larga escala e lucrativo, normalmente de “estrangeiros”, justificado pelo conceito aristotélico de barbarismo. Das Cruzadas virão a maior quantidade de escravos; seja no Leste, com a escravidão de bálticos e eslavos (origem da palavra escravo), seja no Mediterrâneo, com a escravidão de muçulmanos e de cristãos mutuamente. Além de quantidades menores, entretanto, tais escravos serão o fruto dos conflitos, não o motivo.

Na esteira do espírito cruzadístico, temos a expansão ultramarina portuguesa, acompanhada, em 1452, da bula Dum Diversas, do Papa Nicolau V, que autorizava ao rei português o direito de reduzir à “escravidão perpétua” sarracenos, pagãos e quaisquer descrentes. Com a penetração portuguesa no continente africano e sua posição geográfica privilegiada, Portugal torna-se o maior centro mercador de escravos. Após apenas alguns anos, Portugal já está totalmente comprometido com o comércio de escravos, ultrapassa a faixa árabe-muçulmana e tal fluxo comercial é quase exclusivamente de escravos africanos negros. Quarto fator nessa grande recapitulação.

Tudo isso é resumido por Leandro Narloch em “Desde a Antiguidade, os humanos guerrearam, conquistaram escravos e muitas vezes venderam os que sobravam”. Aí entra o argumento de que tais escravos eram vendidos pelos próprios africanos. “Meses antes, soldados de uma nação vizinha invadiram a cidade deles, mataram quase metade dos moradores e os que sobraram agora marcham sob o sol do Saara, como mercadoria”; ou seja, Narloch apenas repete o apresamento de escravos pela guerra, sob a justificativa formalizada por Aristóteles, da fraqueza de um povo conquistado. Citar tais condições é redundante, tendo em vista que tal prática já era estabelecida, e passa longe de ser um atenuante.

Finalizando essa História resumida da escravidão antiga, então, o que tornaria o comércio africano promovido por Portugal, até esse momento (início do século XVI), raiz de algo mais abominável? Que estará na origem dos problemas contemporâneos? O português une um costume antigo da escravidão (primeiro fator), sob uma justificativa econômica (segundo fator), amparada pelo costume do Direito (terceiro fator) e adiciona um componente étnico (quarto fator). Tal componente étnico eclipsará todos os outros, como veremos em seguida, e impede quaisquer comparações do tráfico atlântico com o escravismo anterior.

Chegamos então aos territórios portugueses na América, o futuro Brasil, onde temos, já no século XVI, demonstração do princípio aristotélico da escravidão, em que indígenas eram capturados como presa de guerra e colocados para trabalhar. Tal oferta de mão de obra não supre a demanda, e o comércio atlântico de escravos (que também envolverá o Caribe e a América do Norte), o maior deslocamento por coerção de uma população na História, inicia já em grandes números. Em 1538 chegam ao Brasil os primeiros africanos escravizados.

O comércio atlântico de escravos, fenômeno próprio, trouxe cerca de doze milhões de pessoas escravizadas para as Américas. Mercado de tal tamanho praticamente rompe com o primeiro e com o segundo fator elencados, o que começa a inviabilizar a comparação de Narloch. O fluxo luso-brasileiro de escravos pelo Oceano Atlântico não mais segue costumes antigos da escravidão (no máximo, ampara-se em princípios bíblicos como o que diz que negros são amaldiçoados, recém-repetido pelo deputado Marcos Feliciano), e torna-se mais que necessidade econômica, torna-se atividade mercantil. O escravo não é mais uma necessidade de produção, ele é mercadoria, e sua compra e venda torna-se atividade tão lucrativa que se sustenta por si só.

Outras demonstrações de como a escravidão costumeira antiga não é um parâmetro válido são o caráter perpétuo da escravidão nos Impérios português e brasileiro, que contrasta com, por exemplo, a possibilidade de um escravo romano reconquistar até sua cidadania; a ausência, na História brasileira, tanto da escravidão como pena criminal como da escravidão por dívida (formalizada; de maneira ilegal, ela existe até hoje, de forma lamentável). A escravidão no Brasil era derivada de um processo mercantil e sustentada em um motivo étnico, duas características completamente distintas da escravidão praticada na própria África naquele momento, ou no Mediterrâneo.

Mesmo o amparo legal da escravidão, o terceiro fator citado anteriormente, some no comércio atlântico de escravos. Do total de africanos trazidos para o Brasil em 300 anos de tráfico atlântico, aproximadamente 20% chegou entre 1831 e 1855, devido à expansão da produção cafeeira. Tal percentagem demonstra quanto o tráfico realizado no período foi importante, principalmente se comparado à totalidade do tráfico atlântico para o Brasil. E, entre 1831 e 1855, pelas leis brasileiras, o comércio de escravos pelo Atlântico estava proibido; as autoridades faziam só vistas grossas. A lei de 1831 que proíbe o tráfico foi decorrente da pressão inglesa pelo fim do comércio negreiro; daí a expressão “para inglês ver”, quando algo é feito sem a intenção de cumprir.

Narloch dá exemplos desses processos únicos, sem notar que eles invalidam seu próprio argumento. Ao contar a história de Zé Alfaiate: “O mais provável, porém, é que visse no comércio de gente uma chance comum e aceitável de ganhar dinheiro, como costurar ou exportar azeite.(…) Zé Alfaiate. Ex-escravo e traficante, foi ao mesmo tempo vítima e carrasco da Escravidão”. O trecho explicita que o tráfico de escravos torna-se larga atividade mercantil, baseada apenas na moeda, que Zé Alfaiate, negro, detém; longe então do apresamento pela guerra, que ele usa, erroneamente, como comparação. Também dá exemplos de príncipes africanos que tratam, no Brasil, do comércio de escravos no período em que tal comércio já era ilegal pelas leis brasileira.

