História, política, memória e suas peças

Caros leitores, este é o segundo texto do dia de hoje. Publicarei dois textos, nenhum muito longo, hoje, então, fique atento. O outro está mais abaixo na página inicial.

Caros leitores,

Nas últimas semanas, escrevi praticamente apenas sobre a Síria. Como já expliquei aqui várias vezes, infelizmente não posso investir no blog, ainda, o tempo que gostaria, por isso, muitos temas passam “em branco”. Para não prejudicar o andamento dos textos sobre o conflito no Oriente Médio, tanto por mim quanto por vocês, meia-dúzia de leitores do Xadrez Verbal (brincadeira; só o post sobre as intenções da Rússia na Síria teve um ótimo número de pageviews, e eu só tenho a agradecer), publico um segundo texto hoje, em paralelo ao da Síria, que não é sobre a guerra. É sobre um elemento que influencia, e muito, a formação, tanto do conhecimento histórico, quanto das nossas percepções políticas e até mesmo aspectos pessoais. A memória.

Como talvez tenha transparecido em algumas ocasiões, como no meu Xadrez Dominical sobre a Iugoslávia, eu gosto bastante de basquete. Na verdade, gosto de esportes em geral, mas, alguns mais que outros; basquete está entre as prioridades (inclusive, estará em um post vindouro sobre a Lituânia e documentários). Caso não saibam, no dia 8 de Setembro, Oscar Schmidt, conhecido como “Mão Santa” (para desgosto do próprio, que prefere “Mão Treinada”), talvez o maior jogador da História brasileira, foi imortalizado no Hall da Fama do basquete nos EUA. Lendo o post de Giancarlo Giampietro no seu ótimo blog Vinte Um, achei curiosa a forma como ele abordou o discurso de Oscar; não apenas elogiando e comentando a homenagem em si, mas comparando suas palavras com os fatos concretos, com as incongruências explícitas.

Larry Bird, o padrinho da homenagem, e Oscar, antes da cerimônia.  Foto: NBA

Larry Bird, o padrinho da homenagem, e Oscar, antes da cerimônia.
Foto: NBA

Primeiro, devo deixar claro. Nem eu, e acredito que nem Giancarlo Giampietro, afirmamos que Oscar mentiu em certas passagens, de forma deliberada ou de má-fé. Segundo, vou desconsiderar os conhecidos aspectos do personagem Oscar, como seu estilo passional, que tanto encanta quanto desagrada. Ao contar causos de sua vida e sua carreira, em certos momentos houve um equívoco sobre um placar ali, uma data acolá, etc. Coisas normais, que acontecem, ainda mais se você considerar que ele fala de eventos de quase trinta anos atrás. E não se trata de ter uma boa memória ou não, de lembrar-se de uma circunstância, ou de esquecê-la. Trata-se de como é essa lembrança, o quê você guarda na memória, de como sua mente “processa” essa recordação. O fato é: nossa memória nos prega peças.

A memória é a matéria-prima da História. Seja ela memória material, como um objeto ou uma construção, seja a memória documental, como um diário ou ofícios do governo, seja a memória oral, como as tradições e histórias contadas de geração em geração. Aqui no texto, vamos nos ater à memória do indivíduo. Exemplos simplórios: se lermos um diário pessoal de um fazendeiro dono de escravos no sul dos Estados Unidos, escrito na década de 1860, provavelmente concluiremos que Abraham Lincoln era um homem desprezível; simultaneamente, se analisarmos cartas trocadas entre abolicionistas, no mesmo período e lugar, talvez passemos a acreditar que Lincoln era uma espécie de divindade. Parte do ofício da História é a justaposição, o conflito, entre diferentes fontes. Não se pode tomar apenas uma fonte, ou apenas uma perspectiva, como absoluta.

Em casos como esse, soma-se aos truques da memória o nosso próprio ego. As nossas memórias que importam, não as do outro, não a que discorda. Aquele programa de televisão da década de 1970, que para alguém nascido em 1994 é uma produção tosca e um programa bobo, para seu pai, que assistiu aquilo em sua infância, é o máximo; não pela qualidade, mas pela memória, feito uma bala que possa ser intragável para um adulto qualquer, mas, para você, tem “gosto de infância”. E as pessoas costumam defender essas memórias, por mais deslocadas da realidade que eventualmente sejam, com paixão ferrenha. Tais memórias fazem parte de sua identidade, justamente, de sua História. E o cenário político contemporâneo vem de nossa História coletiva, que vêm de nossa memória coletiva, que vem de uma coletânea de memórias individuais, falhas, enviesadas e que nos pregam peças.

Se a memória é a matéria-prima da História, a História é irmã da Política. A memória, seja individual ou coletiva, exerce enorme papel da formação política, seja das concepções particulares ou de uma ideologia coletiva. Novamente, vou exemplificar, com um elemento do cotidiano. Acredito que todos que eventualmente lerem esse texto conhecem alguém, normalmente mais velho, como um pai ou avó, que, ao comentar política, fala algo como “Bom era no tempo da ditadura”; ou seja, uma percepção de memória individual influencia a sua compreensão da atualidade, do que o cerca. Uma afirmativa como essa, confrontada com números, com outras fontes, ser analisada, conseguiria se sustentar? Se a memória nos engana, e faz Oscar confundir um placar, isso também não seria válido para as nossas concepções políticas?

Como já tratei aqui, estamos em um momento de transição mundial, em diversos aspectos. Inclusive aspectos naturais. Uma geração de pessoas que formou o mundo contemporâneo está no fim da vida. Isso, lenta e progressivamente, diminui as paixões que envolvem certas memórias, logo, certos assuntos. As pessoas que viveram em determinado período, ou local, ou em companhia de uma pessoa, tendem a guardar memórias que não necessariamente correspondem a uma análise fria daquilo. Na década de 1950, citar o nome de Getúlio Vargas numa conversa cotidiana qualquer seria início de, no mínimo, acalorado debate. Hoje, menos. A relação entre esses aspectos permitirá (mas ainda não permite), que a sociedade dos EUA deixe de enxergar a Rússia como um país “inimigo”, memória da Guerra Fria que influencia a situação sobre a Síria; ou que a sociedade brasileira consiga encarar de forma menos apaixonada nosso passado recente, como a ditadura de 1964.

Qualquer ser humano forma suas perspectivas e seu conhecimento com a interação, maior ou menor, com outras pessoas. Relações próximas, como com pais, irmãos, avós, obviamente exercem grande influência, uma perpetuação de memórias formadas pelo indivíduo, em uma construção da História e da política que pode estar equivocada. Não por dolo, não para ludibriar, mas por que o ser humano é assim. E aí talvez resida o maior problema; ao ouvir palavras, por mais absurdas, da boca do pai, a pessoa pode tomar aquilo como verdade absoluta, devido uma relação de afeto. Seja ao ler um diário, um documento, um blog, seja ao ouvir um causo numa mesa de bar, sempre duvide, sempre compare. E duvide da memória. Seja a do Oscar, seja a sua própria.

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Gostando ou não de basquete, gostando ou não de Oscar, recomendo assistir seu discurso na cerimônia do Hall da Fama. Engraçado, emotivo, com declarações de amor, risos e lágrimas. O vídeo incorporado está com legendas em português, basta ativar (ele falou em inglês); caso possa, recomendo assistir prestando atenção no idioma original, pois a legenda tem alguns erros.

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