Europa, sinônimo: Grécia

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Na mitologia grega, Europa era uma princesa fenícia, sequestrada por Zeus, que a seduziu tomando a forma de um touro branco. Posteriormente, cinquenta anos antes de Cristo, virou o termo usado em alguns estudiosos gregos para se referir às terras além da Grécia, ao norte; o que posteriormente seria conhecido como Trácia, correspondente ao atual sul da Bulgária. O nome Europa continuaria usado para se referir a essa região, como nome de uma das províncias do Império Romano. A partir do século VIII, Europa começou a ser utilizado para se referir ao Ocidente cristão e, daí, tornou-se o termo geográfico para o continente. A princesa mitológica grega batiza o site da União Europeia, estampa a moeda grega de dois Euros, assim como diversas moedas e notas de Euro e selos postais. Se a Grécia é o berço da Europa, hoje, com a vitória do Syriza nas eleições locais, é também seu epicentro.

Syriza é uma sigla para Synaspismós Rizospastikís Aristerás, Coalizão da Esquerda Radical; uma breve observação de curiosidade, o “synaspismós” do termo significa “ligação”, e possui a mesma origem que a palavra em português “sinapse”. O Syriza foi fundado como uma aliança partidária em 2004, consolidando-se como um partido único em 2012. É fruto direto da grave crise que assola a Grécia desde 2009. E venceu as eleições disputadas em 25 de janeiro de 2015 com a premissa de tentar uma nova receita para superá-la. Fugindo do “economês” e da complexidade acadêmica, a crise financeira de 2008 quebrou a Grécia, sua economia e seu estado. De 2009 até hoje, a Grécia recebeu dois pacotes de socorro financeiro, totalizando quase 250 bilhões de Euros, coordenados pela União Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional. O grupo ficou conhecido como Troika, palavra russa que significa triunvirato.

A contrapartida exigida pela Troika é conhecida da História recente brasileira. Um pacote de austeridade e reforma econômica. Aumento de impostos, diminuição de gastos e investimentos do governo e privatizações. As dificuldades de implantar as reformas, a disputa em um cenário político cada vez mais radicalizado, além da crise econômica, levou a uma crise política também. Das eleições do final de 2009 até o momento, a Grécia teve quatro gabinetes diferentes, dos Primeiros-ministros: G. Papandreou, Papademos, Pikrammenos e Antonis Samaras, que ficou no cargo por cerca de dois anos e meio. A instabilidade causada pelas dissoluções de gabinete e a formação de governos emergenciais prejudicou ainda mais a situação grega. A falta de maioria absoluta em Nove de dezembro de 2014 causou a convocação das últimas eleições.

A austeridade dos pacotes emergenciais impôs sacrifícios e problemas à sociedade grega, entretanto, sem os benefícios esperados. A dívida pública grega era de 129% do PIB em 2009, hoje é de 175%. No período, a economia encolheu cerca de 25%. Sua taxa de desemprego é a maior da União Europeia, cerca de 25%; na população jovem, o índice chega aos 60%. Títulos da dívida pública grega são praticamente desprezíveis. Nesse cenário de crise econômica e da ineficácia das soluções de mercado e financeiras, surgem dois focos radicais na sociedade grega. Em 2012, pela primeira vez o partido de extrema-direita Aurora Dourada consegue representação no Parlamento grego. E, no mesmo ano, como citado, o Syriza é consolidado. Como já citado nesse espaço, é impossível não notar o diálogo entre a crise financeira de 2008 e suas consequências, com o mesmo escopo, mas na Grande Depressão de 1929.

A convocação de eleições emergenciais em dezembro de 2014 causou a suspensão momentânea dos pacotes de socorro, com a Troika afirmando que eles serão retomados apenas após a posse do novo governo, desde que seja um governo que aceite os termos já negociados. O fato de quatro dos principais partidos serem “antiausteridade” apenas acirrou os ânimos, tanto nas instituições financeiras quanto no mercado. Em pouco mais de um mês, a bolsa de valores de Atenas teve uma perda acumulada de 30%. Políticos e parte da mídia alemã e inglesa enviaram “recados” direcionados à população grega. Voltou o fantasma da Grexit, junção das palavras em inglês Greece e Exit, Grécia e saída, a remoção da Grécia da zona do Euro. Seja por sua própria vontade ou por expulsão europeia, que precisa bancar a presença grega no Euro. De qualquer forma, isso causaria um choque na moeda e na economia europeia, afetando todo o comércio mundial.