Supostamente, única foto produzida em um navio negreiro real na costa brasileira, de 1882, por Marc Ferrez

Supostamente, única foto produzida em um navio negreiro real na costa brasileira, de 1882, por Marc Ferrez

Após demonstrar que a comparação entre o comércio atlântico de escravos, ligado de forma visceral à História brasileira, e o comércio de escravos em diferentes períodos ou com diferentes motivos não procede em seus principais fatores, vamos analisar o fator determinante desse novo comércio de escravos: o motivo étnico, essência, explícita ou implícita, da maioria dos males que estão presentes na sociedade brasileira até os dias de hoje. Em contraste à sociedade romana, em que várias etnias poderiam ser escravas, inclusive os próprios romanos, o componente étnico que Portugal adiciona ao comércio de escravos cria uma aberração: existe um povo que é escravo, tem cara de escravo. Tem cor de escravo.

Por trezentos anos, tal conceito é martelado na sociedade. Os resultados só podem ser catastróficos. O Decreto nº 1.331-A, de 17 de Fevereiro de 1854, que regulamenta o ensino básico no Brasil, irá excluir os negros, mesmo os libertos, do ensino nesses motivos, por serem “portadores de contágio”. No Rio Grande do Sul, no Colégio de Artes Mecânicas, a lei mandava recusar matrículas às crianças de cor preta e aos escravos e pretos, “ainda que libertos e livres”.

São alguns exemplos das raízes do fato da população negra ter menos escolaridade média, que a população analfabeta negra é o dobro da branca e que a parcela de negros na população pobre é de cerca de 63%, embora os negros sejam 7,6% da população (e os pardos, 43,1%). Como contraste, ainda em 1830, o Senado Imperial declara livre todo e qualquer indígena que ainda esteja em situação de escravidão.

Tal componente étnico da escravidão faz com que ascensão social no Brasil deixe de ser uma questão de posses. Narloch, para demonstrar como vários negros se beneficiavam dos lucros do comércio de escravos, afirma que “Em Campos dos Goytacazes [Rio de Janeiro], no final do século 18, um terço da classe senhorial era ’de cor’”. Ele esquece que o contra-argumento está em seu próprio livro: “Apesar de serem livres e ricas, as negras forras não viraram senhoras da elite: continuaram carregando o estigma da cor.”.

Comparar o imenso comércio de africanos escravizados pelo Oceano Atlântico com o comércio de escravos feito na Antiguidade, ou de acordo com os costumes antigos, não tem sustentação. Se um príncipe africano tomava escravos em uma guerra com seus vizinhos, é uma coisa. Inserir esse escravo no processo mercantil atlântico é outra, com outra origem, outra conotação, outra finalidade. Outro elemento: o étnico. O escravo deixa de ser por crime, por dívida ou por guerra. O escravo é o negro, e o negro torna-se escravo. Um fenômeno econômico que remonta à antiguidade do Crescente Fértil é distorcido ideologicamente. A escravidão do negro pelo Atlântico não é fruto do racismo. A escravidão do negro pelo Atlântico cria o racismo.

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Sobre o comércio de africanos pelo Atlântico, sugiro a obra O Trato dos Viventes. Ou, qualquer coisa escrita pelo historiador Luiz Felipe de Alencastro.

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Aviso que no Domingo, dia Dois de Março, será publicado um Xadrez Dominical que provavelmente será lido por quase ninguém; fora isso, o Xadrez Verbal entra em recesso até Quarta-feira, dia Cinco de Março. Bom Carnaval, descanso, trabalho, o que for, para todos os frequentadores do blog.

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56 comentários

  • Filipe, primeiramente quero parabenizar por seu texto, este espaço está cada vez melhor, e principalmente por sua frase final, ela foi lapidar: “A escravidão do negro pelo Atlântico não é fruto do racismo. A escravidão do negro pelo Atlântico cria o racismo.” esta frase, por si só, já daria um novo texto com vários estudos embutidos. Gostei muito.

    Porém cabe um comentário meu: tudo aqui escrito, ao meu ver, não inviabiliza o que o amigo Leonardo disse lá no outro tópico, naquela área que não mais participo. Apesar da escravidão Africana ter características diferentes da escravidão europeia na América, os africanos negociadores de escravos negros para este continente devem, também, ser responsabilizados por essa página horrível da história, pois se o motivo dos portugueses era simplesmente mercantilista, a motivação desses africanos não era diferente. A única diferença é que estes, diferentemente dos lusitanos, conheciam a cultura local, portanto há até um agravante em se aproveitar dessa situação para, simplesmente, ganhar dinheiro.

    Grande abraço

    • Caríssimo Eduardo

      Primeiro, obrigado pelo elogio e pela leitura.

      Segundo, naquele nosso espaço (que eu espero que vc volte a frequentar, assim como voltou aqui), fizeram comentário parecido. Sendo assim, vou apenas adaptar o que escrevi lá, espero que não se importe.

      Vamos lá, quando vc fala de “também devem ser responsabilizados”, dá pra gente interpretar de duas maneiras.

      A primeira é moral; aí não se aplica pois a captura de africanos por outros africanos se encaixa muito mais na escravidão aristotélica antiga, pela guerra, etc; não era uma escravidão étnica, como o Melzi disse. A culpa dos luso-brasileiros (e também dos outros mercados de escravos, como Caribe e America do Norte) é própria, assim como era própria a sua forma de escravidão.

