Sobre o assassinato de Marielle, democracia, meritocracia e politização

Ao contrário do que costumo fazer neste espaço, este texto será em primeira pessoa. São apenas algumas reflexões pessoais sobre o assassinato de Marielle Franco, a situação e seus desdobramentos. Talvez ajude algumas pessoas em achar respostas, elucidar alguma coisa, em refletir, ou sirva apenas para eu externar tais coisas.

“Então você vai politizar o crime?”

Marielle Franco era uma vereadora no desempenho do cargo. Ela foi assassinada com quatro tiros na cabeça, sem que nenhuma posse material fosse levada. Não se trata de um acidente de automóvel, de um latrocínio, de uma morte derivada de um problema de saúde. Estamos falando da execução de uma pessoa em desempenho de cargo político. Isso, por si, já é um evento político.

“Ocorrem milhares de homicídio no Brasil, a comoção está sendo seletiva por parte de um grupo político”

Falar que a criminalidade assola e assusta o Brasil e seus habitantes é de uma obviedade quase desnecessária. Lembro-me da discussão quando da represa de Mariana, acompanhada de ataques terroristas internacionais. O problema não é uma pessoa se solidarizar com apenas uma situação. Se você quer colocar o “Pray for Paris” em seu perfil, ou “Luto por Mariana”, o que for, você tem todo o direito de se solidarizar com o que lhe comove ou com o quê você se identifica. E, assim como a maioria das mortes terroristas ocorrem no Afeganistão, na Somália e no Iraque, não na França, a maioria dos crimes passa-nos desapercebido. Especialmente pela atual situação brasileira, em que, absurdamente, o crime é cotidiano.

“Quer dizer que a vida de Marielle significava mais então?”

Não se trata de hierarquizar vidas, até pelo fato de que as vidas mais importantes para a imensa maioria das pessoas são de pessoas desconhecidas. Pais, mães, filhos, irmãos. Eu posso sentir a dor pela morte de alguém, seja ela violenta ou não, mas o filho desse alguém certamente sentirá em uma dimensão diferente.

No caso, trata-se de uma vereadora no cargo da segunda maior cidade do Brasil, capital nacional por mais de um século, cartão de visitas internacional do país, que nem dois anos atrás recebia o mundo inteiro para a Olimpíada, sob intervenção federal. O impacto dessa morte, nessas circunstâncias, será claramente maior. Novamente, uma obviedade.

Vou repetir, pedindo que prestem atenção nas palavras. Escrevi que o impacto dessas circunstâncias é maior. Não estou qualificando o valor de vidas. As circunstâncias da morte.

Falar que qualquer crime é igual independente das circunstâncias é falso, demagogo. Caso contrário, não teríamos o conceito de crime hediondo, crime premeditado, motivo torpe, etc.

“Tá, mas e o papo de que ela morreu por ser negra e mulher, isso é politizar além da conta”

Marielle não foi morta literalmente e apenas por ser negra e mulher. Ela foi morta por ser uma vereadora que mexeu em um cenário e figuras poderosas.

Ao mesmo tempo, ela foi eleita em uma plataforma baseada em suas identidades. Ou seja, a vereadora que representava negros e mulheres foi morta por abordar um cenário de figuras poderosas. É possível dizer que ela foi morta por ser negra e mulher, também.

“Mesmo assim, dezenas de crimes políticos ocorrem no Brasil todo ano”

Sim, ocorrem. No próprio estado do Rio de Janeiro não é o primeiro caso esse ano. Líderes em zonas rurais, pessoas que denunciavam crimes ou estruturas criminosas, o que não falta é assassinato político no Brasil.

Ai, além de resgatar o que eu disse antes, faço um adendo para esse caso específico, do que ele significa.

Nâo vou fingir que a conhecia profundamente, sequer suas pautas políticas. A trajetória política de Marielle, entretanto, possuía um enorme significado de meritocracia e de democracia.

Sim, você leu certo, meritocracia e democracia.

Marielle nasceu na favela, se dizia cria da favela. Pelo estudo em um cursinho comunitário, entrou na faculdade. Foi trabalhar, se formou, tornou-se figura ativa entre os seus. Foi eleita para representá-los.

Ela traçou o caminho tão defendido, tão advogado. Da favela para a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Do Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, seis milhões de habitantes e tudo o mais que você conhece.

E foi executada. Qual mensagem isso manda? Qual o recado de quatro tiros na cabeça e caixão lacrado para essas pessoas?

“Aí a culpa é da bandidagem que a matou!”