É nesse clima político e financeiro que o Syriza sai vencedor. Clóvis Rossi, em sua coluna, comparou a situação à eleição de Lula em 2002; embora um fã, esse autor discorda. Mais apropriado seria comparar com uma eventual eleição de Lula em 1989. Uma cisão política maior, um partido mais radical, um clima internacional de grande desconfiança e uma economia local em frangalhos. Um elemento da vitória de Lula em 2002, entretanto, já se faz presente. A aliança com o partido de direita Gregos Independentes, objetivando uma aliança que permita um governo de maioria. O GI, fundado também em 2012, é outro fruto da crise que assola a Grécia e também condena o papel da União Europeia nessa crise, mas sua crítica, como citado, é à direita do espectro político. Na Europa, existe o fator do supranacionalismo, que afeta as relações entre direita e esquerda, tema deste texto no Opera Mundi, que complementa a leitura.

Infográfico do Economist, mostrando a porcentagem dos votos e a amplitude da vitória do Syriza.

Infográfico do Economist, mostrando a porcentagem dos votos e a amplitude da vitória do Syriza.

Qual seriam as intenções do Syriza? Dentro de suas fronteiras, investimentos de cerca de dois bilhões de Euros para combater a crise humanitária; o Syriza rejeita o termo “programas sociais”, afirmando que a amplitude da crise grega atinge questões humanitárias, incluindo subsídio à alimentação. “Gradualmente”, reverter “todas as injustiças do memorando de entendimento”. Aumento da oferta de energia, com eletricidade grátis para 300 mil famílias, em uma população de onze milhões, e revisão dos tributos sobre combustíveis e aquecimento. Na Europa, obviamente, o tema do programa é a dívida. Reestruturar grande parte da dívida pública, de forma a que se torne sustentável, no contexto de uma “Conferência sobre a Dívida Europeia”. Incluir uma “cláusula de crescimento” para o pagamento da parte remanescente da dívida grega, para garantir que será financiada com crescimento e “não com o orçamento” e um “New Deal” de investimento público europeu financiado pelo Banco Europeu de Investimento. Informações tiradas do programa publicado no jornal luso Observador.

Ainda não se sabe quais serão as possibilidades de diálogo entre Grécia e a troika. Logo após a vitória, Tsipras, o novo Primeiro-ministro, afirmou que “o tempo da troika acabou”. Vários jornais noticiaram a eleição grega como berço de um choque entre o novo governo e a Europa. O Primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, usou seu Twitter para justificar a postura isolacionista de seu governo: “A eleição grega aumentará a incerteza econômica pela Europa. É por isso que o Reino Unido precisa manter seu plano, priorizando segurança em casa”. O governo alemão parabenizou o novo governo, mas lembrou: “Os contribuintes alemães são responsáveis por uma grande parte da ajuda financeira dada à Grécia”. Christine Lagarde, presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), também parabenizou o novo governo, com o contraponto: a Grécia “não pode ter tratamento especial”. A União Europeia afirmou que é necessário um “compromisso” e, finalmente, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, convidou o novo primeiro-ministro grego à Bruxelas, para negociação.

Como serão as negociações, quais as propostas possíveis ou desejadas, ainda não sabemos. Hoje, entretanto, a certeza é de que a Grécia é o centro da Europa. O que acontecer com ela alterará todos os rumos da União Europeia, do Euro e do comércio mundial. Alguns países sinalizam uma guinada radical à direita, o povo grego o fez à esquerda. Poderá ser um exemplo para o eleitorado espanhol e o partido Podemos, um país que passa por crise semelhante, tanto na origem quanto no efeito. Poderá gerar endurecimento e reação por parte dos partidos centrais da União Europeia, em uma dicotomia não entre direita e esquerda, mas entre Europa e eurocéticos. Uma solução negociada, respeitando tanto a soberania do povo grego quanto o projeto de união na Europa, ignorando a especulação financeira, traria um novo patamar para a integração regional. Outra certeza é a de que Tsipras promete mudanças, uma nova receita para superar a crise. Foi primeiro chefe de governo eleito que fez um juramento secular ao cargo, sem a presença de um bispo ortodoxo. O povo grego precisa de mudanças.


assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

 


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