Adjetivo nosso de cada dia

Adjetivos são palavras variáveis que acompanham um substantivo, exprimindo algum atributo. São partes importantíssimas da comunicação, seja escrita, visual ou oral, e seu uso é inevitável. É usando um adjetivo que você descreve pessoas, comidas, livros, basicamente, tudo com o que você se relaciona. Adjetivos são, também, uma praga. Disfarçam (ou, explicitam) preconceitos, transformam tópicos essenciais em uma superficialidade estéril. Radicaliza e agride, invés de ponderar e confrontar ideias. Um argumento é mastigado pelos adjetivos, até o ponto de ser tornar uma papinha fácil de ser digerida, mas desnutrida. O adjetivo é, repito, parte vital da comunicação, seu uso é inevitável. Mas a adjetivação em excesso, que rotula e (des)qualifica, é a característica principal da comunicação rasa, especialmente na sociedade pós-2008 (num post vindouro, explico o motivo dessa data como referencial).

Tomemos alguns exemplos da praga do adjetivo. Celso Furtado foi um dos maiores economistas do século XX. (Não irei me alongar sobre sua obra aqui, pois não é o propósito desse texto, mas, caso o desconheça, recomendo pesquisar, ou escrever para o blogueiro via email, ajudarei no que puder.) Como qualquer intelectual, sua obra terá admiradores, detratores, discordantes, etc. A produção intelectual pede, mais ainda, necessita, de interação. Um crítico pode citar pontos da produção de Celso Furtado que discorde, dar outra perspectiva, falar que está errado, comparar com outros dados, ou outra abordagem metodológica. Só não pode dizer “Ah, é tudo baboseira de um paraíba metido a comunista”. Uma produção de mais de vinte livros é reduzida a três adjetivos: baboseira, paraíba (uma forma pejorativa e preconceituosa para se referir a nordestinos no geral) e comunista (novamente, empregado de forma pejorativa). Não há argumentação, não há encontro de ideias. Coloca-se um rótulo, presume-se uma “falta de qualidade” derivada desse rótulo e o debate jaz espancado ali no canto.

No cotidiano, basicamente tudo se reduziu a adjetivos. Especialmente quando se fala de política. Infelizmente quando se fala de política. O exemplo acima foi proposital, já que Celso Furtado atingiu um patamar raríssimo; você pode discordar de tudo que ele diz, mas ainda assim o respeita. E quando não existe essa premissa? Oras, é só assistir um pouco de televisão, abrir um jornal, navegar meia hora pela internet. Outros exemplos: a cobertura dos recentes protestos, seja em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, sejam pelo transporte coletivo, sejam pelos gastos referentes à Copa do Mundo. A informação é sempre acompanhada de uma carga exagerada e virulenta de adjetivos. Lembra um narrador de boxe. Nesse “córner”, vândalos-baderneiros-sem-causa-que-são-massa de manobra. No outro lado, cidadão de bem-ordeiro-honesto-protegido-pelo-rigor-da-lei-e-da-PM. Ou então, dependendo do lugar que você procurar a informação, o pugilato será outro. De calções cinza, o reacionário burguês alienado e sua brutal e despreparada polícia enfrenta a pacífica e ordeira massa de inocentes intelectuais. Vejam, as quatro definições podem estar corretas. Atentei para isso no texto abaixo; a violência policial, a violência dos manifestantes, a exploração do soldado, a tranquilidade da manifestação, o cidadão que apoiava a manifestação, o cidadão que se enfurecia parado no trânsito. Não serão adjetivos em abundância que vão construir um debate. Muito menos uma solução.

Agora, a pior parte. As pessoas gostam desse discurso. Compram esses rótulos, se lambuzam em seu conteúdo e pedem mais. Hoje, não existem cidadãos que buscam informação. Existem clientes. O cara quer ler/ouvir algo, então o jornalista/colunista/blogueiro vai escrever/dizer exatamente aquilo. E ai dele se não o fizer! E não digo isso pensando na hierarquia, em obedecer aos chefes, algo assim. Afirmo isso me referindo justamente ao cliente. Ele ouviu o que não esperava? Então, o outro que “virou pelego”, “é reaça”, “foi comprado pelo PT” e perde a audiência (ou clientela). Interesses existem, especialmente nos grandes conglomerados de mídia? Sim, sem dúvida. Mas esses interesses são expressos justamente nesse monte de adjetivos e rótulos! Então, quando o colunista escreve o que você quer ler, com todos esses termos que atacam e desmerecem, não argumentam, existe algum interesse que orquestra aquelas palavras! O historiador Tony Judt, em seu livro “Reflexões sobre um século esquecido”, afirma que, com o fim da Guerra Fria, o debate intelectual foi relegado à segundo plano, as ideias foram reduzidas ao máximo e criou-se a noção de um “pensamento vencedor”. Existe um ditado, “amigo de verdade é o que te diz o que você não quer ouvir”. Com um “formador de opinião” (termo pretensioso, mas o ignorante aqui não conseguiu pensar em outro), é mais ou menos a mesma coisa. Ele vai escrever não necessariamente o que você quer ler, mas o que você não quer. Mas com argumentação. Que você não necessariamente vai concordar, mas vai, e ai está o essencial, te fazer pensar.

