#somostodosdemagogos

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Caros leitores,

Na última semana, dois casos de racismo ocorreram no esporte mundial. Na sexta-feira, dia 25 de Abril, o bilionário Donald Sterling, proprietário do time Los Angeles Clippers da NBA, a maior e mais rica liga de basquete do mundo, teve vazado um áudio de uma conversa com a namorada, em que dizia, dentre outras coisas, não “exibir seu apreço por negros” e que não queria ver “nenhum negro em meus jogos”. Os comentários foram motivados porque a mulher postou uma foto, no Instagram, ao lado de Magic Johnson, um dos maiores atletas da História. No Domingo, dia 27 de Abril, o lateral brasileiro Daniel Alves, do Barcelona, comeu uma banana que foi atirada em sua direção na partida contra o Villarreal, no estádio do adversário. A ironia como resposta ao racismo levantou, rapidamente, uma campanha nas redes sociais, iniciada pelo também jogador do Barcelona Neymar, chamada #somostodosmacacos. Qual a relação entre os dois casos e as lições que podem ser tiradas deles?

monkeyNo caso de Sterling, a repercussão foi imediata e agressiva. Os jogadores de seu time quase não entraram em quadra e, ao fazê-lo, executaram um protesto, vestindo os uniformes do avesso, e agiram sob uma lei do silêncio combinada entre eles, sem dar entrevistas. Isso, numa liga profissional e intimamente ligada às transmissões de televisão (existem tempos determinados de entrevistas de atletas e técnicos, de ambos os times). E bom lembrar que o técnico do time, Doc Rivers, é negro e a maioria dos atletas do time é negra. Outros times e jogadores apoiaram o protesto, além de várias personalidades dando declarações condenando o proprietário, como o Presidente do país, Barack Obama. Assim que a autenticidade da gravação foi confirmada, cinco empresas encerraram seus patrocínios com o LA Clippers. Sterling foi banido da NBA (não pode aparecer em nenhum ginásio, evento, jogo ou reunião oficial da liga) e multado pelo Comissário da NBA em dois milhões e meio de dólares, a maior multa individual permitida pela associação.

Além disso, Sterling provavelmente será obrigado pelos outros donos a vender sua equipe, já que mais de 75% das franquias apoiam a medida. Inclusive Michael Jordan, maior jogador de basquete da História e único dono de equipe afroamericano, que já afirmou que não sentará na mesma mesa que o indivíduo. Adam Silver, o comissário da NBA, também declarou que o dinheiro da multa aplicada será integralmente destinado às entidades que trabalhem no combate ao racismo e com inclusão racial. Tudo isso em questão de dias. Posturas oficiais e firmes, sejam de empresas, ao romperem seus contratos, seja da própria entidade esportiva. A sociedade dos EUA admite, sob diversos aspectos, que, infelizmente, o racismo existe. Que as sequelas da escravidão ainda estão presentes no cotidiano. E que isso deve ser contornado e combatido. De forma agressiva e ostensiva.

No caso de Daniel Alves, além da campanha nas redes sociais, a única providência concreta foi o banimento do torcedor, identificado, do estádio do Villarreal. Única. Não houve qualquer iniciativa penal ou uma punição esportiva mais firme, nem que fosse o banimento do torcedor de qualquer estádio; o que é possível, já que tal medida já afetou diversos hooligans ingleses, alemães e balcânicos. Poderia ser dito que foi um caso isolado, de um torcedor. Claro que não é da mesma visibilidade que um proprietário de time que age dessa maneira, mas não é um caso isolado. Nem o ato de racismo, nem a fragilidade da reação e a conivência do mundo do futebol com esse tipo de atitude. Lembro os leitores, por exemplo, que a UEFA, entidade máxima do futebol europeu, pune com mais rigor “propagandas indevidas” do que racismo! E que até mesmo os jogadores já estão fartos da ineficácia das atitudes “amigáveis”, como camisetas e faixas. Na Inglaterra, distribuíram camisetas com um slogan antirracismo para os jogadores. Em protesto, justamente os principais jogadores negros da Premier League não vestiram a camiseta.

