Público, privado e ignorância

Nas últimas 24 horas, ficou bastante popular um vídeo em que o Presidente do STF, Joaquim Barbosa, cumprimenta o Papa Francisco e supostamente “ignora” a Presidenta Dilma.

Primeiro, uma pessoa que formula uma ideia em um vídeo de 18 segundos é, no mínimo, inocente. Esquecem que existe algo chamado contexto e, quando um fato é tirado de seu devido contexto, torna-se um factoide, uma mentira. Barbosa não ignorou Dilma. Ele fazia parte de sua comitiva, foi apresentado por sua superior (errata: em troca de mensagens com o colega de estudos Victor Carneiro, corrijo que Dilma não é superior strictu senso à Barbosa; o correto seria dizer que ela o precede em um cerimonial, por ser Chefe de Estado. Peço desculpas pelo equívoco) à outro de hierarquia igualmente superior, o cumprimentou e se retirou. Esse é o comportamento formal.

Vejam esse outro vídeo, que ficou popular quando da renúncia do Papa Bento XVI, mostrando que ele supostamente era “ignorado” por seus cardeais. Os dois primeiros cardeais erram ao cumprimentar o Papa. O que o Papa está fazendo neste vídeo é simplesmente apresentar seus cardeais ao Presidente alemão, tipo de cerimônia comum e protocolar em encontros desse tipo.

Agora, assista novamente ao vídeo em que Barbosa supostamente ignora Dilma; após o juiz se retirar, ela apresenta o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Ela estava apresentando sua comitiva, e o Papa, posteriormente, retribuiu. Assista ao vídeo completo.

Alguns cumprimentam a Dilma? Sim, mas por ignorância do cerimonial. Assim como alguns cardeais cumprimentam o Papa. Mas boa parte das pessoas de ambas as comitivas segue o protocolo de ser apresentado, cumprimentar o líder a quem é apresentado e se retirar. Caso uma fila de cardeais deixasse o Sumo Pontífice no vácuo, acredito que teríamos certo rebuliço, não?

A intenção desse texto não é defender Joaquim Barbosa como o ápice da educação formal; mas, certamente, ele sabe diferenciar as coisas, de quando agir como Joaquim e de quando agir como Ministro. Simplesmente seguiu a liturgia do poder daquela cerimônia. O problema reside nas pessoas que vibram e celebram um comportamento que, primeiro, não entendem; segundo, seria motivo de crítica uma grosseria pública de um Ministro, não de regozijo.

Talvez isso esteja relacionado ao problema social brasileiro que está mais enraizado em nossa sociedade: a confusão entre público e privado. As pessoas celebram uma grosseria, pois gostariam de agir assim, “na cara desse político”, não percebendo que ali estariam como representante de um cargo, não como representantes de si mesmo. Há que existir a separação das figuras, e a adoção de certos protocolos é parte disso. Não eram Dilma e Joaquim ali; eram a Presidenta e seu Ministro. Quem enxerga naquilo uma grosseria a ser celebrada é provavelmente porque projeta seu próprio comportamento; ou seja, faria a grosseria si mesma.

Como um homem muito mais sábio que eu, Aristóteles, resumiu para seu discípulo pubescente, Alexandre, futuro Rei da Macedônia e conquistador da Ásia: “Não confunda os amigos de Alexandre com amigos do Rei”.

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