O uso de tanto adjetivo leva a outro fenômeno, esse mais disseminado. O da polarização. Um filme só pode ser “legal” ou “chato”. E o que acha legal vai querer convencer o outro de que não é chato, e vice-versa. Muitas vezes sem nem assistir o filme. E estou me referindo a entretenimento mesmo, não apenas política ou “alta cultura” (até porque “sommelier de filme” é um dos tipos mais insuportáveis). É uma necessidade feroz de se auto-afirmar, de desqualificar o outro de acordo com os seus próprios rótulos, de evitar o novo. Uma polarização pré-adolescente, de “se você não está comigo, então, está contra mim”. Ninguém precisa se interessar por um estilo de livro ou por um diretor de cinema. Ninguém tem paciência de assistir filme-cabeça ou documentário todo dia, entretenimento é bom e eu gosto. Mas não precisa simplesmente rotular, rejeitar e tentar convencer o outro de algo que desconhece. Essa polarização cotidiana leva a uma verdadeira preguiça. Preguiça de ler mais, de ler coisas novas, de ler coisas diferentes. De ler coisas que eu discorde. É essa preguiça cotidiana, aparentemente inofensiva, que faz a clientela do veículo de comunicação descrito anteriormente.

Uma das primeiras coisas que aprendi na faculdade foi que ao me deparar com um texto, qualquer texto, deveria fazer umas perguntas. Quem? Quando? Por quê? Pra quem? Onde? A proliferação de adjetivos e rótulos, primeiro, disfarça as respostas dessas perguntas. Segundo, cria o hábito de não se fazer mais essas perguntas. A palavra é aceita e repetida, sem assimilação, sem reflexão. Sei que parece algo maçante e aborrecido, falando assim. Mas é uma mera questão de hábito. De se educar (ou re-educar). Treinar. Como? Lendo. Pensando. Lendo. Pensando. Lendo e pensando. Ler e pensar. Leia e pense. O conflito de opiniões e argumentos é absolutamente vital para o crescimento pessoal, intelectual e social. Mas não tome adjetivo por ideia, falácia por argumento, rótulo por conclusão. Desconfie de qualquer texto que se encaixe nesse padrão, mesmo se concordar com ele. Na verdade, se você concorda e gosta de muitos textos assim, desconfie de si mesmo. Agradeço pela paciência de ter lido até aqui. Agora, ao terminar de ler esse texto, verifique se não há nenhum acúmulo de água pela sua casa, ajude a acabar com a praga da dengue. E ajude a acabar com a praga do adjetivo.

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Ps: O blog deixa explicito que nenhum adjetivo foi maltratado ou ferido na confecção desse texto.

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4 Comentários

  • Excelente. Lembrei-me de meus tempos de acadêmico em Ciência$ Econômica$ lá pelos idos de 1996/2000. Se mencionasse Maria da Conceição Tavares, seria um revival daqueles tempos para mim!

  • Tenho adorado seus textos, embora enormes para a internet (experimente, quando a paixão diminuir, enxugá-los um pouco). E sim, somos o que lemos… mas a maioria não lê!, e isso não é privilégio da sua geração, nem da minha.
    Ontem recebi por e-mail um refrão de música explicitando o que um amigo sente em relação as passeatas e tudo o mais. Ele, que brinca que perdeu a virgindade na ditadura, ‘perdi as unhas pra manicure do exército dando o rabo prum cabo de vassoura’, mandou-me isso:
    Presente, Passado (Isabella Taviani)
    “Há descaminhos em meus passos,
    uma sombra que abraço,
    um presente, um passado.
    Uma vontade tamanha de não ter mais vontade.
    Não admiro os covardes mas agora… É tarde!”

    Ele passou pelo Largo das Batatas lá pelas 16h. Olhou, olhou e voltou pra ver tudo pela Globo. Envelhecer é mesmo uma merda! Mas eu teria ficado…

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