O Papa é Pop

Declaração prévia: este post aborda a religião, no caso a Católica, como uma entidade histórica e política. Não aborda a instituição em sua natureza espiritual (que pode ser discutida em outros contextos), muito menos trata da fé privada e individual, que é de foro íntimo e, sem trocadilhos, sagrada.

No Rio de Janeiro, de 23 a 28 de Julho, ocorrerá a Jornada Mundial da Juventude, um dos maiores eventos católicos que existem, precedida pela Semana Missionária. Pela primeira vez, a JMJ será em um país lusófono e, depois de vinte anos, retorna à América do Sul, com um papa argentino, que estará em seu primeiro grande evento como autoridade máxima católica. Até aí, apenas fatos. A polêmica dos últimos tempos gira em torno do uso de dinheiro público em relação ao evento. Pode-se até encontrar algumas notícias dizendo que a visita papal custará cerca de R$118 milhões, e que esse dinheiro seria suficiente para construir X casas populares. À desconstrução.

Primeiro, os jornais que escreveram esse tipo de coisa foram sensacionalistas (estou em choque ao notar isso). “Epa, perae blogueiro, você é a favor de grana pública pra isso? Mas e o Estado Laico? E a igreja tem mó grana e etc”, poderá pensar o leitor apressado. Não, não sou a favor de dinheiro público para fins privados, como a religião. Mas escrever um montante de dinheiro e dizer que ele poderia ser aplicado em não sei quantas medidas populares é tão populista quanto os atos dos diversos políticos que farão de tudo por uma foto ao lado do Papa. O católico indignado vai comprar o jornal para saber mais como se defender; o não-católico vai comprar o jornal para saber mais como atacar a fé do outro. E quem ganha é o dono do jornal e seus anunciantes, só.

Vamos falar dos aspectos financeiros da JMJ como evento privado. A Igreja contratará cerca de dois mil seguranças privados, além da estrutura dos eventos que compõe a programação, compreendendo cerca de 70% dos custos totais do evento. Cada peregrino contratou pacotes que custam de cem a seiscentos reais, com diversas opções de pagamento (das 26 “perguntas mais frequentes” no site oficial do evento, oito envolvem o pagamento). Alguns pacotes incluem vale-transporte e alimentação. Hospedagem é em dioceses e igrejas, além de residências de católicos que se ofereceram. Voluntários que se dispuseram a trabalhar durante o evento pagaram uma taxa de cerca de 80 reais. Além disso, existem empresas patrocinadoras e doadores particulares (e todos têm o direito de contribuir financeiramente com a sua igreja, se assim desejarem). A Igreja calcula que, com cerca de 800 mil peregrinos inscritos, arrecadará algo em torno de trezentos milhões de reais.

Do montante total da verba pública empregada, cerca de trinta milhões de verba federal serão para ações de segurança e defesa, mobilizando um efetivo de cerca de onze mil homens, além de aeronaves, veículos e armamentos. Pode soar polêmico, mas acredito que o gasto se justifica; é um evento de largas proporções, que espera mais de um milhão de participantes e estará nos holofotes do mundo. Uma observação: muito se disse sobre esse efetivo se justificar pelo fato do Papa ser um Chefe de Estado. Esse raciocínio, a meu ver, está errado. Francisco não vem ao Brasil em visita oficial de Estado, mas como líder espiritual. Além disso, tamanha mobilização seria, sim, desproporcional para uma visita de Chefe de Estado. A justificativa está na proporção do evento, na segurança de todas as pessoas, não apenas a segurança papal (que é acompanhado, onde quer que vá, por um destacamento de guarda-costas da Guarda Suíça, diga-se).

Francisco em momento de bom gosto, com a camisa do San Lorenzo.  Foto: Olé.

Francisco em momento de bom gosto, com a camisa do San Lorenzo.
Foto: Olé.

Verbas federais, e estaduais, também serão empregadas para obras de terraplanagem na área de Guaratiba, onde será a missa campal da JMJ. No caso, o dinheiro seria justificado pelo fato de que, futuramente, sediará um loteamento do programa Minha Casa, Minha Vida, embora exista polêmica sobre o uso do terreno. Verba municipal também é utilizada, cerca de dez milhões de reais, para propaganda e divulgação da JMJ, cuja proposta foi feita por uma política ligada à renovação carismática católica. No caso, também concordo com esse gasto. A JMJ de 2011, em Madri, recebeu aporte público de cerca de 50 milhões de euros; o retorno, em gastos de turistas, teria sido de cerca de 150 milhões de euros. O site TripAdvisor calcula que um peregrino estrangeiro gastará cerca de 660 reais ao dia durante a JMJ. Um gasto de publicidade pelo município é justificado pelo retorno em turismo e consumo local.

Agora, ao problema. A verba restante, entre cinquenta e oitenta milhões de reais, de estado e município, que será gasta em transporte e em saúde relativos ao evento. Por complicações logísticas, como fechamento de avenidas, deslocamento de multidões, expectativa de muitos turistas e de um intenso fluxo entre o Rio de Janeiro e Aparecida, em São Paulo (Santuário Nacional), criar-se-ão linhas especiais de ônibus e paradas excepcionais, além de “mini rodoviárias” para ônibus vindo de outros estados com peregrinos. Também serão utilizados, excepcionalmente, muitos ônibus e vans especiais, para idosos e outros peregrinos que tenham dificuldade de deslocamento (haverá uma caminhada de treze quilômetros até a área da missa campal, por exemplo).