Não apenas. Ela não foi morta pela mera “bandidagem”, ela foi morta pois mexeu em uma estrutura de poder. O investigador policial afirma que foi uma execução fora do parâmetro de atividade do tráfico.

“Então você tá citando o policial que investiga o crime?”

Sim, estou. E falo em primeira pessoa pois falo por mim. Não se trata de, quando alguém colocar uma arma na sua cara, querer que um pão de queijo amigável e uma pomba com as mãos resolvam a situação. O policiamento é parte presente da vida de qualquer vida organizada em sociedade. Inclusive nas sociedades mais democráticas do mundo, mas não é essa discussão, seja à esquerda, seja à direita, e não vai ser um textão que teremos a cura para uma crise de segurança pública.

“Ué, e por qual motivo você tá falando disso? O que tem a ver com História e com política internacional, os temas desse site?”

Repito clichês. A História serve para nos lembrar o que queremos esquecer e para aprendermos com os erros do passado. Rápida busca Google de dez minutos pela capa da revista mais vendida do Brasil, a Veja (e aqui adoto o critério da popularidade, a discussão não é sua qualidade) mostra o Rio de Janeiro (pelo caso específico) como um território de guerra desde, ao menos, 1981, presidência do general João Figueiredo. Para todos os governos que o leitor preferir desde então.

Independente de você se achar de direita, de esquerda, de centro, de cima, de fora, trata-se de constatação pragmática. A receita usada de guerra contra as drogas não está funcionando tem quase quarenta anos. A abordagem precisa mudar.

E aqui, abordagem mudar, não significa aumentar a dose do mesmo remédio. Trata-se de, no mínimo, administrar outro remédio em conjunto. O assassinato de Marielle não deveria ser, mas provavelmente será, mais um.

E a política internacional? Acompanhar o noticiário sobre o México e a Colômbia é bastante elucidativo. Realidades semelhantes, papel no tráfico internacional semelhante. E o Brasil indo pela mesma “solução”, que nos vizinhos passa longe de resolver alguma coisa. Ao contrário, outros dois lugares em que o assassinato de lideranças políticas, jornalistas, policiais, soldados, cidadãos cuidando de sua vida, etc, é triste rotina.

Enquanto você discute com seu amigo sobre matar ou não bandido, sobre mais ou menos polícia, sobre Direitos Humanos e humanos direitos, tem muita gente ganhando muito dinheiro com uma situação que só prejudica você.

Você não precisa se solidarizar com a figura de Marielle, não ver nada que te sirva no que ela defendia. Só não dá pra fingir, desmerecer e bater as velhas teclas, deliberadamente, por ideologia, ignorando a realidade.


assinaturaFilipe Figueiredo é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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52 Comentários

  • Felipe, você tem um trabalho belíssimo! Obrigada.

  • Rômulo Augusto de Oliveira Pinto

    Obrigado Felipe.

  • Ralph Danis Assunção

    É um apoio a liberação das drogas? Se for estou contigo, com FHC, entre outros.

  • Filipe sou ouvinte do Xadrez Verbal e do Fronteiras Invisíveis, e sou daqueles que houvem mesmo não gostando de futebol.
    Confesso que fiquei surpreso e feliz pelo texto publicado.
    Concordo com seus apontamentos. Teria inclusive outros mais.
    Contudo resolvi escrever, pela primeira vez, aqui para me solidarizar com todos que de alguma forma sentiram a execução da Marielle e do Anderson como um ataque a si mesmo.
    Obrigado pelo texto.

  • Tibúrcio Rodrigues

    Belíssimo texto.

  • Ótimo texto. Vou Compartilhar com conhecidos

  • E é claro ótimo texto<3

  • Acho essencial a ênfase que tu deu nos aspectos sociais e humanos da morte da Marielle. Vi muita gente desprezando o fato de que uma pessoa morreu pois, antes de política ela era um ser humano como todos nós. Fico perplexa que essa luta política entre esquerda e direita seja capaz de nos fazer esquecer desse pequeno detalhe.

  • Obrigado Filipe!
    Marielle, Presente.

  • Texto maravilhoso e para poucos, obrigado por ser tão elucidativo em algo extremamente complexo e que mais cedo ou mais tarde vai afetar a vida de todos…

  • Muito bom, textos apolíticos são difíceis de se encontrar hoje na mídia.
    Parabéns. (Y)

  • Achei muito coerente e fundamentado. é interessante a paralelização que fez com México e Colômbia! Excelente texto!

