Síria Parte 1 – O interesse da Rússia

Caros leitores

Nos próximos dias, escreverei algumas bobagens sobre a situação na Síria, alternando com textos sobre a política nacional (já faz um tempo que não escrevo sobre nosso amado Congresso Nacional).

Muita gente questiona, não entende ou condena o envolvimento russo no conflito sírio. O Presidente russo, Vladimir Putin, afirmou diversas vezes que, até o surgimento de provas irrefutáveis sobre o envolvimento do governo local no uso de armas químicas, não apoiará uma ação militar, e usou o “poder de veto” russo no Conselho de Segurança da ONU para manter essa posição, e até fez uma demonstração de força local. Mas, por que a Rússia toma essa postura?

Assad e Putin em 2006  Foto: AP/RIA Novosti, Mikhail Klimentyev

Assad e Putin em 2006
Foto: AP/RIA Novosti, Mikhail Klimentyev

Primeiro, a Rússia tem uma tradição de raramente permitir intervenções em conflitos internos, como guerras civis. É a maior defensora internacional do Kosovo não ser reconhecido como país independente, mas como parte da Sérvia. Isso é explicado pelo fato da Federação Russa ser composta por 83 repúblicas autônomas; ao não apoiar a intervenção em outros conflitos internos, a Rússia evita criar um precedente que tornaria legítima uma intervenção em um conflito dentro de seu território. Exemplos recentes de guerras dentro das fronteiras russas são as guerras na Chechênia e na Ossétia do Sul, ambas localizadas na região estratégica do Cáucaso.

Falando em Cáucaso, a região sempre foi importante foco geopolítico, desde o século XIX. Por ser uma região rica em recursos minerais, e geopoliticamente essencial, como ligação entre Rússia e Oriente Médio, o governo russo, desde meados de 1990, tenta manter firme sua posição no local. Desde 2008, quando a Geórgia declarou abertamente que negociava a sua entrada na OTAN, a Rússia contempla a possibilidade de ser “fechada” na região. A política externa dos últimos anos, de Putin e Medvedev, considerada afirmativa dos interesses russos, é uma reação à expansão da OTAN. Veja a comparação nos mapas abaixo (desculpem pela arte não muito elaborada).

Situação após o fim da Guerra Fria. Em azul escuro, países da Otan. Azul claro, países que negociam entrada na Otan. Vermelho e verde, Rússia e Síria, respectivamente.

Situação após o fim da Guerra Fria. Em azul escuro, países da Otan. Azul claro, países que negociam entrada na Otan. Vermelho e verde, Rússia e Síria, respectivamente.

Em azul escuro, países da Otan. Azul claro, países que negociam entrada na Otan. Vermelho e verde, Rússia e Síria, respectivamente.

Situação atual. Em azul escuro, países da Otan. Azul claro, países que negociam entrada na Otan. Vermelho e verde, Rússia e Síria, respectivamente.

Analisando os mapas, fica evidente a crescente proximidade da OTAN, motivo da preocupação russa. Obviamente, não estamos mais na Guerra Fria, e a OTAN já não é mais uma “aliança anti-comunista” ou contra a Rússia especificamente. Mas o próprio Putin já afirmou que, “quando a maior aliança militar do planeta se aproxima de suas fronteiras, você precisa tomar providências”. Por isso, manter um aliado de longa data (as relações Rússia-Síria são estreitas desde o final dos anos 1960) no Oriente Médio permitiria à Rússia “contornar” esse cordão da OTAN. Um exemplo concreto disso é a base naval de Tartus, cedida pela Síria à Rússia em 1971 e, atualmente, a única base naval russa fora de território ex-soviético. Mesmo sendo uma base obsoleta (os maiores navios russos não conseguem atracar lá, e uma ampliação era cogitada antes da guerra) e ter sido supostamente evacuada, ainda é de importância estratégica. Como os portos russos no Mar Negro poderiam ser bloqueados pela Turquia, que controla os estreitos de Bósforo e Dardanelos, um porto no Mediterrâneo permitiria operações russas de longo prazo (caso queira ver a base, no Google Maps, clique aqui).

Além de razões políticas e geopolíticas, existem, é claro, motivos econômicos. A presença russa na Síria, antes da guerra, era estipulada em quase vinte bilhões de dólares, numa relação assimétrica que garantia o superávit russo. Como país produtor de gás natural e petróleo, a Síria necessita do conhecimento russo na área, e grandes empresas como Stroitransgaz e Tatneft possuem joint-ventures com as companhias estatais sírias para construção de gasodutos e exploração de petróleo. Além disso, a Rússia tem na Síria um grande cliente no concorrido e movimentado mercado armamentista. Estima-se que a soma dos contratos entre os dois países na área de defesa gire em torno de quatro bilhões de dólares, incluindo um recente contrato de 1.5 bilhão de dólares que envolvia um sistema de defesa antiaéreo que gerou críticas e preocupações por parte de Israel.

Ou seja, a Rússia tem razões de política externa, política doméstica, motivos geopolíticos e econômicos para apoiar o regime ditatorial de Bashar al-Assad. As dúvidas levantadas por Putin sobre o uso de gás Sarin no conflito e o uso do poder de veto no CSNU não são “birra”, ou por ser um “vilão” ou qualquer julgamento de valor. Ele age de acordo com os interesses de seu estado, assim como a imensa maioria dos atores internacionais.

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