ONU 70 anos: O pedido ucraniano de socorro e de reforma

Caros leitores, prosseguimos a cobertura especial da 70ª Assembleia Geral da ONU. Você pode acessar todos os textos publicados (e os com publicação agendada) no índice da cobertura especial. Abordamos mais um discurso do dia de ontem, do presidente ucraniano. Na programação de hoje da Assembleia, teremos, dentre outros, discursos do Iraque, da Líbia e de Abbas, presidente da Palestina.


Petro Poroshenko, Presidente da Ucrânia, falou na Assembleia Geral da ONU ontem, dia 29 de setembro. Poroshenko assumiu o cargo em junho de 2014, após ser eleito em primeiro turno, já numa Ucrânia mergulhada em crise interna e externa; até hoje sua legitimidade não é totalmente reconhecida pela Rússia. Poroshenko iniciou seu discurso com a afirmação de que os setenta anos das Nações Unidas devem servir de reflexão e para uma mudança na organização, e que a Ucrânia, como “membro fundador”, está mais que disposta em participar dessa mudança. Em um primeiro momento, pode-se interpretar isso como lembrança da participação soviética na formação da ONU, o que permite uma pequena curiosidade.

Em 1945, a URSS temia que a ONU fosse dominada por uma maioria de Estados ditos ocidentais; mais ainda, que países servissem de fantoches para potências dominantes ou coloniais. Especificamente, criticava as Filipinas como um membro fundador da ONU, já que as ilhas do Pacífico compunham um protetorado dos EUA, com diminuta soberania naquele momento. A solução desejada pela URSS era de que cada uma das quinze repúblicas que a compunham tivesse seu próprio assento na ONU; a solução encontrada foi a de três assentos para a URSS. Um para a Rússia, um para a República Soviética da Bielorrússia e outro para a República Soviética da Ucrânia. Sendo assim, a abertura de Poroshenko possui um significado mais literal do que muitos podem pensar.

O discurso do líder ucraniano foi, obviamente e compreensivelmente, focado no que ele chama de agressões russas, com a anexação da Crimeia e o conflito na bacia do rio Don. Segundo ele, no leste do país agem mercenários com enorme apoio militar russo, que reúnem mais e melhores equipamentos do que “a maioria dos países da AGNU podem sequer sonhar”. A Ucrânia não pode aceitar a violação de sua integridade territorial por um dos signatários do Memorando de Budapeste, de 1994; o documento estipulava que Rússia, EUA e Reino Unido garantiriam a integridade ucraniana, na medida em que o país abria mão de seu arsenal nuclear.

Poroshenko costuma, indiretamente, dizer que, caso a Ucrânia tivesse preservado suas armas nucleares, as crises não teriam acontecido. Para contraste, a tese russa é de que a anexação da Crimeia não desobedece ao Memorando de Budapeste, já que não foi uma agressão externa, mas consequência de uma crise interna e de uma escolha do povo da península. Denunciou destruição, perdas em vidas, deslocamento populacional e o que vê como hipocrisia russa, ao querer a paz no Oriente Médio, mas manter um cordão de conflitos no leste da Europa e no Cáucaso, citando Transnístria, Ossétia, dentre outros. Defende uma aliança para lutar contra o terrorismo, mas “alimenta o terrorismo em sua fronteira”.

Continuando, o presidente ucraniano denunciou também os dois vetos russos no Conselho de Segurança da ONU sobre a situação na Ucrânia e na Crimeia, feitos em março e em agosto de 2014. O segundo foi usado em relação uma proposta de inquérito sobre o voo MH17, derrubado enquanto sobrevoava o leste ucraniano; Poroshenko implica que a Rússia teve participação no incidente. Nesse momento o discurso do ucraniano torna-se propositivo. Afirma que o uso do veto no CSNU deve ser regulado, até mesmo suspendido em alguns casos, como os que envolvem massacres de civis. Nesse sentido, cita a França e o México como proponentes e apoiadores dessa mudança.