      A segunda seria a legal, que eu cito naquele texto sobre cotas, quando coloco que a atual República é um Estado sucessor do Brasil imperial, e que o Leonardo citou; pensando nas regiões que mais forneceram escravos ao Brasil, como Nigéria e Benin (o primeiro país a reconhecer a independência brasileira, embora se diga que foram os EUA, pq, usando das suas palavras sobre o Golpe de 1 de Abril, “não pega bem”), não existe uma continuidade desses Estados.

      Não dá pra traçar uma linha contínua, pensando na formação de um Estado moderno, entre os príncipes e reinos africanos dessa costa ocidental africana com as atuais repúblicas. Existem trocentos príncipes na Nigéria (não é a toa que tem o email do golpe do principe nigeriano), mas eles são, politicamente, impotentes; o país é uma república presidencialista. Esses Estados modernos serão formados/forjados no contexto do imperialismo europeu do século XIX.

      Além disso, ao contrário do que o Narloch dá a entender, essa relação entre o europeu e o príncipe africano não era simétrica. A grana e o poder militar estava na mão dos europeus; o Guia Politicamente Incorreto inclusive diz que a principal moeda de troca por africanos capturados eram armas de fogo, produto que não existia localmente na África e que mudava o rumo de uma guerra tribal local. É que Portugal nunca teve interesse ou músculo pra exercer uma dominação concreta na costa africana, então parece que era uma relação entre iguais. Quando França e Inglaterra entraram na brincadeira, a gente sabe o que aconteceu com esses chefes tribais.

      E, apenas para contrastar, ao contrário desses Estados africanos, no nosso país aqui dá pra traçar uma linha perfeita e contínua dos governos que autorizaram/incentivaram/foram coniventes com a escravidão e com o Estado atual. Por exemplo, boa parte dos tratados sobre navegação internacional na bacia do Amazonas vêm da época do Império e são válidos ainda hoje (basicamente pq não ficaram obsoletas). Então, se a lei do Império que regulamenta uma importante bacia hidrográfica é válida, também é válido que uma regulamentação do mesmo governo seja alvo de reparação.

      Abração!

      • Apenas um adendo sobre a questão da compra de escravos de Estados africanos em sua resposta, Filipe. Se comprava com moeda e armas, o que nos leva à conclusão que, em uma sociedade que justifica a escravidão por guerra, como então na África, não fazer negócio com os europeus, faz com que estes possam fazer negócio com o grupo/Estado inimigo. Não aceitar a negociação com os Estados europeus significava correr risco real de ser escravizado por um inimigo, agora, armado. A interferência européia nas sociedades africanas faz um grande estrago neste aspecto. Escraviza-se para não ser escravizado, e o sistema perverso se retroalimenta, mais escravos geram mais escravos.

        Ótimo texto.

  • Ótimo texto! Narloch é de doer…

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  • Oi, tudo bem?

    Linkei seu texto numa discussão de um grupo numa rede social e recebi o comentário abaixo. Poderia tecer considerações sobre ele? Obrigado.

    ” No texto ele cita que existia escravidão no período da idade média, coisa que não existiu, era um processo de suserania e vassalagem. Cita que o racismo começa quando começa o trafico de escravos, coisa que não é verdade, Le Goff em seu texto “O cenário germânico” já demonstra um racismo entre romanos e germânicos. Na região da Grécia antiga já havia racismo, pois o gregos se achavam superiores ao outros povos por não falarem grego, até mesmo o povo macedônico foi taxado de Bárbaro mesmo que eles falavam grego. No geral o texto não é ruim, até concordo com o autor, entretanto esses erros históricos são difíceis de engolir. O autor me tem m cheiro de discípulo de Foucault.”

    • O comentário é movido ou por má-vontade ou por má-fé, o que fica explícito na tentativa desnecessária de rótulo ao final dele.

      Primeiro, confunde escravidão com suserania e vassalagem, sendo que provavelmente quis dizer servidão. Os reinos francos mantinham a escravidão por dívida em suas leis e o comércio de escravos eram frutífero nas regiões das Cruzadas, tanto no Oriente Médio quanto no leste. Exemplos vários aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Slavery_in_medieval_Europe

      Provavelmente o autor do comentário vai desmerecer por ser a Wikipedia (o que é uma bobagem), mas as fontes estão aí e o link é útil pois contém diversos exemplos, especialmente para alguém que diz “coisa que não existiu”, afirmativamente.

      Sobre a segunda parte do comentário, o próprio texto resgata conceitos aristotélicos e é clara que a conclusão do texto se refere ao racismo contra a população negra, propósito do texto que fica claro em sua introdução, já que a discussão é sobre cotas e escravidão africana.

      • Intrigou-me o fato dele supor uma possível influência de Foucault em seu texto. Seria isso possível, não só de sua parte, mas também por outras pessoas com formação em História? Haveria alguma “vantagem” em se ter tal influência? Por outro lado, Foucault é pós-modernista, e uma das características dessa corrente é o irracionalismo e a negação da Ciência. Em um de seus videos, você defendeu a História como ciência. Não seria, então, contraditório absorver (em totalidade ou em grande parte) as ideias de tal pensador, caso algum indivíduo seja um estudioso de História e sectário de Foucault?

