ONU 70 anos: A paciência de Abbas e o risco de conflito religioso

Caros leitores, prosseguimos a cobertura especial da 70ª Assembleia Geral da ONU. Você pode acessar todos os textos publicados (e os com publicação agendada) no índice da cobertura especial. Segundo texto de hoje, comentando o discurso de Mahmoud Abbas, da Palestina; o primeiro abordou mais um discurso do dia de ontem, do presidente ucraniano.


Mahmoud Abbas, Presidente do Estado da Palestina, falou hoje na Assembleia Geral da ONU. Talvez sua fala tenha sido o que o governo israelense desejava. As palavras de Abbas denunciavam o esgotamento de sua paciência e um alarme para o mundo; de fato, o termo alarme já estava em sua primeira frase após as saudações protocolares. Os dois elementos principais de seu discurso, já citados, eram pontuados com momentos otimistas e de demonstração empírica da possibilidade de solução, mas, ainda assim, um discurso triste.

Iniciou com um alarme. O alarme da intolerância religiosa como justificativa para escalada de violência por parte de elementos estatais e extremistas. O elemento religioso foi tema constante do discurso de Abbas, embora não de forma proselitista. O discurso foi aberto com declarações sobre a situação na Esplanada das Mesquitas, onde, nas últimas semanas, tivemos conflitos entre muçulmanos e israelenses, apoiados pela polícia e por políticos conservadores. Foi necessária uma intervenção do rei da Jordânia, em tom de ultimato, para que a situação fosse ligeiramente controlada; o episódio foi visto em um programa do podcast do Xadrez Verbal.

Principalmente, Abbas lembrou que Jerusalém é um local sagrado para todas as religiões abraâmicas. Um conflito em um local sagrado do Islã afeta a oração dos cristãos, o trânsito por toda a cidade, a rotina religiosa dos judeus, tudo isso com o grave risco de escalada e radicalização. Esse conflito seria, então, inevitável? Não. Aí entram duas citações de Abbas, uma teológica e outra religiosa-política. A Palestina é um lugar de “santidade e de paz”, local de nascimento de Cristo, mensageiro de amor e de paz; caso o leitor estranhe a citação, é bom lembrar que Jesus Cristo possui um papel importante no Islã, considerado um profeta, mensageiro e Iman.

A citação religiosa e política foi na forma de agradecimentos e menções ao Papa Francisco e à Santa Sé, que reconheceu o Estado da Palestina, com a bandeira do país hasteada no Vaticano. Ainda lembrou da canonização de duas freiras nascidas na Palestina, na presença de “dezenas de fiéis de todo o globo”. Os dois momentos possuem o claro propósito de demonstrar concórdia entre líderes de religiões diferentes e respeito por símbolos sagrados. Ou seja, esvazia a retórica falsa de que o conflito entre Israel e Palestina é religioso e insolúvel.

O esgotamento da paciência veio com um longo recordar de negociações de paz, desde os Acordos de Oslo de 1994, passando por apelos feitos pela comunidade internacional, que apoia a existência do Estado da Palestina em sua maioria. Também foram feitas citações diretas, como ao Discurso do Cairo, de Obama, em 2009, aos apelos do Quarteto (EUA, Rússia, ONU e União Europeia), e ao falecido Yitzhak Rabin, assassinado por um judeu radical contra o processo de paz. Rabin disse, em 1976, e foi citado por Abbas, que Israel se tornaria um regime de apartheid caso continuasse com o “câncer” da ocupação.

Todo esse recordar foi pontuado com momentos em que o atual governo de Israel demonstrou má vontade ou, mais ainda, violou o que ele mesmo acordou. Diversas vezes Abbas usou o termo “ocupação racista” e falou da impunidade dos extremistas israelenses perante seu próprio governo. E deixou claro: Israel deve, agora, arcar com todas as responsabilidades de uma “potência ocupante”, já que o país não segue uma solução de Dois Estados, já que sequer reconhece o outro Estado, a Palestina.

Alguns podem interpretar tudo isso como uma ameaça; provavelmente não seja o caso, já que a ameaça concreta veio depois, com a força da lei, quando Abbas lembrou que agora a Palestina é parte da Corte Internacional de Justiça. Encerrou dizendo que as suas mãos continuam estendidas para a “paz justa” que garanta os direitos, dignidade e liberdade de seu povo. Se, no ano passado, Abbas aceitou diversas exigências israelenses, pode-se dizer, com algum pesar, que a reeleição de Netanyahu desperdiçou uma ótima oportunidade para Israel.


Para ficar informado e ler, assistir ou ouvir os discursos na íntegra, você pode checar a programação do debate no site da 70ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.


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Filipe Figueiredo, 29 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.


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3 Comentários

  • Pingback: Índice de textos do especial da 70ª Assembleia Geral da ONU | Xadrez Verbal

  • A cada ano que passa, a criação do Estado palestino torna-se cada vez mais inviável, seja por causa da ausência de terras férteis para plantio, expulsão de cidadãos palestinos de seus lares, grande parte da população palestina dispersa pelo mundo árabe, divisões políticas internas, água potável controlada por Israel, divisão geografia da Palestina por muros e forças militares que impedem a circulação de civis além de segregação dos serviços públicos, designando aos palestinos os piores servições e infraestruturas.

  • “…esvazia a retórica falsa de que o conflito entre Israel e Palestina é religioso e insolúvel.”

    Eu não acho uma retórica falsa. O problema da região não está no que diz a Autoridade Palestina, mas no que pensa os radicais religiosos do Hamas e ,em menor escala, o setor mais radical (e religioso) dentre os judeus; mas quanto a estes, se houver vontade política da maioria dos israelitas – que são moderados e estão mais interessados na paz do que no restabelecimento do Eretz Yisrael – a ocupação acaba.

    A questão é que nunca haverá essa vontade política enquanto a agenda principal do Hamas for o extermínio de todo o judeu. Com uma coisa tem de se concordar no discurso desprezível de Netanyahu; As fronteiras pré-1967 são indefensáveis, Tel Aviv é indefensável. As vezes a gente esquece que Israel luta por nada mais que sua sobrevivência, um erro de cálculo político ou estratégico pode literalmente significar a morte de milhões de cidadãos. Nesse sentido, enquanto houver a ameaça constante do Hamas, o setor mais conservador de Israel vai se utilizar desse medo justificado para manter-se no poder e impor suas políticas beligerantes.

    Abraço, Filipe! Parabéns pela cobertura, tá espetacular.

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