Assembleia Geral da ONU – Obama

Caros leitores,

Como prometido, o terceiro post de hoje, após falar sobre Dilma e um panorama geral do dia. Este será apenas sobre a fala de Obama; amanhã escreverei algumas bobagens sobre os outros momentos do debate de hoje, abordando os outros pronunciamentos.

Caso queira assistir os mais de quarenta (é, quarenta…) minutos do discurso de Obama, o vídeo está ai embaixo. Caso prefira ler, na íntegra e em inglês, este é o link.

O discurso de Obama foi praticamente todo sobre o Oriente Médio, especialmente Irã e Síria. Em passagens menores, citou Egito e Líbia. No caso egípcio, lamentou a recente interrupção da ordem democrática no país e acenou com a possibilidade de suspender o apoio dos EUA ao exército local. Em relação à Líbia, defendeu as intervenções de 2011, afirmando que o país está melhor do que estaria se Kadafi ainda estivesse no poder.

Obama hoje, na ONU. Foto: Agência Efe

Obama hoje, na ONU.
Foto: Agência Efe

No caso da Síria, fez críticas ao regime de Assad, que teria perdido o controle do país, e defendeu a “oposição moderada”, esquecendo que ela não deixa de estar associada a uma oposição fundamentalista. Afirmou que tentar responsabilizar qualquer lado que não Assad pelo uso de armas químicas é um “insulto” e mencionou brevemente a solução com a Rússia. Então, Obama começou um recurso de retórica, em minha perspectiva, falho. Afirmou que se a ONU “não conseguir concordar sequer” com a imposição do veto ao uso de armas químicas, ao quais 98% da população mundial se subscrevem, “a ONU se mostrará incapaz de proteger até a mais básica das leis internacionais”; oras, e a ONU, ou algum Chefe de Estado, fez apologia, defesa ou “liberou” o uso de armas químicas? Ao ver sua alternativa, um ataque militar, ser repudiada, e confundir isso com apoio ao ato amplamente criticado, Obama incorre no exato comportamento que Putin criticou. Obama praticamente afirma que, se não concorda com seus meios, então, está contra ele.

Em relação ao Irã, Obama resgatou um histórico de desavenças entre os dois países, desde 1979, e afirmou que não acredita que “Esse histórico difícil de desconfianças profundas vá acabar da noite para o dia”. Ao mesmo tempo, acenou com o discurso conciliador do novo Presidente iraniano, recebeu bem suas declarações de que o Irã não desenvolverá armamentos nucleares, mas cobrou que tais declarações devem se tornar medidas concretas e colocou isso como um momento crucial para a relação entre os dois países, afirmando “Se resolvermos o problema do programa nuclear iraniano esse será um passo maior para estabelecermos uma relação melhor e de respeito”. Para ligar ambos os assuntos, sua suposta preocupação com a Síria e um gesto amigável perante o Irã, Obama, ao citar o uso de armas químicas, lembrou-se dos judeus mortos no Holocausto e de “milhares de iranianos” mortos em ataques químicos. Serei sincero agora: isso foi um comentário quase cínico. Os iranianos mortos em ataques químicos, obviamente, foram os iranianos mortos durante a Guerra Irã-Iraque. E qual era um dos principais fornecedores de compostos químicos para o governo iraquiano de Saddam Hussein, segundo o famoso relatório Riegler, do senado dos EUA? O próprio governo dos EUA.

Como Obama falou logo após a Presidenta Dilma, esperava-se algo em relação ao escândalo de espionagem mundial. Se Obama falou cinco minutos sobre o tema, foi muito. Afirmou que os EUA estão “revendo a forma como coletam informações de inteligência para reequilibrar as preocupações de nossos aliados”, mas aproveitou o ocorrido no Quênia para “lembrar” que as manchetes dos jornais lembram que o mundo ainda está inseguro. No meio disso tudo, Obama também discursou para o público doméstico, lembrando-se do “destino manifesto” dos EUA, como suposto líder mundial e que um novo isolamento dos EUA seria prejudicial apenas ao resto do mundo. Transcrevo: “O perigo não é uma América que quer tomar todos os problemas para si. O perigo para o mundo é de que os EUA, depois de uma década de guerra e de problemas domésticos, se abstenha, criando um vácuo de liderança que nenhum outro país está pronto para preencher.”. Obama, ao falar por tanto tempo, apenas reafirmando o que já havia dito em outras ocasiões, e que já tinha sido refutado ou respondido, e também ao praticamente ignorar um episódio que foi condenado pelos seus principais aliados, a espionagem invasiva, pareceu aquela pessoa que após contar uma piada malograda, começa a explicar a piada, como se a culpa fosse do outro em não ter rido. Para Obama, aparentemente, não se trata de outras perspectivas ou de talvez estar errado, mas o mundo que não o entendeu direito

*****

Acompanhe o blog no Facebook e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial.

Anúncios

4 Comentários

  • Concordo. Só que, se eu fosse presidente dos EUA, nem tocava no assunto de espionagem. Pra quê? Desde que o mundo é mundo existe espionagem. Todo país de pudesse, espionaria uns aos outros ( inclusive amigos). O que acontece, é que os EUA possuem tecnologia, verba para isso… simples assim. Putin dizendo que achava um absurdo? Um ex agente da KGB? Então. achei, como você, um discurso vacilante, até tosco… mas, assim como já me encheu a história do rato na coca cola… rsrs.. já me encheu essa história da espionagem dos EUA.. eles espionam e sempre espionavam todo mundo .. além de sempre compartilharem com o Reino Unido , Israel e às vezes com a França suas informações… não todas, não é? Se eu fosse chato, e, ampliasse o conceito vago, abstrato de Terrorismo… e aproveitasse o pronunciamento inicial de Obama sobre espionagem, logo depois do vazamento dizendo que isso era para prevenção de Terrorismo.. diria que fizeram muito bem.. afinal… o que Dilma foi na época da Ditadura? Nada mais justo que espioná-la…. realpolitik na prática….mas, não chegarei a esse ponto… um abraço.

  • Pingback: Resumo da Semana – 23/09 a 29/09 | Xadrez Verbal

  • Pingback: Especial: 68ª sessão da Assembleia Geral da ONU | Xadrez Verbal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s