Assembleia Geral da ONU – O dia que poderia ter sido

Caros leitores,

Continuando a análise do Debate da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, que tomou o blog (e esse blogueiro) praticamente por inteiro nos últimos dias, e ainda ocupará bastante espaço nos próximos dias, vamos ao quarto dia, 27 de Setembro. Você pode ler os outros posts apenas rolando a página do blog, ou acessando o resumo da semana aqui embaixo, ou procurando a tag ONU, na nuvem localizada na barra da página inicial.

Assembleia Geral da ONU.  Foto: Site da missão afegã na ONU

Assembleia Geral da ONU.
Foto: Site da missão afegã na ONU

Infelizmente, o que poderia ser um dia cheio e movimentado, passou ligeiramente despercebido, essencialmente pela ausência de chefes de estado em alguns dos discursos que poderiam ser mais interessantes e nos pronunciamentos de países membros-permanentes do Conselho de Segurança. Quem falou pela China foi seu Ministro de Relações Exteriores, Wang Yi. Em um discurso bastante economicista, Yi citou as reformas que a China irá colocar em prática, e demonstrou alguns valores absolutos assustadores.

Gostaria de destacar duas observações políticas, porém. A primeira é, ao lembrar que, quase 40 anos atrás, o líder chinês Deng Xiaoping declarou no púlpito da ONU que o país nunca iria buscar a hegemonia no mundo: “Hoje, a sua declaração continua sendo o nosso compromisso imutável e convicção”; isso lembra bastante o discurso de “potência satisfeita” de Otto v. Bismarck, chanceler da Prússia e mentor da unificação alemã. Em outras palavras, a China se concentraria em seu desenvolvimento interno, em sua já enorme economia, e continuaria a manter um papel não-ostensivo na geopolítica.

A segunda observação é que China gostaria de desempenhar um papel mais pró-ativo e construtivo na abordagem de questões globais e focos de problemas regionais, e aumentar a participação nas operações de Força de Paz das Nações Unidas e contribuir mais para a paz e a segurança “na África e outras regiões”. Não custa lembrar que recentemente a China fez sua primeira operação militar fora de suas águas, expande sua influência pelo Oceano Índico e que a presença de seus investimentos na África cresce ano após ano; ou seja, embora o discurso seja apaziguador, na realidade, está impulsionada uma mudança de perfil, e uma postura ostensiva da China, o que certamente pode causar atritos, seja na África, seja nos focos de problemas regionais históricos, como a ilha de Taipei e a península coreana.

O chanceler Sergey Lavrov foi quem falou pela Rússia. Tirando uma alfinetada nos EUA, ao afirmar que ameaças de uso de força militar para suprir “demanda de liderança” são inaceitáveis, Lavrov não falou nada de interessante; digo, nada que já não tenha sido tratado aqui no Xadrez Verbal; citou até a coluna de Putin no New York Times. Então, caso queira recapitular as posições russas sobre terrorismo, Oriente Médio e, especialmente, Síria, obviamente o tema principal do discurso, use as ferramentas de busca do blog, não precisa ler o discurso.

Outros três que cito rapidamente são Nicholas Clegg, Deputy Prime Minister (espécie de Vice-Primeiro Ministro) do Reino Unido, que fez um discurso seguindo o raciocínio liberal que tradicionalmente rege a política externa do país. Resumindo para o leitor que desconhece, basicamente dita que a pobreza ameaça a democracia que ameaça a estabilidade; ou seja, a maneira de garantir a segurança de uma região é pelo fortalecimento da democracia, que passa pelo fortalecimento da economia, com investimento estrangeiro. Obviamente, isso é teoria, nem sempre aplicado na prática, de acordo com conveniências.

Finalmente, Elías J. Jaua Milano, Ministro das Relações Exteriores da Venezuela, e seu equivalente sudanês, Ali Ahmed Karti, abordaram, dentre outros assuntos de seus respectivos discursos, o mesmo problema, que não-raro volta ao debate: a ausência de governantes por problemas com os EUA, ou falta de cooperação do governo local, já que a Assembleia Geral fica em Nova Iorque, e seu acesso requer os trâmites burocráticos dos EUA. Esse é um assunto polêmico, pois, segundo a Carta da ONU, pessoas devem ter garantido seu direito ao trânsito para participar da Assembleia, mas em alguns casos pontuais houve resistência do governo dos EUA; inclusive, existe uma antiga proposta de deslocar a AGNU para a Suiça, onde estão outras organizações da ONU, país reconhecido por sua “neutralidade”.

Nos dois casos citados aqui, entretanto, há uma diferença muito grande. A postura de Maduro, Presidente da Venezuela, decorre mais de um atrito político e de provocações (mais da metade do discurso venezuelano foi de críticas aos EUA), e é basicamente uma escolha própria. O caso de Omar al-Bashir, Presidente do Sudão, é bem pior. Ele é acusado formalmente pela Corte Criminal Internacional por genocídio e crimes de humanidade em Darfur, e tem um mandado de prisão em seu nome; ou seja, ao por o pé nos EUA, poderia ser preso; ao contrário do que foi dito, sua ausência não é decorrente de falta de cooperação dos EUA, o que de fato já ocorreu, mas sim decorrente de seu envolvimento em atos abomináveis e de sua covardia.

Infelizmente, poderemos apenas especular como teria sido esse dia com a presença de David Cameron, Vladimir Putin e outros. Espero que tenham gostado e chequem mais tarde para um post sobre sábado, dia 28 de Setembro.

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Para ficar informado, você pode checar a programação do debate no site da 68ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.

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