Toda essa operação tem um fim privado (o evento), mas será custeada pelo dinheiro público. Como operações de emergências, não serão um investimento que permanecerá na cidade, apenas um gasto. Tal gasto, na opinião do blogueiro, deveria ser custeado pelo evento. Além disso, em circunstâncias suspeitas, já investigadas pelo MP local, houve licitação de última hora (nessa última semana, faltando menos de quinze dias para o evento) da Prefeitura do Rio, para contratar 7,8 milhões de reais em serviços de saúde que estavam previstos como de encargo da organização. E, novamente, assim deveriam, pois tem um fim privado. Finalmente, existe a notícia de que a encomenda de quatro milhões de hóstias tenha sido feita com dinheiro público; no caso, um gasto sem justificativa alguma. Se a organização do evento calcula que arrecadará seis vezes a quantia de dinheiro público que, na opinião do blogueiro, será mal empregado, poderia cobrir os gastos citados.

A Jornada Mundial da Juventude é um evento de largas proporções, que trará, sim, atenção e dividendos ao Brasil. É um evento que envolve uma das figuras de maior poder político no cenário mundial, além de envolver emocionalmente centenas de milhares de pessoas. Mas, ainda assim, é um evento privado. O fato de ser um evento “evangelizador” no estado brasileiro com menor proporção de católicos provavelmente não é coincidência. Envolve uma semana de trabalho “missionário” e, em um país religiosamente cada vez mais fragmentado, ter como lema “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19) provavelmente também não é uma coincidência. Há gastos não justificados, frente à organização de um evento milionário, ligados a uma instituição riquíssima, não apenas culturamente, mas financeiramente. Há muitos gastos justificados, e sensacionalismo é feito em torno disso, que supostamente feriria a laicidade do Estado, e tal sensacionalismo é repudiável. Mas também tem gente sendo irresponsável e fazendo populismo com o nosso dinheiro.

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O blogueiro esclarece que, ao contrário do que o título do post pode insinuar, não é fã de Engenheiros do Hawaii.

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7 Comentários

  • Acho precipitado prever o lucro das Jornadas Mundiais da Juventude aqui do Brasil com os eventos que ocorreram na europa. Isso sem contar que aqui no Rj serão quatro dias de feriado. Ou seja, há a expectativa de se ganhar com o evento por um lado, repito, expectativa, mas com certeza muitos segmentos vão deixar de ganhar ou terão prejuízo.

    Ainda acho que no final, noves fora, é pouca gente ganhando às custas dos contribuintes que não concordam com a injeção do dinheiro público nesse evento. Se sou contra a quantidade absurda de dinheiro investida no futebol, não posso ser favorável agora. Acho que a igreja é que deveria arcar com todos os riscos dessa empreitada.

    • Caro Leonardo; precipitado sempre é, afinal, é uma projeção.

      Sobre o fato de ser declarado feriado, sinceramente, não sabia disso. Obrigado por me avisar.

      E sua opinião faz sentido, é coerente. Um abraço

  • E a FAB fazendo as vezes de UPS, trazendo o papamóvel? Mais um uso de dinheiro público indevido. Nem que o Papa viesse como representante do Vaticano, para tratar de assuntos de Estado, a FAB deveria fazer esse transporte. Imagina se da próxima vez que o Obama vier pra cá, a FAB tiver que trazer tudo o que um presidente dos EUA leva em viagem! hehehehe

  • O Papa não é pop, reduzir a JMJ à um evento comercial onde a lógica de mercado investimento e taxa de retorno é uma opção política para mim, simplifica a analise da realidade, fragmenta a mesma, tornando conveniente e mais cômoda a sua defesa’. Olhando a realidade por um único espectro inverte-se a realidade, aquilo que numa analise mais ampla talvez não fosse justificável e defensável, numa analise micro torna-se plenamente justificável e vantajosa. A JMJ não é apenas um grande show, envolve questões políticas, econômicas e sociais que se arrastam desde o fim do Império com grande impacto ainda hoje em nossa sociedade que se colocadas no âmbito da discussão ampliaria provavelmente as várias possibilidades colocadas. Não é discutir também apenas se é certo ou não o Estado investir num evento privado, existem situações em que fragmentar a analise não é uma opção se queremos ter uma realidade mais próxima do todo. Um abraço Felipe.

    • Caro Alexandre, concordo plenamente com você, mas atento que a proposta do texto era discutir os gastos e investimentos públicos, por isso o corte. Um abraço.

      • Felipe eu entendi plenamente por isso eu disse que eu vi no seu corte uma opção política que inevitavelmente direciona o debate. Dentro do seu corte eu penso que o investimento público não deve basear apenas no plano da lógica do mercado ou isso não é transferir uma lógica privada para o que é publico? Interesse público este que é plural? Um abraço mais uma vez pelo blog, um bom espaço para debater ideias e divulgar informações de forma saudável, um abraço.

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