Falência: privada, pública, social, cultural

Por gerações, de 1950 a 1980, uma das imagens de maior simbologia dos Estados Unidos da América era a de alguém dirigindo um carrão, como um Cadillac, em alta velocidade por uma via expressa, capota aberta, ao som de um rock ou de um funk, um adesivo de time esportivo na tampa do porta-luvas, carregado de fitas K7. American Way of Life divulgado pelo mundo todo durante a disputa cultural da Guerra Fria.

Sabe onde eram feitos esses carrões? Detroit. Sabe qual cidade foi fundada por Antoine de Cadillac, cara que inspirou a empresa de carros? Detroit. Sabe que cidade é o berço de Rock Around The Clock? A “cidade dos motores” que deu origem ao apelido Motown, nome escolhido para uma das mais lendárias gravadoras de soul e funk? Uma das poucas cidades que tem times nas quatro grandes ligas esportivas dos EUA, com quase vinte títulos somados? Todas as respostas, Detroit.

Estação de trem abandonada em Detroit.  Foto: Yves Marchand e Romain Meffre

Estação de trem abandonada em Detroit.
Foto: Yves Marchand e Romain Meffre

E foi Detroit que, ontem, 18 de Julho de 2013, abriu o maior pedido de falência de um município na História dos EUA. O declínio de Detroit não é tão difícil de ser explicado. Sua economia e força derivavam da indústria automotiva. Nos anos 1980, com o início da automação e da entrada no mercado americano de carros produzidos no Japão, mais baratos, a indústria automotiva local perde força. Causa desemprego. O desemprego leva à migração e ao aumento das taxas de criminalidade. Cria-se um efeito bola de neve; a cidade que tinha quase dois milhões de habitantes nos anos 1950, hoje tem cerca de 700 mil.

Áreas abandonadas pela migração, desemprego, criminalidade em alta (a revista Forbes considera Detroit a cidade mais perigosa dos EUA), decadência da indústria local. Todos esses fatores geraram uma cidade que não se sustenta mais, economicamente, e não consegue reverter a situação. Enquanto, em São Paulo, protestamos contra o aumento do transporte público e pede-se a investigação da grana que as empresas embolsam, em Detroit o transporte público é deficitário, pois não existem usuários nem para cobrir os incentivos fiscais.

No dia primeiro de Março de 2013, o governador de Michigan nomeou um interventor de emergência para cuidar das finanças da cidade. Foi o interventor, Kevyn Orr, que pediu a falência da cidade, após considerar a situação insolúvel; Detroit deve mais de 18 bilhões de dólares, e tem um déficit anual de cerca de 200 milhões de dólares. Escândalos de corrupção e de ingerência de dinheiro público também contribuem para a situação, com alguns governos recentes terem sido classificados como desastrosos.

Uma relação não deixa de ser curiosa. A crise de Detroit está ligada à crise da indústria automotiva. Em 2009, após análises da criada Força Tarefa Presidencial para a Indústria Automotora, o governo federal dos EUA injetou 25 bilhões de dólares para salvar as maiores empresas americanas, Chrysler Corporation e General Motors, sob o pretexto que as empresas geravam quase quatro milhões de empregos e que suas quebras iriam arrastar toda a economia do país. Fato. Inegável. Mas enquanto se salva o privado da falência, o ente público, o social, pede concordata. E, no caso de Detroit, a perda é muito maior, é cultural.

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Recomendo ver as demais fotos de Yves Marchand e Romain Meffre, mostrando como Detroit está tornando-se uma cidade fantasma.

Caso queira ler o pedido de falência da cidade, o documento pode ser acessado aqui.

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