Síria: Obama, Putin e truco

Segunda-feira, Nove de Setembro, Londres. Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, fala à imprensa. Afirma, em tom de ultimato, no mínimo, em tom de desdém, no máximo, que se a Síria entregasse todo seu armamento químico em uma semana, um ataque dos EUA seria evitado. Posteriormente, o Departamento de Estado afirma que foi um “argumento retórico” e que Assad não é confiável. Mas as palavras ditas não voltam e as cartas estavam na mesa.

Segunda-feira, Nove de Setembro, Moscou. Em meio à celebração pela eleição do candidato de Putin ao cargo de Prefeito da capital, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, reuniu-se com o chanceler sírio, Walid Muallem, propôs que a Síria entregue seu arsenal à comunidade internacional para ser destruídos, certamente com garantias russas no que concerne a segurança do país árabe. A Síria “saudou a iniciativa russa”. Truco.

O Chanceler russo, Lavrov, à direita, apresenta seu equivalente sírio, Muallem. Foto: Sergei Karpukhin/Reuters

O Chanceler russo, Lavrov, à direita, apresenta seu equivalente sírio, Muallem. Foto: Sergei Karpukhin/Reuters

Como já foi dito aqui, o suposto uso de armas químicas pelo regime de Assad contra os rebeldes é o principal argumento ideológico de uma intervenção dos EUA. Com a possível entrega do arsenal químico do Estado sírio para a comunidade internacional, Obama ficaria de mãos atadas. Primeiro, a Síria não faria isso sem garantias políticas e militares russas, ou seja, desconfiar de Assad significaria desconfiar da Rússia e desafiar tais garantias.

Indo além, caso armas químicas venham a ser usadas novamente na região, ficaria provada a responsabilidade dos rebeldes, que supostamente são abastecidos por Qatar e Arábia Saudita (como já tratei aqui) que são abastecidos pelos próprios Estados Unidos da América, e Assad afirmou, em entrevista exclusiva à rede estadunidense CBS, que um ataque dos EUA fortaleceria a Al-Qaeda. Finalmente, assinar e ratificar a Convenção de Armas Químicas seria um gesto de “boa-vontade” que transformaria uma possível intervenção dada como “justa” em um ato de agressão unilateral, que já não conta com apoio popular no eleitorado estadunidense.

Devido o novo desenrolar, Obama fez um pronunciamento de quinze minutos, em rede nacional, para “falar sobre a Síria” e “explicar a importância” e os “motivos que tornam uma ação necessária”. Não podemos subestimar essa mudança; Obama vinha negociando e tratando o assunto Sírio nas esferas políticas, nacionais e internacionais, e em entrevistas, não em um pronunciamento direto, longo e amplamente divulgado, aos seus governados. Vou abordar os principais aspectos, de forma resumida, mas você pode assistir o pronunciamento, na íntegra, se quiser.

O discurso de Obama pode ser separado em cinco temas. Primeiro, tentando se mostrar moderado, citou mais de uma vez Iraque e Afeganistão, e como os EUA estariam “cansados de guerra”, que não querem ser a “polícia do mundo” e se comprometendo a não envolver soldados estadunidenses no conflito, apenas um ataque militar focado. Segundo, um forte apelo emocional, mencionando diversas vezes imagens de crianças mortas, advogando pela segurança das crianças do país, como uma causa justa, para evitar imagens terríveis e lembrando até da morte de soldados dos EUA, em 1917, na Primeira Guerra Mundial, vítimas de guerra química.

Terceiro, a situação política síria. Afirmou de maneira incisiva que Assad é o responsável pelos ataques ao menos duas vezes. Reconheceu que, sim, existem grupos extremistas na Síria e que talvez eles pudessem ser beneficiados, mas que a oposição “com qual trabalhamos” (9:35 minutos do vídeo) não é assim, admitindo que os EUA tem elos políticos com a Coalizão. Quarto, não deixaria de dar recados eleitorais e de política doméstica, lembrando que tirou os soldados do país do Iraque, que como Comandante-em-Chefe da democracia mais antiga do mundo, ele respeita o Congresso, ao contrário da presidência que envolveu o país em guerra por dez anos, em clara referência ao presidente Bush filho.