    • Renato, há um erro nesta interpretação do comentário que você replicou aqui. Quando o seu autor entende que as dominações étnicas anteriores à escravidão mercantil de africanos trazidos através do Atlântico à América, como entre os gregos e romanos sobre os povos conquistados por eles, levantadas por Le Goff, são fenômenos históricos de racismo ele está confundindo racismo com etnocentrismo.
      Etnocentrismo é um fenômeno de centralidade da própria identidade étnica de um povo por ele mesmo na sua relação com outras alteridades, portanto, a hierarquia de dominação entre diferentes etnias, o que se manifesta de várias formas, inclusive o racismo na escravidão mercantil de africanos na América entre os séculos XVI e XX. Já o racismo é um tipo de hierarquia de dominação étnica calcada na inferiorização cientifizada de uma alteridade como raça. Ou seja, o racismo se refere à legitimação científica da suposta inferioridade de uma etnia perante outra (comprovada pela sua dominação no decorrer da história) por determinadas características naturais que delimitariam uma raça específica dentro da espécie humana.
      Portanto, o racismo é um produto da escravidão mercantil dos africanos e indígenas na América, entre os séculos XVI e XIX e do imperialismo do século XIX na África, Ásia e Oceania porque criaram historicamente uma condição de inferioridade e desigualdade social de diversas etnias perante a etnia branca eurocêntrica ocidental que posteriormente foi legitimada pela explicação científica de inferioridade natural e biológica por meio da categoria “raça”, recém criada no século XIX, dentro de um processo cultural de secularização que começou no iluminismo e que desembocou no positivismo comteano e seus empirismos e cientificismos, geradores do evolucionismo e do darwinismo social, hierarquizadores da espécie humana por raças.
      Assim, como não havia a categoria de raça para a legitimação científica da inferioridade biológica das etnias escravizadas na Antiguidade, essa violência era apenas etnocentrismo e não racismo. Portanto, todo racismo na história é etnocêntrico, mas nem todo etnocentrismo na história é racista. Racismo só a partir do século XIX como resultado da escravidão mercantil dos africanos e indígenas americanos na América, do imperialismo do XIX na África, Ásia e Oceania e da secularização cientificista que criou a categoria conceitual de raça para legitimar culturalmente todo esse sistema de opressão étnica.

    • Espero que tenha entendido.

  • Ah, sim. Anteriormente, a pessoa me disse haver diversos erros históricos no texto. Então pedi que os citasse.

  • adoreii!!!!! depois do que li acho que gabarito as questoens do enem referentes a escravidão muito obrigado

  • dalhe filipe, achei massa vc ter descordado da ideia do narloch com respeito.

  • Parabéns por nos trazer informação e conhecimento de qualidades, diferentemente de outros indivíduos que nos fornecem ignorância e desinformação. Dizem que estes devem ser ignorados. Porém, sabemos que não; e, por isso, pessoas como você são muito essenciais para que tais discursos falaciosos possam ser desconstruídos. Muita saúde e sucesso, e continue com o trabalho (muito bom)!

  • Bom, muito bom. Bem bom. Logo logo o Xadrez supera a Wikipédia nos sites que mais acesso…

  • Olá Filipe, aproveitando o gancho de você ter citado o guia politicamente incorreto, gostaria de tirar uma dúvida. A parte do livro que ele fala sobre Solano Lopez na verdade ser um louco e que a Inglaterra queria na verdade apaziguar a situação e não tinha nenhum interesse é real ou não? Porque vejo duas correntes sobre isso na internet, uma que defende que o Paraguai era uma super potência que iria dominar a região e por isso foi esmagada pelos interesses da Inglaterra e a corrente que defende que na verdade o Lopez era louco, que a Inglaterra queria manter a paz entre todos e o Brasil foi o grande vilão da história. No livro ainda é citado o livro Maldita Guerra do Francisco Doradioto, como um livro de história mais próximo da realidade dos fatos sobre o evento. Forte abraço e vida longa ao Xadrez Verbal =D

    • Cristian, sugiro ler o capítulo sobre a Guerra do Paraguai escrito pelo próprio Doratiotto no livro História das Guerras. Já citei em um vídeo. É uma forma condensada do livro e vai tirar todas suas dúvidas.

      Um abraço

  • Alberto Barros da Silva

    ESTOU COMEÇANDO VOU CONTINUAR A ÇER ESSAS MATÉRIAS COM CERTEZA!

  • Olá Xadrez, muito bom seu post. Apenas uma errata, a fotografia do navio negreiro é de autoria desconhecida, foi tirada em 1868, e mostra o comércio de escravos africanos no Oceano Índico.

  • Acho que você não entendeu muito a respeito deste capítulo que trata da escravidão no livro do Narloch. Quando você diz que o próprio livro fornece contra argumentos a respeito da existência do racismo por acaso você chegou a considerar que o livro não está colocando em dúvida a existência do racismo?
    O livro quer na verdade derrubar o lugar comum da narrativa histórica ensinada nas escolas que pinta o negro única e exclusivamente como vítima, discurso que vem sendo usado para justificar todo tipo de ação afirmativa no Brasil e no mundo. Quando Narloch narra as histórias em que alguns negros, ainda que em menor número também foram responsáveis pela escravidão ele põe em cheque toda política de reparação que se possa pensar. Se você duvida basta imaginar que uma política de reparação da escravidão poderia beneficiar diretamente um descendente de alguém que lucrou e ajudou a propagar a escravidão em detrimento de alguém que não teve nada a ver com ela. Como fica a justiça nesses casos?
    Apesar da sua explicação histórica ser muito boa não foi assim que eu aprendi na escola sobre escravidão no Brasil. Muito menos os fatos descritos no livro do Narloch e acho que é essa versão da história, a que é ensinada nas escolas que está sendo refutada no livro.

    • Sim, eu entendi que esse é o argumento dele. E a questão é que é um argumento vazio e sim, o negro, no tráfico Atlântico, foi a vítima. Sobre o restante do seu comentário (“beneficiar um descendente”), isso se chama exceção. Não é a regra. Não é a estrutura. E usar a exceção pra negar a regra é, no mínimo, vazio.