  • jose emanuel cunha lima

    Muito bom texto. Mas permita dois reparos: 1- Com referencia à cor da pele, ao gênero e à origem da vitima, acho que houve um uso exagerado, mais que isso, descabido, dessas condições. A vereadora não foi morta por ser mulher, negra muito menos por ter vindo da favela. Foi cruelmente assassinada por sua atuação politica, ao que tudo indica. Usar essas outras condições como forma de vitimização não é adequado, não é correto, e, acredito, nem mesmo é producente! 2- Permit0-me um chute: Acredito que a Vereadora foi morta por gente ligada às milícias, que não são formadas por traficantes. Claro, claro…. Subsidiariamente o trafico tem importância na origem e mesmo na ação das milícias cariocas. Mas esse fenômeno ” milícia”, é bem típico, especifico, do Rio de Janeiro, embora o trafico exista em quase todas as grandes cidades.

    • Luis Henrique Fellin

      José, mas a atuação política da Marielle estava diretamente ligada à identidade negra, feminina e periférica dela, como inclusive o Filipe apontou no texto.

      • O problema é que ela não morreu em função disso. Celso Daniel era homem, branco, prefeito (à época) e provavelmente rico. Foi morto por agir inconvenientemente no sistema de corrupção que se tinha.
        Ou, em outras palavras, ela seria morta se não denunciasse? Provavelmente não.
        A constante dos crimes políticos parecidos não foi cor, sexo e cargo, mas sim inconveniência a estruturas de poder.

  • Achei interessante aquela capa de 1981, pois muita gente costuma jogar tudo que acontece de ruim no Rio de Janeiro nas costas do Brizola, falando que ele que acabou com tudo e etc… Mas isso quer dizer que o problema da criminalidade vem de antes, em 81 estourou, mas os criminosos já se organizavam antes disso e não fizeram nada desde lá. É triste como a uma parte dos brasileiros costuma jogar tudo nas costas da esquerda

  • Filipe, acompanho o Fronteiras e o Xadrez (quando dá, pq é muito tempo de programa), nem sempre concordo com as suas posições para algumas das questões apresentadas, mas respeito completamente a forma como você faz suas considerações e desenvolve o raciocínio. Esse texto aqui foi uma grata surpresa, e me fez concordar com cada ponto. Obrigado por dividir conosco suas reflexões sobre o tema

  • Obrigada pela lucidez!

  • Pingback: Leitura importante

  • Leonardo Zorzetti Alfonso

    Obrigado Felipe, por existir, um monstro criado exclusivamente para ser sensato.

  • Muito feliz por ler algo sensato sobre o tema. Só posso agradecer. OBRIGADA!!!

  • Excelente texto, como sempre! Obrigado.

  • Parabéns . Muito bom . Compartilhei .

  • Excelente texto ! Parabéns !

  • Parabéns, Filipe, por sua clareza e honestidade.

  • Belíssimo texto, eu queria que mais pessoas tivesse essa visão do ocorrido. Parabéns e Obrigado!!!

  • Excelente e certeiro texto, Felipe. Parabéns por provocar essa reflexão.

  • “É possível dizer que ela foi morta por ser negra e mulher, também”
    Discordo. Não vejo lógica nos assassinos se preocupem com o fato de Marielle “representar negro e mulheres”.
    Acho bem perigoso incumbir essa narrativa de racismo e sexismo em tudo pois é assim que se transforma um fato em uma propaganda política.

  • Também discordo plenamente com o q vc diz, que é possível dizer que ela foi morta por ser negra e mulher, também, nada haver. Como vc bem diz ela mexeu com estruturas e pessoas poderosas. Ela podia ser branca dos olhos azuis que ia dar no mesmo. Aliais tem outro no mesmo partido que anda com diversos segurança armados, Freixo. Mas oras, se ele fosse morto, iriam usar a mesma retórica?? A é mas ele é branco e homem. Então não venha colar isso, até então porque não tem lógica nenhuma. Até sua argumentação não cobriu isso e não vi nada que ligasse a isso. O que só me deu a entender que sua analise não foi parcial, forçado a uma narrativa que ela teve a possibilidade só por causa da cor ou gênero. Ai eu penso na lógica inversa, será que ela seria morta se fosse branca e homem, mesmo tento a mesma postura??? É claro. Para mim sua lógica falho nesse ponto

    • Concordo com você Alexandre, o texto é parcial.
      Mas o problema maior é o Filipe ser de esquerda e posar de isentão.

      Seria mais honesto ele ele assumir como um esquerdista, ai pelo menos o seu discurso estaria coerente com sua ideologia.

