A Iugoslávia na União Europeia – Parte 2

A Iugoslávia na União Europeia – Parte 2

Caros leitores, escrevi um texto grande, bem grande, sobre esse tema. Como não sei se ficaria apropriado para o blog, e há uma preferência por textos menores, decidi cortar o texto em três (talvez quatro) partes. A primeira parte já foi publicada. Espero que gostem, tanto do texto, quanto do arranjo.

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Entre os, hoje, seis países independentes que constituíam a antiga Iugoslávia, existem quase dez pendências fronteiriças, mais a província semi-autônoma de Kosovo, cuja situação é indefinida. A particularidade da região dificulta soluções negociadas. Por exemplo, o Brasil consolidou suas fronteiras a partir de diversas negociações diplomáticas, a maioria pelo Barão do Rio Branco. Mas isso foi facilitado, essencialmente, pela ausência de conflitos étnicos e religiosos, ou um histórico de conflitos nacionalistas, ao contrário da realidade balcânica, onde uma negociação poderia ser encarada como uma derrota, concedida a um inimigo histórico.

A Iugoslávia existiu de 1918 à 1943 como uma monarquia, e de 1943 à 1992 (oficialmente), como uma república federativa socialista. Compreendia nove grupos étnicos majoritários, além de outras dezessete minorias, divididas em seis unidades federativas, com três idiomas oficiais. Religiosamente, três grandes comunidades estavam representadas na Iugoslávia: cristãos ortodoxos, principalmente na Sérvia; católicos, principalmente na Croácia; e muçulmanos, principalmente na Bósnia. Além desses, havia grupos de ciganos, judeus e cristãos protestantes. Uma miríade étnica, nacional e religiosa. Isso explica a complexidade da situação geopolítica atual, e as dificuldades a serem enfrentadas para a entrada de todas as ex-repúblicas iugoslavas na União Europeia.

Mapa demográfico da Iugoslávia quando do início do processo de dissolução, em 1991

Mapa demográfico da Iugoslávia quando do início do processo de dissolução, em 1991

Curiosamente, esse sentimento nacional que causou a dissolução da Iugoslávia e gerou traumas, pessoais e políticas, que perduram, é também a origem da união desses povos. Resumidamente, no século 19, intelectuais e políticos croatas, no chamado Movimento da Ilíria (região da atual Croácia), defendiam uma adaptação do pan-eslavismo russo. Um pan-eslavismo do sul, daí o nome do país, “jugo”, sul, “slavia”, terra dos eslavos. Esse conceito teria duas principais finalidades. A primeira, livrar as diversas nacionalidades e grupos étnicos de domínios estrangeiros, como os impérios Austro-Húngaro e Otomano. A segunda, de manter essa independência pela união de países que, sozinhos, seriam fracos perante outras potências estrangeiras. Com o crescente nacionalismo do século 19, e o desmanche do “homem doente da Europa”, como era conhecido o império turco no início do século 20, e a derrota do Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial, o projeto tornou-se possível e, em primeiro de Dezembro de 1918, foi criado o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, conhecido coloquialmente como Iugoslávia. Em 1929, a troca de nomes ocorreria oficialmente.

Originalmente, o reino compreendia ex-territórios do Império Austro-Húngaro, mais os reinos que eram independentes até o início da Primeira Guerra, Sérvia e Montenegro. O poder foi dado à dinastia que governava a Sérvia, e o primeiro rei da Iugoslávia foi o sérvio Pedro I. Seu filho, Alexandre I, tomaria decisões que mudariam o rumo da região, cujos efeitos são sentidos até hoje e objetos dos textos do blogueiro. Em 1930, Alexandre I torna-se ditador, outorga uma nova constituição, com poderes executivos plenos para o rei, e altera a balança de poder interna do reino em favor da Sérvia. Algumas das principais lideranças políticas croatas buscam o exílio, e pregam pela separação croata. Movimentos dissidentes também surgem na Macedônia. Finalmente, são criados movimentos de resistência armada. O de maior impacto será a croata Ustaše (pronuncia-se ustashe), que, em 1934, tomará parte no assassinato do rei pelo ativista macedônico Veličko Kerin.

O assassinato do rei causa uma crise de sucessão, com o país governado pelo regente Paulo, primo de Alexandre, pois seu filho mais velho ainda era um menor. Além disso, a ascensão do fascismo na década de 1930, a tensão entre croatas e sérvios e o início da Segunda Guerra Mundial plantarão as sementes da divisão do país e do ódio interno. Esse será o assunto do terceiro post. O quarto, e último, texto trará as conclusões possíveis do cenário contemporâneo europeu em relação com as antigas repúblicas iugoslavas.

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Para a melhor compreensão do fenômeno dos nacionalismos, o blogueiro sugere uma leitura rápida de um livro pequeno, Nações E Nacionalismo Desde 1780, de Eric J. Hobsbawm

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assinaturaFilipe Figueiredo é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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