Segue, dizendo que o CSNU não mais reflete a ordem internacional e que a crise em seu país é um desafio ao próprio conceito do Conselho de Segurança, que teria sido deturpado. O poder de veto não deveria ser usado como “carta branca” por uma das cinco potências, que deveriam zelar pelo CSNU. Mais ainda, o Conselho precisa não somente de uma reforma de seus procedimentos, mas de sua representatividade. Mais membros da África, Ásia e da América Latina, com um assento não permanente para o leste europeu; por fazer essa distinção no mesmo trecho, entende-se que Poroshenko quer mais membros permanentes também.

Seu discurso falou também de forças de paz da ONU, em que a Ucrânia tem um histórico de colaboração, da luta contra o terror, propondo um dia de memória para vítimas do terrorismo, e da agenda climática. Nesse contexto, pediu um encontro solene da AGNU em abril de 2016, ou seja, ainda durante a 70ª sessão, em memória dos trinta anos da tragédia de Chernobyl. Ao falar da Agenda 2030, retomou o assunto do leste de seu país, colocando que a agressão russa agride também o solo e o ambiente, com minas terrestres e destruição. Poroshenko falou que a Ucrânia não exige mais, mas não aceitará menos, do que sua soberania, liberdade, paz e integridade territorial. Mais que isso, propôs mudanças concretas no funcionamento e na representatividade do Conselho de Segurança da ONU.


Para ficar informado e ler, assistir ou ouvir os discursos na íntegra, você pode checar a programação do debate no site da 70ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.


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Filipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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6 comentários

  • O mundo ainda é medido pelo força de militar e econômica de um país. Independentemente da decisão do Conselho de Segurança da ONU. Isso pode ser visto pela invasão unilateral do Iraque pelos EUA desrespeitando a ONU completamente. O mesmo vale para a Russia que violou um tratado que garantia a unidade territorial da Ucrânia.
    Em minha opinião foi um grande erro a Ucrânia abandonar por completo as suas armas nucleares. Se as tivesse ainda poderia usá-las como instrumento de dissuasão contra uma agressão russa. A anexação da Crimeia foi apenas uma demonstração de como grandes potencias podem tornar-se muito agressivas despeitado qualquer tratado e organização quando interesses vitais estão em jogo.

  • excelente texto, vou tentar acompanhar mais os textos aqui do blog

  • Professor (chamo-te assim por ser mesmo meu professor), caso a Rússia estenda sua “agressão não armada” contra a Ucrânia ao ponto de esta chegar a reagir já em parâmetros bélicos e uma guerra seja armada na região (eu, na minha leiga opinião, não estranharia se isso fosse uma provocação russa que justificasse uma guerra, vitória e posterior anexação de maior parte do território ucraniano), o Brasil teria por obrigação fornecer auxílio armado ou de qualquer outro tipo à Rússia uma vez que existe um Acordo de Cooperação em Defesa assinado em 2012 pela presidenta Dilma em sua visita à Rússia? Ao meu modesto ver, estricto senso, a Rússia não agrediu a Ucrânia (foi mancada, mas agressão ACHO que não), qualquer resposta armada ucraniana seria considerada como agressão, não é?
    Obrigado professor, até mais!

    • Thiago Pozza, vc por aqui, que satisfação. Recebeste as indicações de filmes?

      Já o acordo Brasil-Rússia estabelece parcerias técnicas e questões como compras de armamentos, não é uma questão de defesa coletiva. A única defesa coletiva que o Brasil tem obrigação é o TIAR.

      Um abraço

  • Recebi sim professor, eu já agendei a maratona de filmes e pipoca para o final de semana :)! Tem muita coisa boa naquela lista e estou ansioso para ver primeiro as que eu não conheço ainda. Obrigado!

  • É muito triste ver que ainda hoje países ajam assim. Posso não estar muito por dentro, ou ser uma vitima de propaganda pro Ucrânia. Mas apenas vejo um pais aos moldes do grande imperialismo conquistando território na base da guerrilha.E os outros países so observam os gritos de socorro e não podem fazer nada. Infelizmente nos dias de hoje ideologias alem de cerceá palavras também tomam varias vidas.

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