Imparcialidade, ideologias e o ato de escrever

Amigos, recentemente, ao comentarem um de meus textos, um amigo disse que era uma visão “imparcial”. Respondi afirmando que ser “imparcial” não existe. Mas como um texto, seja de um mero blog até a produção acadêmica, pode lidar com a parcialidade, com as ideologias do autor e dos envolvidos?

Uma ocasião histórica é relatada de várias maneiras por suas testemunhas. Não existe neutralidade no relato, pois cada autor expressa sua perspectiva particular sobre o fato no registro. Epistemologicamente, as concepções individuais influenciam toda e qualquer percepção humana, inconscientemente. Ao conjunto de concepções individuais é dado o nome de ideologia. Com o método científico, que reúne todas as informações possíveis sobre o objeto de estudo e analisa de acordo com um modelo teórico, é possível o desenvolvimento do conhecimento. É a reunião de diversas interpretações ideológicas sobre um mesmo fato que possibilita a formação do legítimo conhecimento humano.

Na comunidade científica existe o debate sobre as popularmente denominadas ciências humanas realmente possuírem valor científico. Os críticos alegam falta de precisão. Mas, se a principal característica da ciência é o método, a análise metodológica dos fatos é uma ciência. Contemporaneamente, a História é estabelecida como ciência. O historiador e teórico das relações internacionais Edward Carr, na obra Que é História?, afirma que o fato histórico é a matéria-prima da historiografia. Cabe ao historiador reunir os registros, analisar os documentos, compreender a mentalidade da origem desses registros e interpreta-los de acordo com teorias modernas. Os fatos nunca são relatados de forma neutra, mas a História pode, como ciência, compreende-los e contribuir para a formação do conhecimento.

Durante a segunda metade do século XX, a ciência e a ideologia se confundiram. Surgiu o conhecimento ideológico, consequência da polarização mundial entre dois posicionamentos filosóficos, convencionados como direita e esquerda. Durante a Guerra Fria, fatos históricos e ações políticas passaram a ter duas interpretações claramente distintas. O método científico e a análise metodológica muitas vezes foram deixados de lado, em prol da ideologia defendida. As interpretações não se sintetizavam, apenas eram confrontadas, muitas vezes de forma improdutiva. A consolidação do conhecimento humano requer a confrontação de ideias para que sejam sintetizadas, não apenas polarizadas em um debate político e ideológico.

O historiador Tony Judt, no livro Reflexões sobre um Século Esquecido, caracteriza a década de 1990 como o período do declínio do intelectual. Segundo o autor, com o fim da Guerra Fria e, consequentemente, o fim da polarização ideológica, a população comum não sente mais a necessidade de debater ideias e, além, acredita que o intelectual é um defensor de ideologias, não um estimulador de discussão e de conhecimento. O senso comum percebe a ideologia pura como algo negativo. Mas, se o relato dos fatos jamais pode ser realizado de forma neutra, o debate de ideias entre intelectuais de ambos os espectros ideológicos é primordial para a consolidação e fomento do conhecimento.

A ideologia faz parte da percepção individual de cada cidadão. As referências históricas e pessoais determinam como o indivíduo assimila o fato, e também como o relata. Mas o conhecimento humano deve ir além da individualidade. O método científico e modelos teóricos podem reduzir a parcialidade de cada relato ou perspectiva, a partir da adequação sintética de ideias, produzindo conhecimento. O debate político e o confronto ideológico também são primordiais para a elaboração e fomento de novas ideias. A consolidação de centros de excelência acadêmica contribui para a difusão e a finalidade prática do conhecimento.

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