Assembleia Geral da ONU – Geórgia

Caros leitores,

Segundo post do dia, desta vez para falar da Geórgia. A Sérvia ficará pra próxima (você pode, para se preparar, ler os meus posts sobre o colapso da Iugoslávia e a admissão dos países iugoslavos na União Europeia).

Mikheil Saakashvili, Presidente da Geórgia, fez um discurso forte, agressivo até. É, a palavra é essa, agressivo. Você pode ler, assistir ou ouvir, na íntegra e em inglês, aqui (caso queira ouvir, existem outras opções de idioma no áudio). E deixo claro que irei retomar esta situação descrita aqui, após escrever sobre a Sérvia. Alguns fios estão soltos intencionalmente.

Mikheil Saakashvili ontem, na Assembleia Geral das Nações Unidas  UN Photo/Eskinder Debebe

Mikheil Saakashvili ontem, na Assembleia Geral das Nações Unidas
UN Photo/Eskinder Debebe

Agora, o leitor pode perguntar: “Agressivo? Na ONU? Por qual motivo, contra quem?”

Putin. Rússia. Putin.

Saakashvili separou seu discurso em dois tons contrastantes. No primeiro, falou do otimismo do início da década de 1990, a expansão de valores democráticos e liberais que pareciam naturais; no leste europeu, falou das revoluções cheias de cores, no Oriente Médio, a “imagem gloriosa” de multidões no Cairo e em Túnis, homens e mulheres querendo viver em liberdade. A persistência da Geórgia garantiu seus esforços em busca de um mundo democrático e bem-sucedido, como a entrada para a OTAN e sua aceitação no Conselho Europeu, visando, quem sabe um dia, ser aceita na União Europeia.

No segundo tom, afirmou que o otimismo da década de 1990 se transformou em pessimismo e cinismo, a expansão dos valores democráticos e liberais estava ameaçada; as mesmas revoluções do leste europeu agora tinham que lutar contra o mesmo inimigo de anos atrás e a Primavera Árabe foi substituída pela imagem de crianças mortas em ataques químicos na Síria. Iniciativas como a da OTAN e o Conselho Europeu eram confrontadas com ameaças e chantagem, que visavam uma União da Eurásia, parte de um futuro moldado por “ex-KGBs” e os homens e mulheres não podiam mais viver em liberdade, citando Armênia, Moldávia e Ucrânia como vítimas de pressão e “cercos”. As pessoas teriam que escolher entre a democracia e viver “em um mundo de medo e crime”.

Para o leitor que não tenha captado as referências: Putin. Rússia. Putin.

Saakashvili colocou que esses contrastes não eram inesperados, pois a História não acabou em 1991 (toma essa, Fukuyama). E para exemplificar seu discurso, citou os conflitos entre seu país e a Rússia, que envolve embargos, guerra e ocupação (que citei, rapidamente, aqui). O presidente está certíssimo em condenar o que classifica como uma ocupação russa de território georgiano (Ossétia do Sul e a Abcázia), de atacar seu adversário, de buscar apoio e de garantir a resistência de seu país, e de falar da dramaticidade da guerra, quando cita números de tanques e aviões.

O presidente, no entanto, foca muito do seu discurso não em defender a Geórgia, mas em atacar o que classifica como uma tentativa de restaurar “colônias do império soviético”, a União da Eurásia, que, primeiro, é ainda apenas uma proposta, em discussão, segundo, visa uma união nos moldes da União Europeia, voltada ao livre comércio. Claro que se deve suspeitar e analisar sempre a geopolítica desse tipo de intenção, especialmente quando é de um vizinho em conflito com seu país, mas o tom adjetivado e tenebroso usado, citando países “agredidos” que já aceitaram fazer parte da futura união aduaneira, como a Armênia, soa estranho. Exagerado. Um tom dramático, de contraste entre o bem e o mal, não contribui em nada para um argumento. Contrapor a “boa” União Europeia, quando milhares vãos as ruas em certos países pedindo a retirada de seus países de tal organização, com a “má” União da Eurásia, que ainda está no papel, é primário. Ainda mais quando seu principal mais novo aliado, os EUA, já classificaram a União da Eurásia como uma tentativa de “sovietização” e, Hillary Clinton, então Secretária de Estado, afirmou que os EUA farão de tudo para “atrasar ou impedir” sua realização.

Mikheil Saakashvili exagerou e extrapolou tanto ao defender seu país que ficou parecendo um garoto de recados contra Putin.

*****

Para ficar informado, você pode checar a programação do debate no site da 68ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.

*****

Acompanhe o blog no Facebook e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial.

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s