Assembleia Geral da ONU – Resumo da abertura

Caros leitores,

Neste post inaugural do dia, farei um breve apanhado dos outros pronunciamentos de ontem na Assembleia Geral das Nações Unidas e darei alguns pitacos sobre a programação de hoje. Caso tudo corra bem, voltarei mais tarde, para fazer outro apanhado, desta vez, sobre hoje. Agora, antes de qualquer coisa, uma errata e um pedido de desculpas: ao contrário do que eu disse ontem, a Presidenta Dilma já volta para Brasília na tarde de hoje. Errata feita, desculpas pedidas, vamos em frente.

Assembleia Geral da ONU.  Foto: Site da ONU

Assembleia Geral da ONU.
Foto: Site da missão afegã na ONU

Dos meus pitacos de ontem, errei sobre Horacio Manuel Cartes, Presidente recém-eleito do Paraguai, que basicamente fez do púlpito um palanque eleitoral, falando de projetos de governo, do futuro paraguaio e como seu governo é legítimo, tentando esclarecer a situação de retirada do ex-presidente Lugo; caso queira assistir, quase na íntegra e em espanhol, o link é este, mas não recomendo fazê-lo, nada dito de interessante.

O Presidente turco Abdullah Gül, em um inglês carregado, fez um discurso bastante abrangente, concentrado, obviamente, nas fronteiras de seu país, o que inclui a Síria. Comentou o conflito caucasiano de Nagorno, afirmou que seu país está pronto para achar uma solução negociada para a situação no Chipre (o conflito entre turcos e gregos no Chipre é histórico e certamente será tema de algum texto, algum dia) e alfinetou Israel, afirmando que colônias ilegais em território palestino ameaçam todo o processo de paz. Obviamente, a maior parte de seu discurso foi sobre a Síria, saudando a solução russo-americana, afirmando preocupação com as fronteiras e que conflitos amplos surgem da falta de legitimidade política, em uma referência a Assad; tive a impressão em diversos momentos que o político turco “candidatou” seu país a participar de quaisquer operações na região. Caso queira assistir, na íntegra e no inglês carregado de Abdullah Gül, o link é este.

Sebastian Piñera, do Chile, fez alguns comentários muito interessantes também. Como previ, ele falou de uma renovação do Conselho de Segurança, com ampliação de vagas para membros permanentes e não permanentes, em um cenário que refletisse melhor o mundo atual. Discursou sobre democracia, o banimento de armas de destruição em massa, apoiou uma solução negociada para o conflito sírio, afirmou que deseja ver a Palestina como um estado-membro das Nações Unidas e mencionou o livre comércio da Aliança do Pacífico. Finalmente, o mais interessante: propôs a abolição da possibilidade do chamado veto no Conselho de Segurança em alguns casos, como de comprovados crimes contra a humanidade e genocídio; uma proposta certamente ousada, polêmica e, a meu ver, pode render boas discussões. Caso queira assistir, na íntegra e em espanhol (mas a pronúncia de Piñera é muito clara), o link é este.

Outro vídeo, na íntegra e em espanhol, é o do Presidente do Uruguai, José Mujica. Os leitores que me perdoem o excesso em minha análise, mas Mujica brilhou. Usando uma linguagem literata, quase poética, falando das paisagens latino-americanas, o discurso de Mujica teve dois eixos principais. Primeiro, falou em um tom que transparecia uma identidade comum latino-americana, com problemas similares, que requerem união para prevalecer sobre um débito social. Segundo, em uns dez minutos, explicitou perante a sociedade internacional as falhas do ritmo de consumo atual, que beneficiam apenas interesses privados de uma camada ínfima, e como isso afeta a vida e que uma mudança é necessária, não de mercado, não política, mas de mentalidade, com o uso da inteligência e uma mentalidade de espécie. Recomendo, caso seja de seu interesse, que assista ao vídeo, vale a pena.

Um discurso que me esqueci de mencionar ontem foi o de François Hollande, Presidente da França. Infelizmente, não achei nenhum vídeo do discurso na íntegra, assim como não achei nenhum vídeo do pronunciamento do presidente iraniano com alguma opção de idioma (caso o leitor compreenda persa, o vídeo original está aqui). Então, meus comentários sobre ambos terão como base o press release da Assembleia Geral (em inglês, caso queira ler, e todos os pronunciamentos estão lá, de forma resumida), que estava nos links indicados ontem como fonte de informações. Hollande, obviamente, falou da situação síria, em um tom claramente alinhado com o de Obama, nada de novo, mas aproveitou o gancho e também fez uma “prestação de contas” das participações da França em mandatos da ONU na África (como no Mali, tema de polêmica no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática desse ano de 2013), e repetiu algo que é amplamente discutido em fóruns tem décadas, que a pobreza colabora com o terrorismo. Na opinião desse blogueiro, digno de nota apenas a sugestão para que o Secretário-Geral das Nações Unidas tenha mais poderes investigativos (algo que rompe totalmente o alinhamento, até agora, com os EUA, que são tradicionalmente contra maiores poderes supranacionais).

Finalmente, Hassan Rouhani, Presidente do Irã. Uma nota lamentável, que não está no press release, é que os representantes de Israel se retiraram durante seu discurso. A declaração mais importante de Rouhani talvez tenha sido de que a busca por armamento nuclear não faz parte da doutrina de segurança de seu país, e que o Irã tem direito inalienável ao seu programa pacífico de energia nuclear. Juntou-se ao coro de vozes que afirma que não existe solução militar para a Síria e também afirmou que a situação na Palestina é de “violência estrutural”. Boa parte de seu discurso tratou de uma violência ideológica, uma “islamofobia”, e como isso é prejudicial tanto ao seu país, alvo de sanções por parte dos EUA, como à comunidade internacional, pois alimenta o extremismo e, ao encerrar, clamou por um plano das Nações Unidas para combater tais discursos de conflito ideológico e cultural e que a paz com os EUA está “ao alcance”; como não consigo compreender o idioma do vídeo, sinceramente não sei dizer o quanto disso é retórico e o que é afirmativo, peço a compreensão dos leitores.

Na programação de hoje, que você pode checar no link abaixo, destaco, em uma perspectiva internacional, van Rompuy, Presidente do Conselho da União Europeia, que provavelmente falará mais de economia; Taur Matan Ruak, Presidente do Timor-Leste, país com laços culturais e políticos com o Brasil; Ali Zeidan, Primeiro-Ministro da Líbia que fará sua primeira aparição como tal na ONU; Evo Morales, Presidente boliviano, que provavelmente vai apontar alguns dedos; e Anote Tong, Presidente de Kiribati. “Kiribati, cê tá louco!?”, pode estranhar o leitor. Sim, Kiribati. O país é, junto com Tuvalu e outros estados insulares, dos defensores mais radicais de medidas emergenciais em relação a temas climáticos, já que, com a alta do nível do mar, o país está simplesmente desaparecendo! Em uma perspectiva mais regional, os Presidentes da Sérvia e da Geórgia também podem falar sobre alguns temas importantes, como OTAN, União Europeia e a proposta russa.

Espero que tenham gostado do apanhado geral.

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Para ficar informado, você pode checar a programação do debate no site da 68ª Sessão da Assembleia Geral da ONU; notícias e releases no site da Assembleia Geral da ONU; e assistir aos pronunciamentos e demais coberturas no site oficial das Nações Unidas UN Web TV.

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