      • Argumento vazio por que? É fato que a única versão da história sobre a escravidão ensinada nas escolas é essa que é criticada no livro e é disso que ele trata. O negro não foi apenas vítima no tráfico Atlântico, de acordo com os relatos do livro ele foi algoz também. Eu sei que é exceção e ninguém está negando qual era regra. A questão aqui é apresentar um outro ponto de vista para a questão. Eu por exemplo acho que políticas de reparação devem funcionar para todos os casos. Se existem exceções já é o suficiente para considerá-las injustas. Alguém poderia argumentar que condenações a morte de pessoas inocentes são o suficiente para ser contra a pena de morte. É uma questão de opinião. E como eu disse não é apenas uma exceção do tipo “este negro não é descendente de escravos”, é a exceção do tipo “ele é descendente de traficante de negros”. Casos assim resultariam em um outro nível de injustiça.
        Sem querer me estender muito no assunto, grupos que defendem ações afirmativas sempre usam o argumento da dívida histórica como justificativa. Se usassem apenas o argumento do racismo, onde mesmo pessoas que não descendem das vítimas da escravidão sofrem com o preconceito o livro não teria efeito algum. O problema é que apenas a carta do racismo é insuficiente e eles usam a questão da dívida histórica pra reforçar suas reivindicações. É aí que está a relevância do livro. Existe o racismo e a dívida histórica. É a dívida histórica que está sendo posta em dúvida.
        Também não entendi sua interpretação a respeito dos motivos da escravidão, como se houvesse algum motivo que fosse moralmente superior que o outro para escravizar seres humanos. Mas acho que isso é mais uma questão de opinião pessoal assim como aceitar ou não que negros descendentes de traficantes de escravos se beneficiem de ações afirmativas.

        • Não, não foi o mesmo algoz pois eram contextos e processos diferentes, a questão é essa. Além disso, não há hierarquização de escravidão no texto. Sobre ser um argumento vazio, está explicado no texto, e vc prefere se focar em coisas como “é fato” e “minha opinião”. Desculpe, mas não tomo esse caminho, obrigado pelo comentário e um abraço.

          • Ok, eu não estava “focando” em fatos e opiniões, estava na verdade separando os dois. Relendo seu texto com mais atenção eu percebo a relevância desse componente para o argumento que você coloca de que a escravidão ao adotar o motivo étnico contribuiu para o surgimento e agravamento do racismo e nesse ponto eu concordo com você. Só que eu não vi no livro uma tentativa de minimizar ou justificar o racismo e por isso acho a questão dos motivos irrelevante.
            Seu texto é muito esclarecedor mas como crítica ao livro está batendo em um espantalho. Obrigado por responder e abraço.

          • Daniel, desculpe, não estou “batendo em um espantalho”. Por dois motivos. Primeiro, a introdução deixa clara a ideia com a qual debato e que o livro serve de diálogo por fomentar essa ideia. Segundo, Narloch escreve, dentre outras coisas, “Não há motivo para ativistas do movimento negro fechar os olhos aos escravos que viraram senhores. Ninguém hoje deve ser responsabilizado pelo que os antepassados distantes fizeram séculos atrás.”.

            Ele claramente equaliza os dois processos, os “senhores negros” e os “senhores brancos”, quando não são a mesma coisa, não podem ser equalizados.

            Peço desculpas pela demora na resposta, os últimos dias foram problemáticos. Um abraço.

  • Belo texto aprendi muito tirei dúvidas vlw

  • Texto excelente, concordo plenamente! Acho que a peça chave do seu texto é entender a questão da mercantilização do comércio negreiro no atlântico e o que isto difere dos outros formas de tornar alguém escravo. Temos que ter uma percepção diferente na hora de discutir sobre a escravidão no Brasil, temos que ver sobre outra ótica. A coroa portuguesa e a colônia foram os repoisáveis pela geração de tanta demanda, sob países em uma situação econômica, política e social bem distintas, muitas populações ainda eram tribais. Enfim, apenas interessante acrescentar que a escravidão por dívidas na Roma antiga foi abolida no século IV a.C. um grande ganho da plebe, mas que ainda assim não alterou muito a situação de pobreza e inferiorização dos plebeus da República Romana.

  • Os europeus não transformaram o escravo em mercadoria sozinhos. Reinos africanos como o Daomé (atual Benin) se especializaram em fornecer os escravos de que os europeus precisavam. Não eram movidos por alguma escassez de mão de obra interna. Além disso, o processo de escravização, nesse caso, não era mera consequência da guerra, e sim a sua causa, o motivo pelo qual a guerra era realizada. Se alguém tentar justificar essa prática pelas “necessidades econômicas” do Daomé, corre o risco de também justificar as “necessidades econômicas” do latifúndio açucareiro. Alguém daquela época que defendesse o uso de escravos no latifúndio canavieiro provavelmente pensava da mesma forma (“E como nós portugueses faremos para cultivar o açúcar sem os nossos escravos? O único produto de valor que nos garante o território é o açúcar… E os homens livres não querem trabalhar nos nossos latifúndios…). Por esse e outros motivos eu não sou a favor de isentar os povos africanos que permitiram ao tráfico de escravos atingir largas proporções de responsabilidade. Eu acredito que os negros do Brasil atual foram vítimas de um processo histórico (que prossegue com o fim da escravatura, passando pela Lei de Terras, etc). Concordo com o texto em relação ao racismo, que foi uma idéia contruída peloa europeus.

    • André, mas se o fornecimento de escravos tornou-se a causa desses conflitos, tais conflitos estavam justamente subordinados à lógica mercantil do Atlântico. Subordinados no sentido de não serem a causa, serem consequência; para usar o mesmo termo que você, não são a responsabilidade. Um abraço e obrigado pelo comentário

      • A meu ver, se a elevada demanda por escravos do tráfico atlântico justificasse o processo de escravização que ocorria na África em decorrência dele, então a elevada demanda por açúcar na Europa também seria uma justificativa para o tráfico atlântico que ocorria para atender a essa demanda, isentando não apenas os povos africanos envolvidos na captura de escravos, mas também os portugueses, que só estariam “atendendo à demanda”.