O Brasil, por motivos óbvios, se aproxima muito mais do modelo futebolístico europeu de combate ao racismo. E ocorrem diversos casos no Brasil. E o discurso é sempre o mesmo. De que são atos isolados, de ignorantes aleatórios, que medidas mais fortes não são necessárias. A FIFA chegou a redigir um novo regulamento, mais rígido, para lidar com ofensas racistas, mas que até agora não foi implantado plenamente. E todo final de semana temos um novo “caso isolado” de racismo contra jogadores negros ou pardos. Não são casos isolados. Falta coragem às sociedades europeias e latino-americanas de assumir que o racismo existe. Não é caso isolado. As feridas do escravismo ainda estão abertas. Podem ser raivosamente demonstradas com uma banana ou com outras atitudes, não adianta nada apenas tirar a “ofensa” da banana. E nessa falta de coragem, sobram atitudes paliativas, moles, que apenas desmerecem os eventos ocorridos. A tradicional condescendência com o racismo, vista desde muito tempo na sociedade brasileira.

O que leva ao marketing das fotos com bananas e o slogan de sermos todos macacos. Sim, marketing e slogan, já que foi tudo arquitetado por uma agência publicitária. A atitude de Daniel Alves, extremamente sagaz e irônica, feita no momento, foi a resposta ideal; para aquela situação, naquele minuto. Ela não resolve o problema estrutural. A demagogia de que “somos todos macacos” não é a resposta para o racismo cotidiano, não irá corrigir as injustiças cometidas em nome da raça. Pelo contrário. Foi rapidamente apropriada. Gente que participou da campanha com boas intenções, ao tirar uma foto com uma banana e postá-la em seu perfil, mas inocentemente esquece que isso não corrige absolutamente nada (como clicar em “curtir” não salva ninguém da fome); parece até que autoriza alguém a chamar um negro de “macaco”. O deboche era a melhor resposta para Daniel Alves, ofendido perante as câmeras enquanto trabalhava, mas passa longe de ser a resposta necessária da sociedade.

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Outro exemplo: Jornal belga Der Morgen retratou Obama e sua esposa, Michelle, como macacos, recentemente. Leia mais aqui: http://goo.gl/tkJRDo

A apropriação em certos casos foi ainda pior. “Humoristas”, por exemplo, que já postaram “piadas” racistas de gosto duvidoso em seus perfis, para depois tirarem uma foto com uma banana e a hashtag da campanha; que, diga-se, está errada, já que Darwin afirma que o homem e o macaco dividem um ancestral comum, não que descendemos dos macacos. Até o cúmulo do apresentador Luciano Huck, que, em mais uma demonstração de inconsistência, decidiu ganhar uma grana com a situação. Aqui o contraste é gritante. Enquanto o valor monetário em uma situação foi usado para o benefício de entidades que combatem o racismo, na outra, a pecúnia é derivada do uso lucrativo de uma situação abominável. O lucro devido uma atividade criminosa, mesmo que indiretamente, é praticamente um atestado de cumplicidade.

Não se trata de ser “americanófilo” ou de achar que tudo corre de forma maravilhosa no Grande Irmão do Norte. No assunto racismo, entretanto, eles estão ano-luz à frente, especialmente no que concerne ao esporte. E lembro ao leitor que o esporte é nada mais que uma vitrine da sociedade. O deboche e a ironia são armas importantes, e Daniel Alves fez um ótimo uso delas. Tal uso foi banalizado, apropriado. O racismo não pode mais ser considerado “ato isolado”. A Europa e o Brasil precisam, devem, encarar a realidade de frente e admitir a existência cotidiana do racismo. E combatê-lo. Tal combate inicia na educação, mas passa, de forma essencial, pela punição. Judicialmente e financeiramente. E nos pequenos atos de cada dia. Tirar uma foto comendo uma banana não faz de alguém um crítico do racismo. É necessário perceber o panorama mais amplo. E que somos todos seres humanos.

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Caros leitores, devido ao feriado, o XadrezVerbal só volta com o Xadrez Dominical, dia 4 de Maio.

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