FHC na ABL

Ontem, quinta-feira, 27 de Junho, o sociólogo e ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso foi eleito como “imortal” da Academia Brasileira de Letras. Choveram críticas, como sempre. Basicamente, dois eixos principais de críticas. O primeiro, de uma desvalorização da Academia Brasileira de Letras, que não cumpriria os rigores de excelência que prega e teria se tornado mera politicagem. O segundo tipo de crítica é que é um momento inoportuno para nomear um político, mesmo que ex-Presidente, ainda mais ligado à oposição do atual governo. Soaria como partidarismo, campanha, etc. Mas essas críticas são injustas no caso específico de Fernando Henrique Cardoso.

Existiram duas correntes de pensar em como a ABL deveria ser. A original, de Machado de Assis, seu fundador, como uma academia estritamente literária, de alta cultura, desprendida da literatura e das artes populares. Posteriormente, Joaquim Nabuco a reinventa, sugerindo a maior integração da ABL com a sociedade, para possibilitar que a ABL tenha influência mais abrangente na sociedade. Para isso, deveria incorporar elementos não necessariamente da alta cultura. Ao analisar a trajetória da ABL e seu estado atual, é nítido que a perspectiva de Nabuco prevaleceu, o que explica a inclusão de membros fora da alta literatura e rebate a primeira crítica à escolha de FHC como “imortal”.

Politicamente, é claro que FHC sempre será visto como figura delicada, que desperta diversas reações. Mas sua escolha para a ABL não foi feita de ontem para hoje. É um mero desencontro que sua eleição seja simultânea ao momento delicado que o país passa. Além disso, é autor de vasta obra acadêmica e política, foi professor em diversas universidades no exterior, além de professor emérito da Universidade de São Paulo. Finalmente, recebeu o Prêmio Kluge, equivalente, nas ciências humanas, ao Prêmio Nobel (que nunca foi recebido por um brasileiro. O físico César Lattes foi o que chegou mais perto). Sua vasta obra e reconhecimento qualifica sua escolha, justificada pelo contexto acima.

A crise de legitimidade que a ABL passa nos últimos quinze anos se deve muito mais a nomes como Merval Pereira, Ivo Pitanguy, José Sarney (esse último sim, escolhido em um contexto político atribulado). Nomes como Paulo Coelho podem ser questionados pelo seu valor literário, mas sua obra está ali, é perene e possui admiradores em todo o mundo. Mas os citados no início desse parágrafo, mal possuem obras literárias ou culturais (ou seja, desconsiderando obras técnico-científicas). As críticas que Fernando Henrique Cardoso sofre não fazem dele um exemplo ou contribuinte do desgaste da imagem da Academia Brasileira de Letras. Fazem dele um alvo.

*****

Acompanhe o blog no Facebook e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação.

Anúncios

2 Comentários

  • Concordo plenamente com o texto. A ABL só consegue ser notada pela população em momentos assim, e, pior, não por sua excelência e nem pela contribuição ao cenário literário nacional, mas somente pela curiosidade de seus “imortais”. A continuar assim, passaremos a duvidar da imortalidade da própria ABL.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s