Pratique a antropofagia no Halloween

Hoje, 31 de Outubro, celebram-se, nos países de língua inglesa com influência celta, o Dia das Bruxas, ou Halloween no original. A data tem registro de quase dois mil anos como uma prática cultural, uma mistura de tradições católicas com tradições celtas, como várias outras datas do folclore europeu e norte-americano. Resumo. Na mitologia celta, o dia equivalente ao 31 de Outubro era o dia do festival de Samhain, que marca o fim da época das colheitas. No calendário católico, o dia Primeiro de Novembro é o Dia de Todos os Santos. Para “arrefecer” uma celebração pagã na véspera de uma data cristã importante, algumas restrições foram impostas ao festival de origem celta; com a mistura dos antigos elementos celtas com aspectos cristãos, inicialmente para “disfarçar” o antigo festival na véspera (evening) do Dia de Todos os Santos (All Hallows), acabou surgindo a nova celebração popular, o Halloween (All Hallows Eve).

No Brasil, o dia 31 de Outubro é o Dia do Saci, de acordo com a Lei Federal 2.479. A explicação do Dia do Saci? Pois é lei. E só.

Caro leitor, note a diferença de tamanho dos parágrafos e das explicações. Você pode perguntar qual o motivo da lei que instaura o Dia do Saci. Boa pergunta. A resposta? Instaurar uma festa popular brasileira no dia em que começaram a celebrar uma festa “importada”. Duvida disso? Pode acessar o link da lei e ler. Existem leis similares no Estado de São Paulo e em diversos municípios.

A comemoração do Halloween no Brasil começou nos anos 1990. Dois motivos principais podem ser apontados. O primeiro é a explícita influência da cultura dos EUA, onde a festa é muito popular, em filmes, seriados, músicas, etc. O segundo motivo é a celebração, na época tímida, da festa em escolas de idioma, como forma de integração entre alunos, funcionários e professores, além de uma maneira didática e participativa dos estudantes aprenderem não apenas a gramática fria, mas também a cultura expressada no idioma ensinado. O primeiro motivo não pode ser censurado, já que a cultura é orgânica, ela influencia e sofre influências. Ninguém condena a influência do jazz na Bossa Nova como um “estrangeirismo”. O segundo motivo é legítimo, seja por razões de aprendizado, ou apenas como uma atividade lúdica.

E, claro, como toda e qualquer influência cultural, o Halloween pode ser deturpado. Ou, melhor ainda, não ser deturpado de forma alguma, simplesmente assimilado de forma colonizada e passiva. Em São Paulo isso é muito comum, especialmente em famílias das classes B e A (classe média alta e classe alta). Incorporam-se elementos totalmente desconexos da realidade local, ou então aspectos nem um pouco “refinados” como se fossem o ápice da cultura meramente por serem importados. A pessoa nem sabe o que é aquilo, apenas o faz, pois é “chique”. Essa conduta citada é sim nociva, mas causada por uma ignorância, ou soberba, individual.

Como solucionar isso? Bem, não é instaurando um dia na base da lei, da canetada. As tradições, mesmo as inventadas, trazem uma bagagem. Apenas mudar o nome, via lei, de uma festa estrangeira para um personagem do folclore nacional é absolutamente estéril. Acredito que, primeiro, resgatar a força de algumas festas populares é um ótimo início. Elas ainda têm muita força no interior, mas nas grandes metrópoles, com uma população muito mais suscetível aos motivos citados anteriormente, tem perdido espaço. E, na onda da soberba das mesmas pessoas descritas, o bumba meu boi ou os doces de Cosme e Damião são vistos como “bregas” ou “coisa de pobre”. Isso quer dizer ignorar o Halloween? De forma alguma. Pelo contrário. Comemoremos o Halloween também! Aprendamos sobre outras culturas. E façamos algo em que já fomos muito bons e que contribuiu, e muito, para a cultura nacional: devoremos.

Antropofagia no Brasil em 1557, segundo a descrição de Hans Staden.

Antropofagia no Brasil em 1557, segundo a descrição de Hans Staden.

Não leitor, não morda ninguém (dessa maneira). Obviamente me refiro ao Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade, patrono de gloriosa instituição acadêmica da USP. O Movimento Antropofágico tinha como base a deglutição (daí a metáfora da antropofagia, que é diferente do canibalismo, diga-se) da cultura estrangeira, como a dos norte-americanos e dos europeus, e a dos povos internos, como a cultura indígena, dos africanos e seus descendentes, orientais, etc. Em outras palavras, não se deve negar a cultura estrangeira, mas ela não deve ser meramente imitada, mas incorporada; Oswald ironizava a submissão da elite brasileira aos países desenvolvidos e propunha a “Devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”.

Caso o leitor não saiba, o Movimento é de 1928. Oitenta e cinco anos se passaram, e aqui estamos repetindo os mesmos erros. Pior, esquecemos-nos da forma de solucioná-los e passou-se a querer decretar cultura com uma assinatura. Mudar o nome de Halloween para Saci não é antropofagia, é apenas mudar o rótulo da lata importada que é consumida. Ensine suas crianças também sobre a Cuca, o Saci, a Mula sem Cabeça. Ao indagar “doces ou travessuras?”, relembre que o Saci já aprontava. Boitatá, Boto, Andurá. Leia Cobra Norato, de Raul Bopp. Lembre-se que os portugueses já faziam lanternas de abóbora. Iara, Curupira. O folclore brasileiro é vasto. O folclore estrangeiro é vasto. Divirta-se com os dois e aprenda sobre ambos. Nesse Halloween, seja um antropófago.

Só a antropofagia nos une.

– Oswald de Andrade

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