        • Não André, é o caminho contrário. O fato de seres humanos serem escravizados por uma demanda mercantil que torna o processo Atlântico único. E não podemos comparar o comércio de seres humanos com o de um produto, como é o caso do açúcar.

          • Eu não fiz uma comparação entre o tráfico de escravos e o comércio de açúcar. Eu os relacionei. Assim como dizer que o consumo de chocolate da Nestlé está relacionado ao trabalho escravo infantil não é o mesmo que comparar o contrabando de crianças com o consumo de chocolate. Nós não podemos isentar os contrabandistas de crianças do seu ato com o argumento de que eles “só estão atendendo à demanda da Nestlé por cacau”. São tão culpados quanto a Nestlé.

          • Por essa lógica o traficante de mulheres é inimputável por ser somente uma engrenagem do mercado de exploração sexual.

  • É curioso observar como os “relativizadores” do racismo e suas origens e consequências no presente, como os comentários de André Araújo e Daniel, na busca de relativizar , atenuar ou pior negar o caráter singular e especialmente perverso do tráfico Atlântico não hesitam em sofismar e falsificar a história. Principalmente, desconsideram que o “racismo é um sistema ideológico duro”. Para sustentar uma prática de escravidão que “objetificava” e desumanizava completamente negros africanos e seus descendentes era preciso um componente ideológico muito bem acabado que convencesse a todos, brancos e negros, que aquela forma de escravidão era legítima, natural e indelével. Comparar um comércio estrutura de quase 4 séculos nas Américas, portuguesa em especial, com literalmente meia dúzia de “senhores” de escravos negros é como querer justificar ou atenuar um genocídio porque o outro, por exemplo, matou um cidadão ou membro de um grupo rival. Mas para além disso, a própria existência de meia dúzia de senhores negros de escravos no Brasil só reforça o sistema ideológico perverso que não permitia saída fora da objetificação do negro. Ou seja, o máximo que um negro liberto poderia almejar naquela sociedade era ser dono de escravos, valor per si de dignidade social (ou de alguma, da possível no caso de negros) Pior do que isso somente o sujeito achar que ações afirmativas são uma coisa personalista e, assim , se por um remotíssimo acaso um sujeito fosse descendente de senhor negro e participasse de um sistema de quotas estaria se cometendo uma injustiça, como se o fato se ser descendente desse senhor negro mudasse alguma coisa no racismo que ele, sujeito do presente,tendo características fenotípicas negras, sofre diariamente.
    O livro do Narloch não é só um erro de hermenêutica, é uma tentativa explícita e deliberada de negar as consequências diretas do sistema ideológico do racismo na vida cotidiana hoje em todas as esferas da mesma, que vai desde padrões de beleza ao encarceramento sistemático ( a presunção da culpa) e extermínio policial, ao mesmo tempo que busca negar a condição privilegiada a priori de qualquer indivíduo branco na sociedade brasileira ( mesmo quando pobre) e claro livrar a consciência daqueles que são os principais beneficiados dessa “ideologia” excludente e perversa.

    • Acredito que a relativização não esteja sendo feita pelos defensores do Narloch e sim por quem afirma que cada tipo de escravidão é uma escravidão diferente. O Narloch apresenta a história de forma naturalista e darwinista onde quem tinha o poder de exercer o poder exercia subjulgando o adversário e tratando-o como sua propriedade. A escravidão é tratada de forma absoluta, sendo a apropriação de uma vida por outro.
      Gosto muito dos textos do Felipe a na maioria dos casos acho a argumentação muito bem construida, mas neste texto a argumentaçao inteira é carregada de valores particulares que ele aplica a cada tipo de escravidão, julgando o peso de cada uma, qual era pior qual era melhor.
      Prefiro uma versão não maniqueista da história onde todos são mostrados como seres humanos lutando pela sobrevivencia e pelo poder em seus respectivos contextos históricos ao invés de uma versão de bons/maus e heróis/vítimas.

      • Me aponte onde, no texto, está a hierarquização dos tipos de escravidão, ou o uso do termo melhor.

        Dica: não vai achar.

        A escravidão não é “de forma absoluta”, pensar assim é um erro pueril. Não é pq o produto final é igual que duas equações também o serão.

        O ponto é justamente apontar que são contextos totalmente diferentes que não podem ser comparados. Sugiro reler o texto. E sim, são contextos diferentes; afinal, você mesmo disse que prefere os “respectivos contextos históricos”

        De resto, o comentário é carregado de inferências externas e, veja só, exatamente uma versão maniqueísta, dividida entre “defensores” e “detratores” de um autor.

        • Olá, Felipe. Fico contente com a rápida resposta: Não existe o uso do termo explicito mas implicito. Fica mais evidente no seguinte parágrafo

          “Finalizando essa História resumida da escravidão antiga, então, o que tornaria o comércio africano promovido por Portugal, até esse momento (início do século XVI), raiz de algo mais abominável? Que estará na origem dos problemas contemporâneos? O português une um costume antigo da escravidão (primeiro fator), sob uma justificativa econômica (segundo fator), amparada pelo costume do Direito (terceiro fator) e adiciona um componente étnico (quarto fator). Tal componente étnico eclipsará todos os outros, como veremos em seguida, e impede quaisquer comparações do tráfico atlântico com o escravismo anterior.“

          Na conclusão do texto a aparente demonstração é de que a escravidão portuguesa foi sim mais abominável e eclipsa todas as outras por inserir no contexto da escravidão o racismo.

          A falta de contexto que apontei reside no fato de como historiador voce condenar uma sociedade antiga pelas lentes contemporaneas e reconhecer a existencia de uma dívida histórica da sociedade atual pelos erros da passada (julgadas, repito, no presente).

