Xadrez Dominical – Guerra Soviética no Afeganistão

Caros leitores,

Ontem, dia 15 de Fevereiro, foi o aniversário de vinte e cinco anos do fim da Guerra Soviética no Afeganistão, conflitou que durou mais de nove anos, em região que está em quase permanente conflito desde o século XIX, e deixou mais de um milhão de mortos e cerca de cinco milhões de refugiados. Batizada de “Vietnã soviético”, pelos protestos que gerou em descontentamento ao número de mortos, o a guerra contribuiu para o final da União Soviética e para o cenário interno ao Afeganistão nas décadas seguintes, como o final da república afegã, a ascensão do radicalismo talibã e a consequente intervenção ocidental. Por conta desse aniversário e da importância do evento na História, o Xadrez Dominical de hoje é sobre a Guerra Soviética no Afeganistão.

Afghan GirlA foto acima (que está em altíssima resolução e pode ser baixada, retirada do site deviantart.net) é uma das imagens mais conhecidas do século XX, e a imagem da guerra. Em 1984, o fotógrafo Steve McCurry imortalizou os olhos assombrados de uma refugiada afegã de 12 anos de idade, em um acampamento de refugiados na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. A fotografia, publicada pela primeira vez na capa de uma National Geographic, em 1985, se tornou um símbolo do sofrimento dos refugiados. Por 17 anos o fotógrafo tentou reencontrar a misteriosa “menina afegã” (chamada Sharbat Gula). Em 2002, ele conseguiu.

Documentários. Recomendo a trilogia do diretor Jeff B. Harmon. AFGAN: The Soviet Experience trata dos soldados soviéticos, suas experiências e traumas na guerra; JIHAD: Afghanistan’s Holy War, filmado em situações perigosas, mostra o lado dos mujahidin (pronuncia-se mújárridín), que significa algo como “guerreiros da Jihad”, a guerra santa islâmica. São os diversos grupos islâmicos que lutavam por um Afeganistão como um Estado islâmico e contra a presença estrangeira dos soviéticos. Existiam dois grandes grupos, os Sete de Peshawar, sunitas, apoiados por Paquistão e EUA, e os Oito de Teerã, grupos de etnia hazara apoiados pelo Irã. Finalmente, Warlord of Kayan trata dos grupos nacionalistas afegãos, que não queriam nem um governo comunista submetido à URSS, nem um país tribal islamita; posteriormente, tais grupos se tornariam a Aliança do Norte, inimiga do Talibã, e teria em Ahmad Shah Massoud seu principal líder. Ou seja, é uma série de documentários que aborda todas as perspectivas envolvidas localmente.

Filmes. Considerado o melhor filme sobre a Guerra Soviética no Afeganistão, Afghan Breakdown nunca foi lançado no Brasil; produção ítalo-soviética, acompanha a história de um coronel dos paraquedistas soviéticos, que se tornaram símbolo dos soldados russos no país (assim como os soldados dos EUA da infantaria aerotransportada em helicópteros se tornaram a imagem da Guerra do Vietnã). A Fera da Guerra é bastante recomendado por um amigo (infelizmente, ainda não assisti). Dirigido por Kevin Reynolds, trata da tripulação soviética de um tanque que fica perdida no meio do Afeganistão, entre o conflito.

Recente sucesso de bilheteria e comparado à Platoon (as comparações com a Guerra do Vietnã são extremamente constantes), 9º Pelotão (deveria ser 9ª Companhia) é um drama de guerra, com várias cenas de ação, baseado na história real das ações na Colina 3234. Acompanha a vida de garotos que nunca tinham saído de suas vilas e se encontram no deserto afegão. Eu recomendo bastante. O filme é facilmente encontrado e o áudio original é russo.

Finalmente, não custa citar a ironia de Rambo III. O filme é uma tradicional sequência do Rambo original: tiros, explosões e frases de efeito. Não espere muito. A ironia é que Rambo, um símbolo da cultura hollywoodiana, no filme, auxilia os mujahidin em sua luta contra os soviéticos. O filme termina inclusive com um memorial ao valente povo afegão; não custa lembrar que esses mesmo mujahidin serão, anos depois, os inimigos mortais dos EUA.

Livros. Existem dois romances de grandes escritores de livros de espionagem e thrillers que se passam no Afeganistão dos anos 1980. O Cardeal do Kremlin, de Tom Clancy, é um dos livros da série do personagem Jack Ryan, e quase virou filme com Harrison Ford (que viveu o personagem em Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato). Temos também Na Toca do Leão, de Ken Follet, que virou minissérie com Timothy Dalton (que interpretou James Bond em dois filmes). Infelizmente, ambos os livros não são atualmente editados no Brasil. Finalmente, O Fotógrafo, graphic novel em três volumes, de Emmanuel Guibert e Didier Lefèvre, sobre a viagem do fotojornalista Lefèvre ao Afeganistão em 1986. A obra ganhou diversos prêmios e é publicada no Brasil pela Conrad.

A guerra também influenciou alguns aspectos mais tradicionais da cultura afegã, como a tapeçaria. Surgiram tapetes com bordados e motivos bélicos, ou contando histórias de mortos, de pessoas, etc. Existe um blog sobre o assunto, e você também pode ver fotos da exposição “Campo de batalha: tapetes de guerra do Afeganistão”. Finalmente, existem diversos monumentos e memoriais na Rússia e em países da antiga União Soviética que podem ser visitados, além de espaços dedicados em museus. Cerca de quinze mil soldados soviéticos morreram na guerra, além de mais de cinquenta mil feridos. Tais monumentos são muito contrastantes em relação aos tradicionais monumentos de guerra, pois não são soberbos ou glorificantes, mas trazem sempre poses de soldados ou civis em lamento.

Topo, esquerda: Memorial às viúvas da guerra, Minsk, capital da Bielorrússia.  Topo, direita, memorial aos soldados em Moscou, Rússia.  Embaixo, memoriais aos soldados mortos em São Petersburgo (esq.) e em  Yekaterimburgo (dir.).

Topo, esquerda: Memorial às viúvas da guerra, Minsk, capital da Bielorrússia.
Topo, direita, memorial aos soldados em Moscou, Rússia.
Embaixo, memoriais aos soldados mortos em São Petersburgo (esq.) e em Yekaterimburgo (dir.).

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