      Se colocar como neutro ou isentão, mas ter um modus operandi claramente esquerdista é desonestidade moral.

      Filipe, é só escrever, “Eu sou simpático a ideologia de esquerda, portanto, todos os meus textos serão influenciados por minha visão” e pronto, o texto pelo menos será coerente e honesto da sua parte.

      • Cara, se você precisa de rótulo é problema teu. O texto tá aí. São as minhas palavras. E outra, desonesto é você, pq diz me “coloco como neutro”, sendo que já fiz vídeo e texto sobre como isso sequer existe quando se discute política. O que você quer não é “honestidade”, é rótulo.

        • Olha, ficou bravinho, calma.

          Não falei de rótulos, falei de modus operandi, a forma como você age.

          Não fica nervoso, ouço seu podcast toda semana, vejo nerdologia toda semana tb, te acho super inteligente e não voto no bolsonaro. Mas não vou endeusar você, nem concordar com tudo que você diz. Você já pode ter feito texto e vídeo falando que não existe isenção quando o assunto é política, mas eu te acompanho a muito tempo, bem antes do nerdologia, para perceber sua postura “isentão”, que é consistente(apesar que as vezes vc não se aguenta e solta a franga).

          E se continuar nervoso, pelo menos seja honesto e me mande tomar no cú, que é o que você realmente está pensando, em vez de se mostrar todo educadinho e politicamente correto.

          • Eu não quero que você me “endeuse” e nem quero sua audiência, pois o que você está fazendo tem nome: canalhice. Com toque de burrice.

            E não tô bravo, é mera constatação. Tchauzinho pra você.

  • Tiago da Costa de Oliveira

    Excelente Análise!!! Tenta trazer as pessoas pra fora do Fla-Flu!!!

    • Fora do fora do Fla-Flu?

      uahuahuahauhauhaa, o Filipe tem claramente Lado, mas joga panos quentes para tentar manter a audiência de Direita. Só que tem hora que ele não se aguenta e solta a franga. O Filipe é muito inteligente, mas é um esquerdista enrustido, pelo menos, ele não se assume publicamente.

      Seria mais honesto ele se assumir como um esquerdista, ai pelo menos o seu discurso estaria coerente com sua ideologia.

      Se colocar como neutro ou isentão, mas ter um modus operandi claramente esquerdista é desonestidade moral.

      Filipe, é só escrever, “Eu sou simpático a ideologia de esquerda, portanto, todos os meus textos serão influênciados por minha visão” e pronto, o texto pelo menos será coerente e honesto da sua parte.

  • Muito bom ver textos lúcidos e sensíveis à questões importantes como esse. Concordo com todos os pontos mencionados.

  • “Marielle nasceu na favela, se dizia cria da favela. Pelo estudo em um cursinho comunitário, entrou na faculdade. Foi trabalhar, se formou, tornou-se figura ativa entre os seus. Foi eleita para representá-los.”

    Não, não foi. Ela foi eleita pela esquerda caviar da Zona Sul, para representar a esquerda caviar da Zona Sul.

    https://www.oantagonista.com/brasil/marielle-nao-foi-eleita-pelas-favelas/

    • Falou em “esquerda caviar” eu já sei que tem que tratar como café-com-leite, e o texto faz um jogo de palavras com o “distrito chamado Maré”. O distrito correto é o 161ª, onde ela foi a quinta mais votada e a quarta zona em número de votos pra ela. Me poupa, vai?

  • Registrando aqui nos comentários que vários comentários meus foram apagados (não havia linguagem chula, Bolsonaro2018 ou qualquer coisa do tipo, apenas uma opinião divergente) e fui bloqueado, não podendo mais postar comentários. Censura 1 x 0 Debate de ideias.

    • Registrando aqui que você foi bloqueado por ficar copiando e colando o MESMO TEXTO no mínimo três vezes, incluindo em comentários de outras pessoas. Não se faz de sonso.

      E você não veio “debater”, veio ficar de “mimimi esquerdista mimimi isentão” querendo atenção. Tanto que veio com outro perfil pra continuar.

    • E tá aqui o teu spam escancarado de copia e cola. Nunca tolerei spam por aqui, não ia ser com você, não busque “vitimismo”.

  • Matheus Almeida Silva

    Em meio a tamanha polarização,e completa perda de bom senso,compartilho aqui um texto de Rodrigo Da Silva(Editor do Spotiniks) que ,na minha opinião,expressa perfeitamente minha visão e tenta ser sóbrio em meio a tamanha cegueira ideológica(Diga-se de passagem entre grupos semelhantes,eu como liberal vejo muitas incoerências e falta de debate em certos grupos de direita).
    Antes de finalizar,gostaria de parabenizar o Felipe pela sobriedade e sensatez no artigo.

