Racismo no sexo e os ânimos inflamados

Caros leitores,

Caso não tenha lido, leia o texto de ontem, chamado Sexo com mulheres negras e submissas. O texto de hoje é uma continuação dele, seja sobre o tema do racismo, seja sobre a discussão de temas como esse na internet, que acirram os ânimos, levam a comentários inflamados, desnecessários, desconexos ou até mesmo ofensivos. Além disso, darei alguns recados sobre o funcionamento do blog em situações como essa. O post de ontem foi, dentre outras coisas, de longe o mais comentado da ainda curta história desse blog. Somadas as respostas do blog e até o momento que escrevo este texto, foram cinquenta comentários aqui no site, além de diversos outros comentários no Facebook, seja em perfis de pessoas que compartilharam o texto, seja em posts em grupos de discussão. Destaco dois comentários, que foram muito construtivos.

Um foi feito aqui mesmo no blog, pelo leitor Godinho, um cara muito querido por todos que o conhecem e celebridade acadêmica e da internet. O comentário contribuiu para diferenciar o publico e o privado no que concerne ao tema do texto, além de deixar claro que não é uma postura moralista; adaptarei. Existe uma distância entre, por um lado, as fantasias e sua realização e, por outro, a propagação de imagens a respeito disso. Não há nada de errado em duas ou mais pessoas adultas consensualmente adotarem papéis de domínio e submissão, mesmo que relacionados à inter-racialidade, por terem essa fantasia. Este tipo de fantasia funciona, afinal, como jogo e encenação, com regras e espaço delimitados e conhecidos por todos os envolvidos (se não for assim, está tudo errado).

Porém, é preciso muito cuidado ao tratar disso fora do espaço e das regras de quem está consensualmente praticando a fantasia, pois a imagem (seja foto, desenho, vídeo, etc.) não costuma carregar consigo todos os limites e implicações. Com isso, acaba por reproduzir quase sempre o machismo e, em muitos casos, o racismo. Pela mesma razão pode ser menos problemática a pornografia feita para o público BDSM (ou pelo menos boa parte dela) do que a pornografia convencional, pois no primeiro caso o caráter de jogo e encenação é explícito e no segundo a imagem de submissão feminina é naturalizada e estereotipada. É como se as mulheres submissas e idiotizadas e os homens dominadores fossem um retrato de como são e de como devem ser as relações sexuais entre mulheres e homens. No caso do racismo, é como o texto disse: é apresentar a mulher negra submissa como estereótipo e modelo de conduta. Retomo; a falta de contexto que separa o íntimo de algo divulgado abertamente e a representação, implícita ou explícita, que reproduz uma estrutura racista, necessitam ser discutidas.

Trote da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. As referências são claras, e deploráveis, inclusive ao erotismo da personagem Xica da Silva.

Trote da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. As referências são claras, e deploráveis, inclusive ao erotismo da personagem Xica da Silva.

Outro comentário foi feito no Facebook, por uma leitora chamada Gabriela. Como o comentário não foi publicado aqui no blog e não tenho a autorização dela, citei apenas o primeiro nome. Foi um comentário crítico ao texto, e construtivo. Novamente, adapto. Nessa vontade (legítima) de fazer do mundo em que todos nós vivemos algo melhor, beiramos a repressão. Como o autor disse, o mesmo valeria para ruivas e loiras, a questão “inter-racial”. Achei que ele misturou um pouco o sadomasoquismo, racismo e fetiche por mulheres negras. O texto é muito bom, mas pra mim comete um erro presente em muitas políticas contra racismo: pega um ponto que tem tantas questões abstratas que se desmembra em uma rede em que todos os argumentos são válidos e reprime outros grupos menores.

Por exemplo, caso imagens masoquistas ou de submissão da mulher consentida (mesmo sendo uma parcela pequena que não represente milhões) comecem a ser banidas por incitarem a violência, em pouco tempo teremos um preconceito generalizado por este tipo de prática, pois sairá do “comum”. Pra mim, a melhor forma de garantir que todos tenham espaço para ser o que quiserem, é reforçar imagens positivas. Sempre terá uma fatia de perda, aquele que irá ignorar a imagem positiva, que é um racista machista, e imprimirá na sua mente apenas o lado negativo. Mas esses se tornarão, com o tempo, uma minoria a ser ignorada. Retomo; a sugestão de imagens positivas é extremamente válida. Não apenas criticar o que está errado ou deslocado, mas também sugerir aspectos que subvertam a percepção equivocada. De fato é um aspecto que eu ignorei em meu texto, e a crítica, como diria certo indivíduo, agregou valor.

O que leva a uma crítica aos comentários, já que é, de certo modo, a primeira vez em que uma situação dessas surge, com tantos comentários. Não se trata de discordar ou concordar, de elogiar o autor, ou então de uma dúvida particular ou um aspecto específico do texto. Tudo isso é absolutamente normal, e bem-vindo. Repito que sempre respondo todos os comentários por aqui, mas, ao fazer um comentário crítico, embase-o. Faça uma crítica construtiva, que sugere ou que corrige um eventual erro. E que seja algo conectado ao texto! Em um texto que fala sobre tortas, você vai ler e dizer que discorda totalmente, pois o autor não falou sobre cervejas? Isso tem nome: non sequitur, não se segue, que batiza a falácia na qual a conclusão não decorre dos argumentos. Ou então a criação de espantalhos, com a vulgarização da ideia e de todas suas correlações.

