A repercussão de textos falsos hoje e ontem: a conspiração judaica para dominação mundial

Caros leitores e amigos,

O post de ontem teve muita repercussão. Agradeço a todos vocês que se interessaram pelo espaço, comentaram (já vou responder, sempre respondo todos), leram. Vou retomar de um comentário de um leitor, e amigo, o Fernando. O episódio que citei ontem, envolvendo uma notícia fictícia sobre a Secretária Maria do Rosário, teve repercussão maior ainda. Repercussão tão grande que foi para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Um deputado estadual, ex-deputado federal, Cabo Júlio (sou radicalmente contra usar patentes, cargos, títulos, como epíteto eleitoral, um dia eu abordo esse assunto), do PMDB, discursou, em plenário (Plenário! O contribuinte mineiro pagou por isso, literalmente), sobre a notícia falsa, como se fosse verdadeira. O vídeo está aqui, caso queira assistir.

De forma resumida, o deputado mineiro é ex-deputado federal, com envolvimento confesso no caso de corrupção e desvio de dinheiro público conhecido como Escândalo dos Sanguessugas, ou Máfia das Ambulâncias. Anos depois, o cidadão é eleito, lê de forma precária um texto fictício, provavelmente recebido por alguém ou um assessor; fica “indignado” com o que leu, não checa se é verdadeiro, protagoniza um discurso de “nojo” em relação às coisas que não aconteceram, fala para Maria do Rosário levar os “bandidos para sua casa”, repete os tradicionais slogans sobre “direitos humanos para humanos direitos”, afirma que ela fez um “desserviço” e que ela “merece” os bandidos e estupradores em sua casa.

Repito: tudo isso por conta de um texto falso.

E convenhamos, desserviço? Tempo de plenário de uma Assembleia Legislativa, um deputado remunerado, uma transmissão mantida pelo estado, tudo financiado com dinheiro público do contribuinte, todos esses elementos desperdiçados com uma notícia falsa, é o que? Além, é claro, de um ótimo e cristalino exemplo de tudo que eu disse ontem, sobre a necessidade de, dentre algumas coisas, “evitar polêmicas desnecessárias” e “evitar desgastes, para aprender e para usar uma ferramenta poderosa e sem precedentes como a internet para um intercâmbio positivo de ideias, não de polêmicas vazias ou textos estéreis.”.

Outras pessoas comentaram, aqui no blog, no Facebook ou em comunidades virtuais, sobre esse comportamento ser “culpa” da internet ou da chamada “inclusão digital”. Repito minha opinião de ontem: a internet potencializou comportamentos que já existiam. As correntes falsas, ou “hoaxes”, como são chamadas contemporaneamente, são quase tão antigas quanto a imprensa. O que a internet faz é aumentar o alcance de tais falsificações ou más interpretações; além disso, como ferramenta poderosa que é, acaba bombardeando o indivíduo com tanta informação que ele simplesmente abandona seu senso crítico e cai nos comportamentos criticados ontem.

Querem um exemplo disso? Os Protocolos dos Sábios de Sião, que até hoje é divulgado muitas vezes como verdadeiro (busque no Google, caso queira). Foram publicados originalmente em 1903, mais de um século atrás, na Rússia, e contém supostas minutas e atas de congressos de líderes judeus sionistas, que teriam ocorrido no final do século XIX, com a finalidade de uma dominação global judaica, controlando as principais economias mundiais e a imprensa. Tais minutas e atas teriam sido obtidas pela Okhrana, a polícia secreta czarista; na verdade, foram forjadas pela instituição, para legitimar a perseguição antissemita na Rússia czarista, governo historicamente agressivo com os judeus.

Em 1919 os Protocolos tiveram sua primeira edição em inglês. O empreendedor Henry Ford, conhecido pela companhia automobilística que leva seu nome e pela revolução de produção conhecida como “método fordista”, patrocinou a publicação de mais de meio milhão de cópias do livro, nos EUA, na década de 1920 (um número muito grande de livros, considerando a época). Na Alemanha nazista, da década de 1930, os protocolos tornaram-se matéria escolar.

Foram publicados em diversos idiomas. No Brasil, foi editado na década de 1930, pela Ação Integralista. Já na segunda metade do século, o Presidente Nasser, do Egito, e o ditador Khadaffi, da Líbia, dentre outros, afirmavam que os Protocolos eram legítimos. No século 21, o ativista criacionista estadunidense Kent Hovind pregava pela validade das conspirações sionistas. Até pouco tempo atrás era editado no Brasil.

Edição brasileira da década de 1940 Foto: Estação Ciência da USP

Edição brasileira da década de 1940
Foto: Estação Ciência da USP

Detalhe: a fraude era investigada desde 1905 e foi comprovada em 1921. Um texto falso de mais de quatrocentas páginas, publicado mais de cem anos atrás, cuja fraude foi comprovada menos de duas décadas depois, não precisou da internet para ser disseminado. Não precisou ser enviado por email para influenciar gerações ao ódio irracional. A palavra escrita tem essa força, mesmo que seu veículo seja apenas o papel. É por isso que devemos tomar muito cuidado com as possibilidades da internet. A culpa de tais confusões não é da inclusão digital. Pelo contrário, ela talvez seja a melhor maneira de acabarmos com episódios desse tipo.

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Sobre os Protocolos dos Sábios de Sião, recomendo a graphic novel O Complô – A história secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião, editado pela Companhia das Letras. Do premiado Will Eisner (um judeu), conta a história da falsificação e os motivos da fraude ainda convencer muita gente. Uma edição bem legal, capa dura, recomendo bastante.

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Como sempre, comentários são bem-vindos.

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