    “Toda vez que eu penso nas quatro balas furando a cabeça de uma mulher de trinta e oito anos, e daqueles seus últimos segundos encarando a morte de frente, sem qualquer possibilidade de se despedir dos amigos e da família – ombros tensionados, pupilas dilatadas, boca seca, coração batendo mais rápido – eu não consigo deixar de julgar o quão bárbaros nós nos tornarmos.

    E não: isso não se dá apenas porque o fato em si é hediondo – mais de 60 mil pessoas morrem, afinal, a cada ano vítimas da mesma brutalidade. Mas porque a forma como nós lidamos com este acontecimento é ainda grosseira, primitiva, incivil. Nós conseguimos nos transformar em verdadeiras tribos ideológicas, travando batalhas mesquinhas no nosso Senhor das Moscas particular, enquanto prometemos inutilmente querer alcançar a civilização.

    Eu não voto no PSOL e provavelmente jamais digitaria o número da Marielle numa urna. Mas isso não importa em absolutamente nada aqui.

    A razão pela qual eu me identifico como liberal é exatamente porque nunca encontrei na violência – seja ela revolucionária ou reacionária – uma resposta para os nossos problemas.

    E cá entre nós: no momento em que representantes da força do Estado brasileiro passam a ser suspeitos da execução de uma liderança política, sem que ninguém seja capaz de colocar a mão no fogo por eles, sem que nenhuma autoridade possa jurar que isso não é algo extremamente plausível e banal no nosso dia a dia, nós já estamos todos condenados, independentemente de quem apertou aquele gatilho (que pode, claro, ter sido um miliciano).

    Esta definitivamente não é uma derrota apenas para as forças de esquerda deste país. É uma tragédia para qualquer indivíduo comprometido com a defesa da vida e da pluralidade de ideias, esteja ele próximo ou distante do seu campo político.

    Nenhum representante da força do Estado deveria ter o direito de arrancar arbitrariamente a vida das pessoas – esteja ele usando coturno soviético, nazista ou verde-oliva.

    Que os entes queridos de Marielle possam se reconfortar em paz neste momento.

    A gente ainda tem muita bagunça pra consertar por aqui.”

    Segue o link do texto original:
    https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10155708605286596&id=729261595

    Ps:Perdão pela extensão do comentário,se isso for um problema dá um toque que eu retiro a citação e deixo somente o link.

  • Felipe, ótimo texto, mas assim, em sinceridade, todos, ou ao menos, a maioria que ler seu texto neste site irá concordar com você, por ser um público já solidificado e esclarecido, agora como fazer com que os indivíduos que não estejam em nenhuma destas hipóteses entendam a relevância em reconhecer a relevância que é este atentado à democracia que é a morte da vereadora?

  • “No caso, trata-se de uma vereadora no cargo da segunda maior cidade do Brasil, capital nacional por mais de um século, cartão de visitas internacional do país, que nem dois anos atrás recebia o mundo inteiro para a Olimpíada, sob intervenção federal. O impacto dessa morte, nessas circunstâncias, será claramente maior. Novamente, uma obviedade”.
    Além disso, está no estado que tem uma parte razoável de eleitores cativos de um partido estridente, PSOL; É a figura perfeita a ser explorada por uma esquerda descreditada no país, espectro político que se implodiu pelos motivos mais deploráveis de corrupção; Faz parte de um partido que tem ideias incompatíveis com este país. Defende a desmilitarização da polícia, em um país onde o Tráfico possui fuzis; É complacente criminalmente com bandidos, não importa quem seja, milicianos, traficantes e corruptos, violam o CP? são bandidos então, sem nenhum pudor.
    O tráfico no Rio tem outras fontes de renda (Gatonet, roubo de cargas), não lucra apenas com venda de drogas. Vc critica, pessoalmente, por vezes, o Ministro Alexandre de Moraes por ser capinador de maconha, mas não é assim que chegaremos a uma solução. Talvez, quiçá, quando melhorarmos está Republica, possamos vir a discutir a liberalização de uma certa quantidade de maconha
    Entendo que se sinta afetado, por ser uma defensora do seu espectro político, entretanto, de fato, não terá muitas consequências a longo prazo, este país mata muita gente todo ano e ela se tornará mais um nome em um pergaminho de cadáveres.

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