Política na lição de casa

O post de hoje ainda não será sobre o panorama nacional dos protestos. E, seguindo a sugestão da cara Leila Ferreira, será mais curto. Não que eu ache meus textos lá muito longos, mas, críticas construtivas são sempre válidas. O raciocínio de hoje é simples: falta educação de Política no Ensino Médio brasileiro. Não, não falo de política partidária, não falo de panfletagem. Falo de ciência política, de teoria do Estado, de um conhecimento constitucional mínimo.

Por que digo isso? Especialmente pela falta de foco vista em vários manifestantes, tanto aqui em São Paulo quanto em outros locais. Posições políticas, preconceitos, oportunismos, posturas partidárias, não me refiro a nada disso. Ainda. Refiro-me ao cara que grita “Fora Dilma” num protesto pela melhoria do transporte urbano. Ao criador de uma petição online pedindo o impeachment da presidenta. Não se trata necessariamente de defesa da atual presidenta. Repito, o problema é que boa parte da população tem conhecimento precário sobre o funcionamento do próprio país e da política como um todo.

Como a chefe da nação pode, especificamente, ser cobrada pela melhoria do transporte de um município? São Paulo é um fenômeno urbano e econômico gigantesco, como já tratei antes. Mas, ainda assim, é um município, no mesmo patamar federativo de Nova Odessa, interior de São Paulo. Cobremos o prefeito e o governador, oras. No caso do governador, pelo fato da capital ter transportes gerenciados pelo estado, como o Metrô. Você direcionar seu protesto a uma determinada figura política desconexa do problema específico, além de inútil, enfraquece a legitimidade do seu próprio protesto.

Além disso, impeachment? Via petição online? Pra resumir de forma bem resumida, impeachment é um mecanismo do equilíbrio entre os três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, e um balanceia o outro. “A única maneira de regular o poder é com outro poder”. Pois bem, no ordenamento jurídico brasileiro, impeachment não começa com petição online. Não é justificado por “estou bravo com a Dilma” ou “estou descontente com o busão”. É um procedimento do Legislativo. Baseado em crimes previstos no artigo 85 da Constituição Federal.

Você pode odiar o seu prefeito/governador/presidente, ou o partido dele. Você pode estar descontente com tudo do referido governo. Mas o caminho do impeachment é pelo seu representante no Legislativo, pela pressão política e, especialmente, pela existência de provas dos crimes citados. Qualquer coisa fora disso, ou não está de acordo com o jogo democrático, ou é infantil. Quem assina petição online de impeachment deve acreditar até hoje que, com mil compartilhamentos, o Facebook vai doar um batmóvel para famílias carentes.

Claro que, além da ignorância política, existem outros elementos, como o autoritarismo e o messianismo, ainda presentes na sociedade brasileira. Tais fatores culturais, caso um dia desapareçam, ainda demorarão a serem diluídos o suficiente. Não podemos ignorar a existência desses elementos. Mas, ao contrário desses, a ignorância política tem solução de curto prazo. A sala de aula.

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13 comentários

  • Que falta faz o ensino de OSPB – Organização Social Político Brasileira no ensino básico, e EMC – Educação Moral e Cívica no ensino médio. Tanto tempos afastado destas séries básicas pegunto o seguinte ainda são lecionadas estas disciplinas atualmente?

    • Caro Henle, não, não são lecionadas. Mas elas possuiam um outro formado, extremamente nacionalista e limitado (o termo “moral” é subjetivo, ao meu ver). Na minha opinião, o ideal seria uma reciclagem dessas, não o mero resgate. Um abraço.

  • Puxa Filipe, na boa, você precisa ser apresentado pr’uma Folha, um Estadão e seus portais. Seus textos (agora mais concisos), são de uma elegância e bom senso que, meudeusdocéu, tem muita traíra grande em jornalão que passa ao largo da clareza assertiva do seu pensamento.
    A partir de hoje, seu blogue será leitura obrigatória para essa velha amiga que te escreve.
    Sensacional! Irretocável!!

  • Marcelo Kaczorowsky

    Muito bom! Meu único medo é que essa educação política se tornasse tão tendenciosa como foi o ensino religioso que tive na rede pública que se limitou a me “ensinar” a ser cristão.

    • Caro Marcelo, acredito que é mais plausível a educação política ter um conteúdo programático, assim como todas as outras matérias, do que o ensino religioso, que é subjetivo por natureza. Um abraço.

  • Filipe, concordo com o que vc escreve, só que o discurso, correto e inteligente, ao meu ver, fica um pouco incoerente quando uma das líderes do movimento, ao se deparar com cálculos de custos, orçamentos, gastos, diz que “a questão não são números, a questão é política”!!! Você tem insistido que não há outras causas no movimento, apenas a redução dos 20 centavos (números, portanto) e não interessava a politização partidária e ideológica no ato… também afirmou, desde o princípio, que os vândalos e criminosos que agrediam e violavam o patrimônio não representavam a maioria, eram descolados da causa e do movimento. pois a mesma moça disse que as pessoas que vandalizaram o centro de São Paulo o fizeram pelo descontentamento com a tarifa de 3,20 (relacionou-os à causa) e ainda que o movimento ira continuar para que eles não sejam responsabilizados penalmente (relacionou-os com o movimento). E, depois do anúncio da redução da tarifa, disse que as manifestações continuarão, agora reivindicando a tarifa zero (danem-se os números, o orçamento, a arrecadação e essas coisas que o ordenamento jurídico brasileiro obriga a levar em conta – parecido com seu comentário sobre o fora dilma), reivindica também a reforma agrária, a reforma urbana, o fim do latifúndio no Brasil… será que a causa já não está politizada partidaria e ideologicamente? Resumindo, eu concordo com tudo que você escreveu, Filipe. Só falta explicar isso aos líderes do seu movimento.

    • Caro Eduardo, obrigado pelos elogios. Quanto aos aspectos de reforma agrária, latifúndio, já respondi no seu outro comentário. Alem disso, não posso ser acusado de incoerência se a comparação com o meu texto são palavras de outrem. Finalmente, o movimento não é meu rs. Um abraço!

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