          Tudo isso ao meu ver são claras demonstraçoes de julgamento de sua parte condenando uns (os brancos escravocratas) e absolvendo outros (Possuidores de escravos diversos) que estão dispensados de uma pesada dívida histórica.

          • Se é “implícito”, é exatamente o que eu disse: uma inferência sua. O “algo mais abominável” do trecho que é citado no trecho colado é uma sociedade racial, o racismo colocado na conclusão do texto.

            Esse racismo causado por uma forma particular de escravidão, a racial e mercantil, que é diferente, em motivos e bases ideológicas, da escravidão antiga.

            Sobre o meu suposto anacronismo, não procede, justamente por estar colocando as coisas em seus devidos contextos para uma discussão atual; justamente a função da História.

            Sobre a questão da dívida histórica, não se trata de “sociedades passadas”, mas da mesma sociedade. A atual República Federativa do Brasil é herdeira jurídica e Estado sucessor do Império do Brasil, Estado que possuia leis justificando a escravidão. Essa continuidade jurídica é inclusive base de alguns argumentos do julgamento no STF que aprovou, unanimamente, cotas raciais em universidades federais, tema já coberto aqui no site também.

            Sobre seu último parágrafo, habitualmente as acusações de julgamento vêm de quem os está fazendo. As situações de possuidores de escravos são diversas, com uma origem Atlântica particular, e casos de exceção não mudam a regra e a estrutura social.

  • Olá Filipe, tudo bem? Cheguei a esse texto através de um vídeo recente no Youtube e, pela diferença entre a data da publicação e dos comentários, acho que não fui o único.

    Ótimo texto. Didático, bem escrito e esclarecedor. Mas você não acha que a explicação do porque príncipes e outros lideres de tribos e reinos africanos negociavam escravos deveriam estar no corpo do texto? Me parece uma informação crucial que só foi citada nos comentários.

    Obrigado!

  • Olá
    Entendi o que você quis dizer no texto, mas tenho uma dúvida:

    O racismo surgiu como uma “justificativa” para a escravidão dos africanos. Mas os povos da antiguidade que escravizavam outros povos, de outras etnias, não viam seus escravos como inferiores, com os mesmos pensamentos racistas e preconceituosos dos portugueses e brasileiro, por exemplo? Afinal, se Aristóteles defendia a escravidão de todo não falante de grego é porque ele os considerava inferiores de alguma forma.

    Obrigado

  • A frase final, “A escravidão do negro pelo Atlântico cria o racismo”, é uma síntese brilhante. É praticamente impossível discordar dela. Mas acredito, como outros leitores, que os conflitos étnicos africanos são os responsáveis primeiros pela escravidão. A sua transformação em comércio de mão de obra certamente teve o efeito de criar este racismo odioso, mas é preciso observar que os negros vendidos como escravos às Américas teriam, no continente africano apenas dois destinos prováveis: a escravidão ou a morte. Na verdade, em parte da África, como Ruanda na década de 1990 e contemporaneamente no Sudão do Sul e Norte da Nigéria até hoje assistimos esta face cruel da realidade. Isto não diminui em nada as dores da escravidão e o racismo contra o negro que dela derivou, apenas contextualiza. Parabéns pelo artigo.

  • O importante não é análise histórica, mas a função do professor de história nisto tudo. Eu não deixei as coisas no ar, eu deixei para se pensar.

  • https://en.m.wikipedia.org/wiki/Arab_slave_trade

    Vale a leitura para poder analisar se realmente a escravidão mercantil foi inaugurada na época das grandes navegações com o tráfico pelo Atlântico ou se isso já era praxe no continente africano por séculos, apenas com outra rota.

    • Esprimas, curiosamente, o artigo que você postou corrobora e complementa o que eu escrevi. Vamos lá, pegando alguns trechos.

      Mostra que o comércio de escravos no mundo árabe não possuia um componente étnico racial definido, com a escravização de negros, brancos da Europa ocidental (citamos isso em um podcast recente), brancos da Europa Oriental e do Cáucaso e também orientais.

      “Besides Javanese and Chinese girls brought in from the Far East, “red” (non-black) Ethiopian young females were among the most valued concubines. The most beautiful ones often enjoyed a wealthy lifestyle, and became mistresses of the elite or even mothers to rulers”

      Mostra que o principal meio de obtenção de escravos eram as conquistas militares e captura direta, e não a atividade mercantil característica do mercado Atlântico, ou a perpetuação de escravidão por prole.

      “Domestic slavery was not as common as military slavery”

      “The North African slave markets traded also in European slaves. The European slaves were acquired by Barbary pirates in slave raids on ships and by raids on coastal towns from Italy to Spain, Portugal, France, England, the Netherlands, and as far afield as Iceland. Men, women, and children were captured, to such a devastating extent that vast numbers of sea coast towns were abandoned.”

      “In 1609, the Portuguese missionary João dos Santos reported that one such group had a “custome to sew up their females, especially their slaves being young to make them unable for conception, which makes these slaves sell dearer, both for their chastitie, and for better confidence which their masters put in them.”

      Mostra também que essa escravidão por conquista era baseada em princípios religiosos, não étnicos ou econômicos, já que uma população que não cumprisse suas obrigações era vista como passível de ser escravizada. Ou seja, ela não era escravizada apenas pelo lucro decorrente de sua venda.

      “The “Oriental” or “Arab” slave trade is sometimes called[according to whom?] the “Islamic” slave trade,[citation needed] but Patrick Manning states that a religious imperative was not the driver of the slavery. However, if a non-Muslim population refuses to pay the jizya protection/subjugation tax, that population is considered to be at war with the Muslim “ummah” (nation), and it becomes legal under Islamic law to take slaves from that non-Muslim population.”