Finalmente, o cenário geopolítico internacional. Coloca como “meta do século” passado o banimento de armas químicas, que culminou no tratado de 1997 que as proíbe, e lembra que a Síria não é signatária da Convenção. Citou os aliados na região, como Jordânia e Turquia, com especial veemência ao falar de Israel. Justificou uma intervenção punitiva como “segurança nacional”, pois se as armas químicas forem banalizadas, nada impedirá um outro país ou um outro ditador de usa-las contra os EUA e suas crianças. Finalmente, a partir dos 10:45 minutos, fala de sinais encorajadores na diplomacia e na possibilidade de uma solução pacífica, que continuará a tratar do assunto com Putin e John Kerry irá para Moscou na quinta-feira, e  um eventual ataque está “suspenso” caso a Síria entregue seu arsenal. Finalmente, coloca os EUA como uma “âncora da segurança global”, e que a própria iniciativa de uma intervenção que causou o recuo sírio em aceitar uma solução diplomática.

Para o blogueiro, fica evidente, em primeiro lugar, a contradição de afirmar que os EUA não quer ser uma polícia do mundo, mas é uma “âncora da segurança global”, mesmo que isso signifique o uso da força (“enforcing”); é apenas um eufemismo para o que Obama, minutos antes, refutou como papel de seu país. Segundo, a afirmativa incisiva sobre a responsabilidade de Assad, sendo que nem o relatório das Nações Unidas sobre o assunto está pronto, a Rússia entregou, meses atrás, uma denúncia sobre ataque químico por parte das forças rebeldes e a inteligência alemã, centro nervoso da Otan na Europa, teria dito que os ataques foram executados por facções radicais sem a aprovação de Assad.

Continuando, Obama critica a Síria por não ser signatária da Convenção de Armas Químicas, e cita Israel como seu principal aliado na região; apenas não menciona que, se Israel é sim signatário da Convenção, não a ratificou, o que é tão estéril quanto não ser signatário. Além disso, Israel foi classificado, pelo próprio Congresso dos EUA, como possuidor de capacidade de guerra química “não declarada”. Finalmente, a implementação da Convenção é fiscalizada pela Organização para a Proibição de Armas Químicas, que, além de não colocar a Síria como estado capaz de produzir armamento químico, ainda não iniciou a verificação do arsenal declarado em posse do Iraque; especula-se que estaria sob controle logístico das poucas tropas dos EUA ainda no país, o que só aumenta a contradição da postura ideológica moralista de Obama.

Ao se contradizer em dois aspectos vitais de sua argumentação e recorrer a um apelo para a opinião pública de seu país, Obama se afunda mais ainda em um atoleiro em que se meteu virtualmente sozinho. Após desperdiçar um dia do encontro do G20 (assunto que estou devendo um encerramento) sem ganhos concretos, manter uma postura incisiva sobre um ataque militar que não é desejado por sua população e pode auxiliar justamente facções que posam de ameaça aos seus nacionais, Obama não viu saída outra que não o apelo popular. Como a cereja no bolo, afirmou torcer por uma solução diplomática que seria fruto justo de sua insistência bélica. Não, a saída diplomática possível com especulada entrega do arsenal químico sírio não é decorrência de ameaças de ataques, mas decorrente de mais uma trapalhada dos EUA sobre a guerra civil síria, um blefe que foi trucado.

****

Como sempre falo aqui, ainda não posso investir o tempo que gostaria no blog. Por isso, além de ainda dever um texto sobre o encerramento do encontro do G20 e não ter postado ontem, não terei tempo para falar do aniversário de 40 anos, hoje, do golpe militar no Chile, que culminou na morte do Presidente Allende e na ascensão de Pinochet. Para não deixar passar em branco, recomendo o ótimo especial do site OperaMundi.

*****

Acompanhe o blog no Facebook e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial.

Anúncios

3 Comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s