Síria, dia 918

Caros leitores, este é o primeiro texto do dia de hoje. Publicarei dois textos, nenhum muito longo, hoje, então, fique atento. O outro sai no meio da tarde, espero que gostem de ambos.

Hoje, dia 17 de Setembro de 2013, é o 918º dia de guerra civil na Síria. As notícias dos últimos dias tratam tanto do conflito sangrento interno quanto do panorama internacional. Sobre o conflito interno, as fontes deste post serão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, tanto o press release de 16 de Setembro, que inclui palavras do brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, chefe da Comissão de Inquérito sobre a Síria, quanto o relatório da mesma comissão (você pode baixar o relatório, na íntegra, neste link; são quarenta e duas páginas, que incluem fotos, cópias de documentos, etc. Ele está em inglês, mas, na homepage, você pode optar por francês, árabe, espanhol, russo e chinês). Sobre o panorama internacional, podemos agradecer ao fato dos envolvidos, especialmente Obama, estarem bastante faladores.

No aspecto internacional, a notícia principal é de 14 de Setembro, em Genebra, onde o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e o chanceler russo, Sergei Lavrov, anunciaram acordo sobre o arsenal químico sírio, que será entregue para destruição, além de inspeções e entrega de inventário; além disso, estarão previstas sanções para eventuais descumprimentos de prazos e determinações, e tais sanções serão discutidas no Conselho de Segurança das Nações Unidas, ou seja, de acordo com as leis internacionais vigentes, em que uma ação militar seria autorizada pelo órgão competente, não mais um ato unilateral. Além disso, a ONU confirmou que, a partir de 14 de Outubro, a Síria será considerada parte da Convenção de Armas Químicas; o instrumento de adesão já foi assinado, ratificado e depositado.

Resgatando o citado relatório divulgado ontem, ele foi gancho para as mesmas acusações repetitivas do último mês, com EUA, Reino Unido e França afirmando que o relatório prova que a autoria dos ataques com armas químicas é do regime de Assad; Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU, teve que “lembrar” que o relatório não comprova quem seria o culpado, apenas comprova o ataque e suas consequências, e Obama afirmando, novamente, que a força ainda é uma possibilidade, mesmo com a assinatura do que pode ser o início de uma resolução política do confronto. Entender a insistente posição de Obama está cada vez mais difícil. Focar o discurso em ameaças, sanções e força quando a solução política e, mais, uma eventual ação militar legítima, batem à porta não faz sentido. Quem gosta desse discurso não é seu eleitor, isso é fato, mas, então, quem será?

Paulo Sérgio Pinheiro Foto: Denis Balibouse/Reuters

Paulo Sérgio Pinheiro
Foto: Denis Balibouse/Reuters

Agora, o mais importante, a situação interna da Síria. Cito Paulo Sérgio Pinheiro: “Por todo norte da Síria tem havido um aumento de crimes e abusos cometidos por grupos de extremistas armados antigoverno e também um fluxo de entrada de combatentes rebeldes estrangeiros”. Por favor, notem que não se trata de uma fonte síria ou russa, tampouco ele é ligado ao governo brasileiro; trata-se de funcionário da ONU, em posição no Conselho de Direitos Humanos, cuja perspectiva é, teoricamente, a mais neutra possível, que endossa as acusações sírias e as percepções geopolíticas, como a desse blogueiro, de que o conflito há muito deixou de ser apenas disputa de poder interna ou uma busca por abertura política, mas ganhou ares de guerra religiosa fundamentalista.

Indo além, o tailandês Vitit Muntarbhorn (sim, leitor, eu copiei e colei o nome, não me peça para escrever de cabeça), também membro do Conselho de Direitos Humanos e que recebeu prêmio da UNESCO, em 2004, pelo seu ativismo na área, afirmou “A questão é que esses elementos extremos possuem sua própria agenda e certamente não é uma agenda democrática que querem impor”. Qual minha intenção ao citar esses dois funcionários da ONU? Não é defender o regime de Assad, cujos crimes são analisados de forma profunda e detalhada nos links acima, mas é reforçar o que já disse antes, que não se trata de uma guerra convencional, um evento político, de A versus B, mas lembrar de que existe um terceiro elemento no conflito, o mais perigoso de todos e, de longe, o que mais se beneficiaria em caso de intervenção militar unilateral. Se “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, os EUA, ao atacarem Assad, cerrariam fileiras, de forma intencional ou não, com extremistas religiosos em um entroncamento geopolítico de grande importância. Ainda não sei dizer qual seria a solução para o conflito, mas sei qual atitude não é.

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Ainda sobre Paulo Sérgio Pinheiro, recomendo bastante ler sua entrevista para Leandro Colon, da Folha de S. Paulo. Cito aqui duas passagens que, em minha opinião, são essenciais para compreensão do conflito. Primeira, sobre uma solução diplomática: “O problema é que, do lado da oposição, é um trabalho enorme. Há muitas forças apoiando os rebeldes, que não têm interesse nessa negociação”. Sobre a presença estrangeira e uma possível vitória: “Esses Estados que estão apoiando com recursos monetários os grupos rebeldes alimentam a ilusão”.

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