      “Islamic Sharia law allowed slavery but prohibited slavery involving other preexisting Muslims; as a result, the main target for slavery were the people who lived in the frontier areas of Islam in Africa.[80] The conquests of the Arab armies and the expansion of the Islamic state that followed have always resulted in the capture of war prisoners who were subsequently set free or turned into slaves or Raqeeq (رقيق) and servants rather than taken as prisoners as was the Islamic tradition in wars”

      Também cita a concepção aristótelica, da escravidão antiga, ao modelo árabe, diferente do modelo Atlântico

      “Ethnic prejudices developed among Arabs for at least two reasons: 1) their extensive conquests and slave trade;[85] and 2) the influence of Aristotle’s idea of final causes which argues that slaves are slaves by nature.”

      E também coloca que o racismo é um fruto da escravidão, mesmo entre diferentes etnias negras

      “The Italian colonial administration abolished slavery in Somalia at the turn of the 20th century. Some Bantu groups, however, remained enslaved well until the 1930s, and continued to be despised and discriminated against by large parts of Somali society”

      São apenas algumas citações, mas leia o artigo por inteiro e verá elas em seus devidos contextos e também outros exemplos. Um abraço

  • Uma dúvida, poderia me informar que princípio bíblico é esse que diz que negros são amaldiçoados?

  • Olá, Filipe! O seu texto está muito bem escrito e, realmente, aborda questões primordiais para pararmos de comparar a escravidão antiga com a contemporânea.
    Eu estudo Roma e gostaria de deixar alguns questionamentos pra você:

    “Um dos motivos do declínio romano foi a crise econômica derivada da falta de mão de obra escrava, já que o tempo das grandes expedições militares (maiores responsáveis pelo fornecimento de escravos; Júlio César vendeu toda a população gaulesa sobrevivente) havia passado”

    Fiquei um pouco confusa com esse trecho, pois após Júlio César, temos Augusto com o saque ao Egito (que gerou uma riqueza absurda à Roma), Trajano como um dos maiores generais e a própria época antonina que foi uma das épocas de melhor administração romana (evidenciada por Antonino Pio mas que se declinou com Cômodo). Lembrando que Júlio César está numa época de transição entre República e Império.

    “Outras demonstrações de como a escravidão costumeira antiga não é um parâmetro válido são o caráter perpétuo da escravidão nos Impérios português e brasileiro, que contrasta com, por exemplo, a possibilidade de um escravo romano reconquistar até sua cidadania”

    Nesse trecho, você diz que o escravo podia reconquistar sua cidadania. Pelo que eu saiba, o escravo poderia ser um liberto, mas somente seu filho poderia ser um cidadão e conquistar o mos maiorum. Você pode me dar o recorte temporal de onde provém essa sua informação?

    Por último, gostaria de deixar uma dica que enriqueceria seu texto. Na Antiguidade Tardia, temos o exemplo da Santa Melânia, que convertida ao cristianismo, decidiu libertar todos os seus escravos, o que causou muitas revoltas entre eles – já que, segundo Géza Alfoldy na História Social de Roma, o escravo estava acima dos lumpemproletariat.

    Aguardo sua resposta.

    Abraços!

  • ALEXANDRE ALVES PEREIRA

    E quando um senhor, fazia filhos em sua escrava, que mesmo nascendo brancos eram tidos como escravos?
    Escrava Isaura, Chica da Silva são romances que mostram uma realidade em que a escravidão era mais do que uma questão étnica.

  • ALEXANDRE ALVES PEREIRA

    E quando um senhor, fazia filhos em sua escrava, cujos filhos, que mesmo nascendo brancos eram tidos como escravos?
    Escrava Isaura, Chica da Silva são romances que mostram uma realidade em que a escravidão era mais do que uma questão étnica.

    • Olá Alexandre, permita-se responder essa questão. (Filipe, por favor corrija-me se eu estiver errado).
      Quando se fala em questões étnicas estamos falando não só da COR DA PELE, mas também dá própria descendência de um determinado povo. Um filho de um negro, mesmo que nascesse com pele branca era considerado “impuro”, não de cor, mas também de sangue e “alma” ou “espirito” (no próprio texto mostra como eram considerados “amaldiçoados”). Por isso Chica da Silva seria considerada uma negra e seria escrava, mesmo que tivesse pele branca. Logo, mesmo que houvesse outras questões que influenciassem a prática escravagista, o etnocentrismo com certeza foi a de maior relevância e até hoje a que mais demonstra mais sequelas a nossa sociedade atual.

  • boa tarde!obrigada pelo texto me ajudou na minha crítica,parabéns.

  • ” Considerando que o Direito Romano foi a base para o Direito moderno, e também para o Direito contemporâneo, tais mecanismos de escravização de um indivíduo permaneceram; o terceiro fator de importância.”

    MITO

    Não havia a figura do sujeito de direito em Roma por razões especificadas por Bilharinho Naves

  • “Comparar eventos históricos apenas pelo seu resultado (a escravização de um indivíduo), desconsiderando as diferenças de motivos”

    Convença-me de que os motivos por detrás das ações são mais importantes do que os resultados de tais ações.

    A intenção vale mais do que o ato?
    A motivação vale mais do que a consequência?

    Aqui estou propondo uma discussão filosófica.
    Odeio o Narloch e concordo com a maior parte do seu texto, mas gostaria que você justificasse essa sua afirmação.
    O que tem mais relevância em relação ao entendimento das ações humanas. O resultado dessas ações ou a intenção por detrás das mesmas.

    Intenção -> ato-> consequência

    O que tem mais relevância de um ponto de vista social, epistemológico, jurídico, etc??

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