Um tweet de Eli Vieira e as revoluções russas

Alguns meses atrás, alguém com um perfil que eu nunca tinha interagido veio “refutar” um tweet (não era nem um texto, eram 140 caracteres) meu sobre o caso do funcionário demitido da Google e uma relação com determinismo biológico. Acusações, respondi, não dei combustível para o cara e vida que seguiu.

Marcaram minha página, Xadrez Verbal, numa publicação dele no Facebook (aparentemente o perfil dele sumiu, só achei uma fanpage), em que ele criticava o pessoal “da divulgação científica”, como do Science Vlogs, por serem “politicamente corretos” e não terem defendido o engenheiro da Google. Falaram que era eu que fazia o Nerdologia de História e deve ter sido daí que ele veio me procurar para, em bom português, arrumar treta. Igual justiceiro social em busca de lacração.

A partir dai que eu soube quem era ele, chamado Eli Vieira. Pois bem, hoje (ontem, para os preciosistas), ele tuitou uma “correção” ao Nerdologia de roteiro e locução meus sobre as revoluções russas de 1917. Até aí, grandes coisa. Outra pessoa me marcou, eu respondi um simples “não”. Veio o Eli Vieira, já demonstrando mágoas pela discussão anterior e passou a meia hora seguinte dando chilique, criando espantalhos e até tentando regular o que é ou deixa de ser estudado em uma graduação de História. Os tweets estão lá no perfil do Xadrez Verbal. Após, ele finalmente disse para eu explicar o que estaria errado em seu tweet.

Pois bem, Eli Vieira, sobre sua “correção”. Falei que você errou dois conceitos e um erro factual. O factual foi relacionar o termo bolchevique ao “parlamento” (“os leninistas eram minoria no parlamento”). A origem do termo bolchevique se dá no Segundo Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo, em 1903. Um congresso do partido, que, na prática, estabelece o futuro Partido Comunista da URSS. Sem relação com a Duma russa. Inclusive, antecede em três anos a primeira constituição da Rússia. Em 1903, sequer havia parlamento.

O primeiro erro conceitual foi “o termo “bolchevique” era uma mentira, os leninistas eram minoria”, já que, bolchevique, em russo, significa “maioria”. A origem do termo se dá na votação sobre como deveria ser definido quem era integrante do partido ou não. A proposta de Lênin, de revolucionários profissionais (“participantes”), contra a proposta de Martov, de criação de base (“associados”). Inicialmente, a proposta de Lênin foi derrotada, por 28 a 23 votos.

“Oras, então, os seguidores de Lênin não eram maioria mesmo!”. Não, pois até o fim do congresso do partido, sete integrantes, todos tendo votado com Martov, sairiam do partido. Cinco da Federação Trabalhista Judaica e dois que discordaram de como deveria ser a representação do partido. Por isso, a proposta de Lênin foi vencedora, e a terminologia das facções foi acordada por Lênin e por Martov, que aceitou ser o líder dos mencheviques, “minoria”. Ou seja, não é uma “mentira” sobre bolcheviques não serem a maioria quando do termo, primeiro pela dissidência criada, segundo pelo acordo interno entre as duas facções do partido, adotando, em consenso, a terminologia e que romperiam apenas mais de uma década depois.

O outro erro conceitual do tweet de Eli Vieira está em “e o que fizeram foi um golpe”, que, posteriormente, foi defendido por ele como “minha opinião” e com um link do Google Acadêmico. A diferença entre golpe e revolução já foi explicada aqui nesse espaço algumas vezes: em texto, em vídeo e no Nerdologia sobre a Proclamação da República no Brasil. Sendo objetivo, o que ocorreu em Outubro/Novembro de 1917 na Rússia é considerado uma revolução, e não um golpe, pois, primeiro, não envolveu o aparato do Estado (em maiúsculas) reconhecido internacionalmente, como a alta cúpula militar ou dirigente do país (no caso, seria a Duma e o Governo Provisório). Segundo, os eventos criaram uma nova realidade: nova estrutura política e jurídica, nova bandeira e símbolos, novas relações com o exterior, etc. Não há absolutamente nenhuma continuidade com o Estado anterior (nem mesmo territorial, como a guerra civil vai mostrar). Caso fosse apenas um dos dois casos, ainda poderíamos discutir qual o conceito mais apropriado, mas os eventos em questão unem os dois aspectos mais importantes sobre diferenciar um golpe de um revolução.

É isso, Eli Vieira. Espero ter ajudado.

Aviso: Usei meu site como mídia para poder escrever um texto sem preocupação de tamanho ou links, apenas por isso. Este texto não será publicado nas redes sociais do Xadrez Verbal a não ser como resposta direta ou quando necessário, tampouco será colocado em destaque na home do site. 

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2 Comentários

  • O Eli Vieira é uma pessoa muito inteligente, por isso defendo a teoria de que um tal de n4Nd0_m0uR4 hackeou a conta dele no twitter. Vou explicar meu ponto:
    1. Começou reclamando do politicamente correto
    2. Deu pitaco em uma área em que é leigo
    3. Forçou um revisionismo histórico
    4. Usou analogias sem sentido
    5. Usou fontes obscuras que contrariam o consenso acadêmico
    6. Defendeu que só essas fontes eram “boas”
    7. Quando teve seus erros apontados, disse que foi mero malabarismo semântico
    8. Chamou o coleguinha de doutrinador marxista

    Claro que esse comentário não deve ser levado à sério, mas de qualquer forma, ou o Eli está sendo carregado no colo por Dunning-Kruger, ou precisa implementar com urgência a verificação em duas etapas no twitter.

    #pas

  • Pelo pouco que conheço desse rapaz, o melhor é ignorá-lo, que é o que ele mais detesta.

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