O motivo de tais coisas serem feitas, muitas vezes, é a leitura desatenta ou viciada do texto. Exemplo concreto no texto de ontem? Afirmei mais de uma vez que não estava acusando ninguém e que não acreditava em eventuais más-intenções, que o texto abordava justamente o racismo implícito e inconsciente. E, mesmo assim, disseram que eu estava ou acusando, ou fazendo comentários sobre as intenções dos autores da chamada da festa. De qualquer forma, são tipos de comentários dispensáveis, e que não incentivam, ou até mesmo impedem, uma resposta. Resgato o exemplo anterior; se eu escrever um post sobre tortas, e alguém comentar dizendo que discorda e embasa sua crítica falando de cervejas, ou então, reduz o texto; se o autor argumenta sobre um assunto e, nesse assunto, dá um exemplo, o comentário apenas dá um exemplo contrário, imaginando que isso invalida todo o argumento (do qual o exemplo é apenas parte). Como o blogueiro vai responder esses comentários?

E, finalmente, as agressões. Quem me conhece pessoalmente sabe que não sou exatamente um zen-budista. Mas, desde a introdução do blog, deixei claro que o propósito do espaço é debater ideias, e a palavra escrita, que sonega a entonação do articulador, requer um cuidado desdobrado. Então, entendo quando alguém se sente ofendido pessoalmente, quando alguém tem uma resposta emocional, mas fazer disso uma escalada de ofensas não é o propósito desse espaço. Um dos leitores do post anterior foi xingado por mais de um participante, e agradeço que ele não seguiu a troca de carinhos. Caso necessário, apagarei comentários desse tipo. O que me leva a outro recado, que também foi uma situação inédita no blog, o anonimato: aqui no Xadrez Verbal, sem anonimato. Os próximos comentários feitos de forma anônima aqui serão apagados sumariamente. Em caso de reincidência, bloqueio de IP. Espero que compreendam.

O post de hoje, além de retomar a discussão de ontem, sobre racismo e sexismo em relação às mulheres negras, demonstrando que os comentários tem, sim, muito valor e acrescentam às discussões (e, deixo claro que não estou necessariamente dizendo que todos os outros comentários não citados aqui não acrescentaram), também tem o propósito de manter essa troca de perspectivas; minhas críticas não tem por objetivo a censura ou a intimidação de comentários e leitores, ao contrário, almejo a melhoria dos comentários e um intercâmbio ainda maior entre o blog e os leitores. Além disso, reafirmar, ou explicitar, algumas regras básicas para o espaço, que está crescendo graças a vocês, tanto os que elogiam os textos, quanto os leitores silenciosos, quanto os críticos. A melhoria dos textos e do autor está ligada diretamente a uma boa comunicação com os leitores, se a excelência é almejada.

Encerro com uma frase do ator Samuel L. Jackson, que acredito casar bem com o propósito dos textos de ontem e de hoje, que é discutir o racismo inconsciente e muitas vezes involuntário que é bombardeado e alardeado todo dia, como se inocente fosse: “As pessoas sabem sobre a Klan (Klu Klux Klan) e o racismo explícito, mas o assassinato da alma, pouco a pouco, dia após dia, é muito pior do que alguém que chega à sua casa e te lincha”.

*****

Como sempre, comentários são bem-vindos. Por conta do feriado, amanhã não será publicado post novo aqui, volto com o Xadrez Dominical.

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6 Comentários

  • De nada.

    Eu acho que pra quem se julga tão intelectualmente superior, responder às minhas argumentações daquela maneira mostra que falta um pouquinho de raciocínio.
    Não respondi com “carinhos” porque acho que devemos respeito a você, que é dono do blog, e também aos outros leitores.

    Como comentei agora há pouco no outro post, ninguém que me xingou tentou argumentar. Eu estou aberto a ouví-los e talvez, quem sabe, mudar de opinião, porque não? Não podemos nos fechar às outras opiniões, a outros pontos de vista. É sendo aberto ao debate e aberto a novas argumentações que evoluímos. O post passado foi um exemplo de como estas pessoas não tinham argumentos ou não queriam argumentar, mas simplesmente impor a opinião delas através de xingamentos. Lamentável.

    – Lamentável alguém comentar e não colocar o próprio nome. Eu tenho opinião e posto com a minha foto ali. Assumo tudo o que digo.
    – Lamentável o Rafael Zanattonatto citar meu comentário como “bosta” mas entender que pela foto ser de uma mulher preta o autor é um homem branco, não um índio ou um japonês, por exemplo. Isso não seria preconceito? Pressupor que, já que é um preto sendo inferiorizado (na visão dele), o autor é um branco?
    – Lamentável a Carolina Candido entitular meu comentário como ridículo mas não iniciar um debate sobre a contemplação das cotas a pretos, exposta por mim no meu comentário como privilégio e ela distorcer isso.

    Se estas pessoas citadas acima são tão intelectualizadas, porque não tentar explicar como elas pensam pra alguém que pensa diferente? Falta de capacidade? Falta de argumentos? Existe algum problema em debater? Eu estou aberto a escutar os argumentos de vocês e, se convencido de que estou errado, peço desculpas a todos pela minha posição. Fica o convite.

    Enfim, meu velho, obrigado. Depois faço uma pizza integral de berinjela pra você corromper seus princípios.

    Bêjo

  • Essa divisão tão radical e rápido do público e privado do começo desse texto me incomodou um pouco. Afinal, o “pessoal é político” é uma bandeira histórica do feminismo. Claro, tudo isso precisa ser bem pensado. Entendo seu argumento, acho, no geral, válido. Mas só fico pensando se a submissão no mundo, digamos “público”, não se reproduz no “privado” travestida de outra coisa. Enfim, só penso que há de se matizar essa fixidez de fronteiras entre o público e o privado…

    • Cara Camila, devido minha ignorância de certos aspectos sobre o feminismo, não sei comentar sua observação; mas, sem dúvidas, ela foi muito construtiva e eu agradeço, talvez seja tema de um texto vindouro.

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