Snowden, Obama e Putin: estando bom para todas as partes

Os leitores provavelmente sabem quem é Edward Snowden. Caso você não tenha ligado o nome à pessoa, Snowden é o whistleblower (uma tradução adaptada seria “pessoa que jogou a m. no ventilador”) do escândalo da Agência de Segurança Nacional dos EUA, denunciando (com provas) que o governo dos EUA invade a privacidade de pessoas dentro e fora de seu território, independente de nacionalidade, supostamente em nome da “segurança” e da “guerra ao terror”, grampeando telefones, invadindo emails, etc, inclusive comunicação de países “aliados”, tudo com a cooperação de grandes conglomerados de mídia e informática.

Para alguns, ao revelar aos jornalistas todo o episódio, Snowden virou ídolo; para outros, levantou o debate sobre o monopólio das comunicações e o quão próximos da distopia de 1984 nós estamos. Para outro grupo, Snowden é um traidor. Ou, então, uma ameaça. Parece enredo de filme, mas não é. Snowden, que não parece ser bobo e aparenta ser muito consciente de suas escolhas, fugiu para Hong Kong no dia 20 de Maio.

Posteriormente, foi para Moscou no dia 23 de Junho, onde Snowden “morou” na área internacional do aeroporto, enquanto buscava asilo político em algum país. O Equador sinalizou com a ideia (já abrigam Julian Assange, o fundador do WikiLeaks), a Bolívia deu indícios (o que causou um incidente diplomático grotesco envolvendo o avião de Evo Morales) mas, no dia primeiro de Agosto, Snowden recebeu um asilo temporário (renovável ano após ano) na própria Rússia, mesmo após tentativas de negociação por parte do governo estadunidense.

Nas últimas duas décadas, as relações entre Rússia e EUA melhoraram consideravelmente, comparadas com a Guerra Fria. Por isso, a decisão da Rússia oficialmente receber Snowden foi recebida com certo choque e inflamou alguns ânimos (considere que todo o alto escalão do governo dos EUA foi criado ainda sob a mentalidade de a Rússia ser uma inimiga). A Casa Branca, em comunicado oficial, disse estar “extremamente desapontada” e que o encontro planejado para Setembro entre Obama e Putin poderia ser “reconsiderado em virtude de novos assuntos” (o encontro já foi confirmado).

Os motivos políticos para a decisão russa podem ser decorrentes dos recentes “desencontros” entre os dois países, especialmente o apoio dos EUA à Geórgia em sua guerra contra a Rússia e, mais recente, o episódio do atentado na maratona de Boston, que envolveu dois chechenos, assunto sempre sensível à Rússia. Os motivos legais para o asilo foram cumpridos, diga-se (bem-fundado temor de perseguição política; a defesa de Snowden usou os recentes casos comprovados de tortura nos EUA como precedente, que foi aceito.) Correção: o caro Gustavo Afonso Costa lembra que o “bem-fundado temor de perseguição” é ligado ao refugiado, não ao asilo político. Peço desculpas pela confusão, e eu deveria saber bem disso pra evitar tal erro.

Agora, desconsiderados os desdobramentos políticos e jurídicos, raciocinando pragmaticamente, quais os efeitos da decisão? Para a Rússia, estabelece-se a imagem de um país “sensível” ao escândalo, um golpe na imagem do Ocidente (assim como no episódio envolvendo o ator francês Depardieu), além de leve tapa de luva, retrospectivo aos eventos citados anteriormente. Snowden, na Rússia, provavelmente não atrairá, nem conseguiria, muita atenção da mídia em seu exílio russo; estará sob vigilância constante, não apenas por represálias, mas porque Putin não é nenhum bobo (não custa lembrar que é um ex-agente da KGB)  e o episódio do Pussy Riot deixa claro que a opinião pública não está entre suas maiores preocupações.

O governo de Obama e seu alto escalão, por outro lado, embora possam estar furiosos com o golpe na imagem (além da imensa repercussão e constrangimento causados pelo vazamento das informações), sabe que enfrentaria uma situação doméstica muito complicada, enfrentando forte oposição da opinião pública, que se sentiu diretamente atingida. Além disso, Snowden é funcionário de uma empresa contratada pela ASN, um civil; seu julgamento certamente causaria muito mais alvoroço do que a Corte Marcial de Bradley Manning, soldado whistleblower do WikiLeaks.  E, justamente por ser um funcionário contratado, Snowden provavelmente não teve acesso às informações sensíveis que poderiam ser de interesse russo.

Edward Snowden, por sua vez, sabe que é protegido por leis internacionais. Sabe que seu destino é de conhecimento público. E, principalmente, evita as represálias e o julgamento que certamente o esperam nos Estados Unidos. Pode, eventualmente, prestar seus serviços à própria Rússia. Está ciente do preço embutido, mas, ainda é uma situação boa para ele, consideradas todas as possibilidades. Com o asilo concedido pela Rússia, Putin ganha em imagem e silencia parte do assunto; Obama se livra de um abacaxi doméstico e ainda ganha alguém para culpar; Snowden permanece em liberdade e inteiro. Aparentemente, todos ganham. Resta saber até onde o jogo de palavras, a troca de insinuações, de todas as partes, é mero jogo diplomático ou blefe. Mas é possível que todos tenham escondido suas cartas, satisfeitos em cair fora dessa mão.

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O título faz clara referência ao ex–apresentador Celso Russomano, recentemente candidato ao cargo de Prefeito de São Paulo. O blogueiro faz muita questão de deixar claro que não foi e não é eleitor do citado.

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