Djama Santos, Dominguinhos e Varnhagen

Semana maldita. Dia maldito. 23 de Julho de 2013. Nesse dia morreram, aos 72 anos, José Domingos de Morais, o Dominguinhos, cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano, e, aos 84 anos, Djalma Santos, maior lateral direito da História do futebol, nascido em São Paulo, faleceu em Minas Gerais.

Dominguinhos gravou mais de cinquenta discos, divulgando ritmos regionais como o xote e o baião, estruturou a bossa nova, dominou o jazz. Foi discípulo de Gonzagão. Prêmios não lhe faltaram. Suas composições tornaram-se clássicos da música popular brasileira, como Eu Só Quero um Xodó. Pessoas madrugaram na porta de seu velório, com todas as honras do estado de Pernambuco. Centenas de pessoas homenageavam seu luto, cantando suas músicas. Foi sepultado em Garanhuns, sua cidade natal. Dominguinhos era nordestino e mestiço.

Djalma Santos ganhou duas Copas do Mundo pela Seleção Brasileira, foi eleito o melhor lateral direito em três copas seguidas, eleito por mais de uma publicação especializada o melhor lateral direito de todos os tempos. Jogou por seis anos na Portuguesa, fez parte do maior time da história do clube, ganhou dois títulos em mais de 400 jogos. Por nove anos defendeu o Palmeiras, ganhando sete títulos em quase 500 jogos. Também defendeu o Atlético Paranaense, e marcou mais de cinquenta gols em sua carreira, quando defensores pouco atacavam. E, mais raro ainda, era conhecido e respeitado por sua fidalguia: um defensor que jamais foi expulso de uma partida. Djalma Santos era negro.

Varnhagen? Varnhagen foi um dos primeiros historiadores brasileiros, nascido em 1816. A primeira obra sobre a História do Brasil é de sua autoria, História geral do Brasil, publicada entre 1854 e 1857. Diplomata competente, foi membro do Instituto de História e Geografia do Brasil. Também foi um dos maiores defensores da ideia de embranquecimento da população brasileira. Advogava pela imigração de europeus brancos, como os italianos e alemães que chegaram ao Brasil no século XIX patrocinados pelo Império devido essa iniciativa. Acreditava que, assim, a herança do negro e do índio seria “diluída” e o Brasil progressivamente se tornaria um país desenvolvido. Estudos do IHGB calculavam quando a população do Brasil seria majoritariamente branca; logo, “civilizada”.

Não pense você que esse pensamento de embranquecer a população desapareceu. Apenas deixou de ser tão literal, genético, e tornou-se cultural. Por exemplo, propaganda atual de um grande banco brasileiro, sobre a amizade de dois garotos, que um se torna jogador de futebol e, o outro, “banco”, mostra cerca de dezoito crianças e vinte e cinco adultos; apenas três crianças e dois adultos são negros ou pardos. Nenhum asiático ou indígena. E os dois protagonistas do comercial, obviamente, são brancos.

Essa semana maldita fez muita gente chorar, se entristecer. Por conta de um músico, de um jogador de futebol; pessoas relembraram suas músicas, suas jogadas. Mesmo gente que nunca os viu ao vivo, seja tocando ou jogando. Mas os admiravam pelo que simbolizavam, seja uma música de um momento especial ou um clube que une filhos, pais, irmãos. As mortes foram sentidas, mas as vidas e suas obras, admiradas e lembradas com carinho, para sempre. Mas, essa semana maldita também fez outra coisa: mostrou que Varnhagen e seu banco deveriam estar pálidos de vergonha por estarem tão errados sobre o Brasil.

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