Procure Saber, biografias, censura e seu debate

Caros leitores,

Como a maioria de vocês deve saber, um antigo debate foi resgatado, e acalorado, nos últimos dias: a publicação de biografias, suas consequências e eventual necessidade de autorização prévia por parte do biografado ou seus descendentes. Resumidamente, de um lado temos um movimento chamado Procure Saber, que conta com nomes como Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano Veloso e Djavan, que defende que apenas biografias autorizadas são legítimas de serem publicadas. Do outro, jornalistas, biógrafos, escritores e artistas que advogam por uma ampla liberdade de expressão que justifica a existência de biografias independentemente de autorização, que seria classificada como uma forma de censura.

Antes de opinar e analisar, faço algumas recomendações. Primeiro, a leitura da carta aberta de Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, para Caetano Veloso.  Segundo, o post de Mário Magalhães, autor da biografia de Marighella, em seu blog. Ambos os textos trazem uma perspectiva do profissional, que já passou pela experiência debatida, com argumentos extremamente válidos, muitas vezes rebatendo pontualmente comentários feitos por integrantes do Procure Saber. Na verdade, recomendo a leitura de todos os posts sobre o assunto no blog do Mário Magalhães, intitulados “Afasta de mim esse cale-se”. Finalmente, deixo claro que estou discutindo a ideia sobre as biografias, sem entrar no mérito dos indivíduos, de sua produção e sua contribuição cultural e social.

Uma árvore de biografias de Marighella, escrita por Mário Magalhães  Foto: Leonardo Pinto

Uma árvore de biografias de Marighella, escrita por Mário Magalhães
Foto: Leonardo Pinto

Como os textos citados acima analisam bastante os aspectos da liberdade de expressão e da remuneração do biógrafo, que, segundo Djavan, ganham fortunas, seguirei desse ponto, tentarei abordar alguns pontos que ainda estão no ar. No tema pecuniário, se a edição de uma biografia realmente gera fortunas, por que os artistas não lançam suas próprias biografias autorizadas? Trabalhem em parceria com um jornalista ou escritor, ou até mesmo sozinhos, e editem suas autobiografias e memórias, e tomem sua fatia do supostamente suculento mercado. Além disso, aliando os aspectos do dinheiro e da liberdade de expressão, uma biografia autorizada não invalida ou impede outras eventuais biografias, não autorizadas. Uma rápida busca no maior site de venda de livros, a Amazon, mostra que diversas personalidades, estadistas, bandas, possuem mais de uma biografia publicada. Muitas vezes, apenas uma é autorizada, ou de autoria do biografado. O mercado acaba regido pelo seu principal elemento: o leitor.

Ainda, ao argumentar que “sua vida privada” não pode ser motivo de ganho financeiro de um terceiro, ou sugerir que uma parte dos lucros da edição seja destinada ao biografado, temos outra brecha. Supondo que um artista publique sua própria biografia, assim, lucrando com sua própria vida pessoal. Em determinada passagem, cita algumas vezes um amigo de infância, um professor de violão, um companheiro de início de carreira, enfim, alguém que participou de sua vida, não se tornou celebridade e é um terceiro. Esse amigo citado algumas vezes, pelo raciocínio reproduzido no início do parágrafo, teria direito, em parte, ao dinheiro gerado pela publicação, não? Ou, ainda, o mesmo direito de vetar sua publicação ou citação? Meu ponto é: ninguém é dono absoluto de sua História, pois ela não é etérea ou isolada de outras vidas, e assim por diante. Autorizar seu próprio nome e sua imagem na capa de um livro não anula que, em seu conteúdo, no que importa, estarão outros nomes, outras vidas.

Continuo no tema da imagem. Artistas em geral vendem ou emprestam sua obra e sua imagem. Uma música em uma novela, uma participação em um vídeo comercial. Um pedido de voto em campanha eleitoral, como os de Caetano Veloso para Gabeira e para Marina. Associar sua campanha partidária a uma figura como Caetano Veloso certamente adiciona credibilidade, impacto e presença de mídia para qualquer candidato. Mas do que consiste essa imagem que pede um voto? Quem é a pessoa por trás da obra? Quem é o cidadão que olha para a câmera e afirma que precisamos de determinado candidato? Qual, e aí entra a exata origem do termo, sua biografia? Faria sentido que um artista, por mais genial ou competente que seja, empreste sua imagem para uma campanha contra a violência doméstica, tivesse, em sua própria vida, episódios de agressão à sua esposa, por exemplo? Se a imagem do artista é emprestada, independente da finalidade, se a grife que carimba sua obra é vendida, é coerente que o público, alvo de tais campanhas, tenha o direito de saber o conteúdo de tal imagem e a base de tal obra.

O que me leva ao próximo aspecto, filosofia. Mais precisamente, a epistemologia e a hermenêutica. A vida de uma pessoa é, simultaneamente, separada de sua obra e indistinta dessa obra. Existe o Chico Buarque como pessoa, existe o Chico Buarque cantor, o Chico Buarque poeta, e assim por diante. Ao mesmo tempo, um influencia o outro; ou seja, para compreensão da obra, precisamos compreender sua origem, logo, compreender o homem. Faço a advertência de que não se trata de legitimar uma falácia ad hominem, que desautoriza o autor, não seu argumento. Trata-se não de refutar, mas de compreender. O autor, suas ideias, sua obra, e a origem dessas. Exemplos objetivos. The Beatles, talvez a maior banda de todos os tempos. Encerrada pela saída de John Lennon da banda. Que teria sido causada por conflitos com Yoko Ono, sua esposa. Que era forçada por John Lennon para estar em todos os ensaios da banda, pois ele temia que, sem sua “vigilância”, ela o abandonaria. E tal comportamento obsessivo de Lennon tem origem em sua adolescência, com repetidos casos de violência contra mulheres; ou seja, a obra, e seu fim, de uma das maiores bandas de todos os tempos são explicados, em partes, pelas biografias de seus integrantes.

Outro exemplo? Um dos grandes inspiradores desse blog, o diretor sueco Ingmar Bergman. Várias de suas obras abordam aspectos da religião, muitas vezes retratada como uma forma de opressão, como em O Sétimo Selo. Fruto de sua criação por um pastor luterano rígido e controlador, relação que afetou diversos outros aspectos de sua criação. A biografia de um artista é imprescindível para a compreensão de sua obra. Mesmo que os artistas do Procure Saber argumentem que sua vida privada não é pública, apenas sua criação, o entendimento da última depende da primeira. Finalmente, como alguém cuja formação é em História, tenho certeza que tal debate sobre biografias está acalorado porque os artistas em questão estão vivos. No máximo, com descendentes diretos recentes, que seriam beneficiados por eventuais diretos financeiros. Poucas pessoas achariam razoável a necessidade de autorização para a publicação de biografias sobre Shakespeare, Marquês do Pombal, Mozart, etc; de seus incontáveis descendentes atuais, diretos ou indiretos.

Em outro exemplo recente, a disputa pelo espólio do ex-Governador de São Paulo Orestes Quércia tomou conta de jornais e revistas, mesmo sendo um processo que corre em segredo de Justiça. Esse sim um caso explícito de invasão de privacidade, respaldado pela legislação já existente, e que configura exploração da vida particular alheia como fofoca. Talvez seja essa a preocupação de algumas pessoas. Mas biografia não deve ser confundida com coluna social. Uma obra jornalística e um gênero literário não devem ser tomados por fofoca. E o público não pode ser privado de informações sobre pessoas que estão presentes em todas as mídias que o cerca cotidianamente.

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