Obama, Putin e prestígio

No texto de anteontem, sobre Edward Snowden, o blogueiro escreveu que restava “saber até onde o jogo de palavras, a troca de insinuações, de todas as partes, é mero jogo diplomático ou blefe. Mas é possível que todos tenham escondido suas cartas, satisfeitos em cair fora dessa mão.” Ontem, dia sete de Agosto, a Casa Branca cancelou o encontro bilateral entre o Presidente dos EUA, Barack Obama, e o chefe de estado russo, Vladimir Putin, programado para ocorrer em Moscou no dia sete de Setembro.

O motivo citado é a falta de progresso e cooperação em temas como defesas antimísseis, controle de armas, relações comerciais, assuntos de segurança mundial e sociedade civil. “Também um fator” foi a “decisão decepcionante”, segundo a Casa Branca, da concessão de asilo a Edward Snowden na Rússia. O comunicado do governo dos EUA ainda dizia que os Secretários de Defesa e de Estado (o equivalente ao Ministro de Relações Exteriores), Hagel e Kerry, se encontrarão com seus equivalentes russos em Washington amanhã.

O gabinete presidencial russo respondeu que o governo de Moscou está decepcionado com a atitude da Casa Branca, e que claramente se devia à situação do “ex-funcionário dos Estados Unidos, uma situação que não criamos”. Ushakov, conselheiro de Putin para assuntos externos, afirmou ainda que os EUA “não estão preparados” para tratar a Rússia como um “equivalente de mesmo nível” e que, mesmo que Snowden não tivesse solicitado asilo, jamais poderia ser entregue pelas autoridades russas, pois os dois países não possuem um tratado de extradição, e que os EUA “constantemente recusaram” cooperação nesse assunto. Finalmente, reiterou que o convite ainda está “aberto”.

Em breve declaração, Obama disse que Putin tem uma “cabeça da Guerra Fria”. Além disso, a declaração de cancelamento foi no dia do aniversário de cinco anos da guerra entre Rússia e Geórgia, que estremeceu profundamente a relação entre Rússia e os EUA, que apoiaram política e materialmente a Geórgia. O comunicado da Casa Branca ainda celebra avanços feitos entre os dois países durante o “primeiro mandato” de Obama, como o New START e a cooperação na Ásia Central; não custa lembrar que durante o primeiro mandato de Obama, o Presidente russo era Medvedev, não Putin. Alfinetadas, acusações, cancelamento de visita.  Mas, quais as consequências práticas dessa decisão?

A então Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, e o Presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, fazem declarações conjuntas em Tbilisi, capital da Geórgia, em Agosto de 2008.  O apoio dos EUA à Geórgia prejudicou bastante as relações do país com a Rússia.

A então Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, e o Presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, fazem declarações conjuntas em Tbilisi, capital da Geórgia, em Agosto de 2008.
O apoio dos EUA à Geórgia prejudicou bastante as relações do país com a Rússia.

Consideremos os temas citados pelo comunicado da Casa Branca. As defesas antimísseis planejadas pelos EUA no leste da Europa incomodam a Rússia desde o final dos anos 1990. O “controle de armas” se refere à situação na Síria e a venda de armamento russo para o governo sírio. Os citados assuntos de segurança mundial provavelmente se referem à expansão da OTAN ao leste europeu e a situação da Geórgia, que, além de ter se envolvido em recente conflito com a Rússia, estava prevista para receber um exercício da OTAN. Todos esses temas de agenda podem ser tratados pelos membros de gabinete responsáveis por defesa e política externa. Os mesmos políticos que se encontrarão amanhã em Washington.

Relações comerciais e econômicas? O encontro entre Obama e Putin em Moscou aproveitaria a viagem do Presidente estadunidense à Rússia, onde ocorrerá, em São Petersburgo, nos dias cinco e seis de Setembro, a reunião do G-20, reunião essa que objetiva discutir exatamente temas econômicos, como a possibilidade de uma “guerra cambial”, e contará com a presença dos chefes de Estado das nações participantes; Putin e Obama inclusos. Restam os assuntos de “sociedade civil”. Os EUA e países da União Europeia pretendem protestar contra as recentes medidas do governo russo em relação aos homossexuais e transexuais e ao tratamento da imprensa; os protestos, quaisquer que sejam, serão nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, que serão em Sochi, Rússia, perto justamente da fronteira com a Geórgia. Cogita-se até um boicote olímpico.

Resta o tema Snowden. Mas Obama e seu gabinete sabem que Putin não voltará atrás de sua decisão, pois “devolver” um asilado criaria um precedente perigoso. Sabem também que não há lei alguma, internacional ou bilateral, que obrigue ou ao menos incentive a Rússia a tomar essa postura.  O recado do Kremlin também foi certeiro: ao dizer que a situação “não foi criada pela Rússia”, explicita que Snowden procurou o governo local, não o contrário. Ou seja, mantida a visita bilateral entre Obama e Putin, com todos os assuntos que podem ser tratados em outras esferas de governo ou instâncias internacionais, seria transmitida a sensação de que Obama foi até Moscou, conversou em privado com Putin, pediu pela cabeça de Snowden e recebeu um “não” como resposta, antes de voltar para casa de mãos vazias. No fim, a atitude de cancelar a visita de Obama continua sendo mero jogo diplomático, uma maneira de manter prestígio e evitar, como se diz por lá, “lose face”.

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O comunicado, na íntegra, da Casa Branca, pode ser lido, em inglês, aqui.

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