Feliz Ano Novo, Síria.

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Caros leitores, não estranhem o título do post. Hoje é o primeiro dia de 1435 no calendário Hijri, o calendário lunar islâmico que serve para cálculo de dias e festivais sagrados, como o Ramadã. Uma curiosidade do calendário é que, por ser lunar, seus dias começam ao pôr do sol, ao contrário dos dias no calendário gregoriano, que iniciam no meio da noite. Aproveito a data e resgato um habitual assunto desse espaço: o que esse novo ano do calendário religioso pode prometer à Síria? (caso queira ler tudo que já foi escrito sobre a Síria aqui, e foi bastante, acesse aqui).

Num futuro próximo, pode ser iniciado um longo processo de paz no país. A Segunda Conferência de Paz de Genebra para o Oriente Médio é uma iniciativa conjunta de EUA e Rússia para tentar mediar uma paz negociada no país. O problema é que tal iniciativa ainda não permite uma perspectiva muito otimista. A Coalizão Nacional Síria, movimento mais articulado e menos radical da oposição ao regime de Assad, já condiciona sua presença na Conferência a uma pressuposta remoção de qualquer possível influência de Assad na Síria do pós-guerra. Uma negociação que começa sob condicionais não pode começar muito bem.

Além disso, Ahmed Yarba  líder da Coalizão, também exigiu que o Irã seja alijado da Conferência e que algumas organizações ligadas ao governo de Assad sejam declaradas terroristas, como o Hizbollah. Sobre o Irã, sinceramente, acredito que a posição pode ser debatida, mas a reinvindicação é fundamentada, já que o Irã não faz parte da Liga Árabe, principal órgão internacional da região, e que a Síria faz parte, assim como a Coalizão, que é reconhecida por alguns dos países-membros. Em relação ao rótulo de terrorista para os aliados de Assad, primeiro, classificar o Hizbollah como terrorista pode gerar consequências no Líbano, onde ele é um partido importante na base governista; além da clara contradição, já que as milícias mais radicais são as que se opõe a Assad.

Ainda sobre essas milícias radicais, algumas já se pronunciaram que não aceitarão qualquer negociação e que quem participar da Conferência será “julgado como traidor”; não exatamente uma posição equilibrada, e lembro que a oposição síria radical é extremamente fragmentada, unidas apenas por um inimigo comum, o regime alauíta. Exemplo dessa fragmentação é que alguns grupos já começaram a lutar entre si, especialmente os curdos que buscam a formação do Curdistão. Duas semanas atrás, curdos tomaram de grupo radical islâmico um posto na região da fronteira com o Iraque, região essencial para a articulação dos curdos que habitam diferentes fronteiras.

Fronteira entre Síria e Iraque em Yarubiya Foto: AFP

Fronteira entre Síria e Iraque em Yarubiya
Foto: AFP

Outros fatores de pessimismo são as falas de John Kerry, que apoia a intenção de alijar Assad do futuro sírio, o que já gerou uma resposta do governo local, além de ser possível causa de atritos com a Rússia, que certamente não apoiará esse cenário. Além, é claro, da continuidade do conflito. Alguns outros sinais permitem otimismo, é verdade. O enviado especial da ONU e da Líga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi falou, em Damasco, que a Conferência irá ocorrer e que a Síria será representada por duas delegações, uma governista e outra de oposição. Além disso, o cronograma da destruição do arsenal químico sírio está sendo cumprido, inclusive com elogiada cooperação do governo local. A supervisora do processo, a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), lembro, foi a laureada com o Nobel da Paz desse ano.

As próximas semanas serão essenciais para a mínima possibilidade de uma paz negociada na Síria, já que a Conferência de Paz está programada para ser confirmada em “meados de Novembro”. É impossível prever o que pode acontecer, apenas enumerar os fatores que podem pesar na balança. Como já foi tratado nesse blog, o cenário na Síria é marcado por uma forte fragmentação, então, certamente haverá descontentes, com qualquer solução que seja encontrada. Podemos apenas esperar e torcer, com os tradicionais votos feitos todo Réveillon, que 1435 traga um pouco de alegria e um pouco de paz para a Síria, que, infelizmente, não sabe o que é isso há anos.

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